Ato

Diz que me disse
daqui,
diz que me disse
dali.

Quem
conta
um
conto
aumenta
um ponto.

Mas não tem sido só um ponto,
é toda a acentuação conhecida.
É até a invenção de novos verbos.
Tentam encontrar um jeito
de justificar o que é injustificável.
Tentam a todo custo defender
pontos de vista difíceis de crer.
Conhecimento de que importa?
Se o banalizaram de tal forma
que questionam o consistente
e acreditam piamente no demente.
Todos acreditam em tudo
e ninguém questiona nada.
Estudam pelo whatsapp,
tiram dúvidas pelo yahoo respostas.

Massa de manobra.
Gente que é povo e se esqueceu.
Que luta com unhas e dentes
pelo fim da democracia.
Sem se dar conta de que ele mesmo
terá que se render a supremacia.
Tristes aqueles que não entendem
que nunca mais lhe será dada a chance
de dizer o que sente e o que pensa.
Acreditam pensar por si mesmos
mas estão inteiramente influenciados.
E defendem bravamente
uma ideologia desumana e opressora.
Não tem ciência de si mesmos
não tem consciência de classe.
Perderam a noção da realidade
e não vêem que eles mesmos
são o alvo e não o dardo,
são eles os oprimidos, os rebaixados.
Não vêem que são eles aqueles
que sofrerão as consequências
e não haverá reticências
porque teremos chegado ao fim.

Por isso luto
faço coro e oposição.
Questiono, debato e rebato.
E enquanto não me calam
eu indago e faço poesia.
E transformo minhas palavras
na minha grande arma.
Porque eu não aceito esse fim.
Eu ainda acredito nas pessoas.
Eu acredito num mundo melhor.
eu acredito no amor e na empatia.
Eu acredito na democracia.

– Juliana Bassan Ayon

Continue Reading

de braços abertos.

Ser mulher é uma coisa muito louca. A gente dá conta de tudo. Sempre. A gente corre tanto que não dá nem tempo de parar pra pensar no próximo passo porque no primeiro a gente já engatilha o segundo. A gente passa o mês sendo uma a cada dia; rainha, princesa, fada e bruxa. A gente come e a gente oferece a maçã envenenada. A gente mata o dragão, não espera ser salva. E a gente passa os dias fazendo tudo isso ao mesmo tempo em que está lidando com a tempestade dentro da gente, mas sem deixar que isso reflita do lado de fora pra nenhum outro ser perceber o tsunami que tá rolando naquele momento.
A gente ajuda, acolhe, ampara, chora com a dor do outro lembrando da nossa própria dor. A gente sempre cuida. De todo mundo, sem exceção. Mas quem cuida da gente?
Aposto que tem uma mulher ao seu lado (seja mãe, amiga, tia, irmã) que corre sempre pra dar conta de tudo, e sempre dá. Mas será que ela não está escondendo a necessidade de um abraço atrás de um sorriso?
A gente precisa a aprender a olhar mais umas pras outras. Estamos todas exaustas sempre, mas se a gente dividir o fardo não pesa tanto pra ninguém.
Precisamos aprender a se enxergar como iguais e não rivais. O futuro é feminino e estamos todas indo na mesma direção.

– Juh, de braços abertos.

Continue Reading

que azar, que azar

Eu tenho uma conta no banco e o aplicativo do dito cujo no celular, mas só uso pra consultas porque nunca tenho tempo de ir ao banco pra cadastrar a senha de quatro dígitos do token.
Eu sei que facilitaria muito a minha vida fazer tudo pelo celular, mas daí passou um dia, uma semana, um mês… E nunca cadastrei.
Daí hoje precisei de todo jeito ir ao banco direto no caixa. Não tive escapatória. E já que estava lá perguntei pro atendente se era demorado fazer isso.
– Não, moça. É rapidinho. Só aguardar o fulano ali na primeira mesa.
Fui até a primeira mesa da agência, vi um rapaz em pé e perguntei se ele era o sujeito que eu estava procurando, ao que ele me responde olhando pro crachá dele, onde estava visivelmente estampado que ele era quem eu estava procurando.
Mais um fora pra conta.
Questionei sobre o token, registrei minha senha linda de quatro dígitos, maaaaaaas…
Sempre tem um mas quando é comigo.
Chegou o.colega dele e comentou algo sobre meu número de agência. Senti uma bad vibes no ar.
Daí ambos se aproximaram.
A agência de origem da minha conta foi fechada e justo hoje, de todos os dias desse mês e desse ano, justo hoje as contas estavam migrando de agência. Ou seja, se eu tivesse ido ao banco ontem ou deixasse pra ir na segunda-feira daria certo, mas como eu fui hoje não deu.
Mais uma prova de que a lei que rege a minha vida é a lei de Murphy. 😬🙃😂

– Juh, A azarada.

Continue Reading

O que eu tenho feito da minha vida?

Tantos dias passam e a gente nem vê.
Cumprimos nossas obrigações
Sem perceber ou pensar sobre elas.
Só seguimos no piloto automático.
Abra a boca.
Coloque a comida.
Mastigue.
Respire.
Lutamos todos os dias.
Não matamos um leão por dia,
como o ditado nos faz acreditar.
Negociamos com ele.
Pois no dia seguinte ele estará lá de novo.
Ele pode até nos arrancar um braço, mas a gente não vai sentir.
Porque estamos anestesiados.
Entendemos como vida o que nos é imposto.
Acreditamos no que a tevê nos empurra goela abaixo.
E também no que vemos em nosso feed do facebook.
Não pensamos mais por nós mesmos.
Não criamos opiniões próprias.
Não sabemos mais o que é discernimento.
Seguimos uma grande multidão alienada.
Obedecemos sem questionar.
Discutimos sem nos importar.
E criamos uma vida online perfeita para esconder a podridão da vida offline.
– Juh, pensando.

Continue Reading

Compreensão

Desde que eu me conheço por gente eu passo por crises. Tudo o que acontece me afeta, mesmo que não seja diretamente comigo. E quando são comigo então, o estrago é em dobro. As coisas parecem ter um peso diferente pra mim e acho que nem eu nunca soube direito o porquê e nem como explicar. Eu não sei se eu chamaria isso de sexto sentido, mas é algo além, algo a mais, algo que transborda e eu não consigo controlar. E isso que eu sinto a mais ao invés de demonstrar, eu guardo. E tenho quase uma outra eu formada com o tanto de coisa acumulada dentro de mim. Eu não demonstro, eu guardo tudo bem escondido. E sofro calada esperando que um dia eu seja compreendida.
Será que esse dia chega logo?

Continue Reading

buscando #DoInsta

Procuro detalhes e sentidos, busco particularidades, por vezes tão esquecidas. Vejo beleza na imperfeição e na desarmonia e desse jeito faço dos meus dias mais felizes, transformando o feio dos meus dias tristes e trazendo a beleza de fora pra dentro de mim, metamorfoseando meu interior de acordo com o que eu enxergo no exterior. E eu tenho visto tanta coisa linda 💛

Continue Reading

saudade

Saí do trabalho e no caminho senti o peso de quase um mês saindo de casa cedo e voltando 13 horas depois, sem parada e sem descanso. O cansaço físico brigando com a sanidade mental pra ver quem é o mais ferrado dos dois. Dias esses resumidos em insônia, preocupação e desespero, combinados a doses cavalares de café durante o dia pra se manter alerta. O que resulta em sono leve ou ausência completa dele a noite. Ainda pensando nisso tudo, abri o portão e a primeira coisa que vi foi um pano preto no chão. Chegando mais perto, vi a estampa “Star Wars” e percebo que não era qualquer pano, era minha camiseta preferida que eu havia deixado estendida no varal. Mais pra frente mais uma e depois um bolinho delas, inclusive meus uniformes. Pandora comeu minhas roupas, pensei. Cheguei perto e examinei as peças; estavam intactas e sem nenhum rasgo. Mas tinham pelos e marcas de pata. Ela tirou as minhas roupas do varal, levou na cama dela e em lugares estratégicos do quintal e deitou em cima delas. Não eram só as minhas roupas que estavam no varal, mas foram só as minhas que ela pegou. Não tenho tido tempo de ver séries, de ler livros, de ver tv… E nem de brincar com a Pandora. Tenho chegado tarde e tão cansada que quase não tenho dado atenção a ela. Normalmente ela está sempre comigo em tudo, mas eu não tenho estado aqui pra nada. E ao surrupiar minhas roupas do varal ela me contou que estava com saudades. E pra me redimir hoje a noitada é nossa: cobertor, petiscos e Netflix. 💛

Continue Reading

conformismo

Me sinto mergulhada na mediocridade de ser eu. Sou boa em tantas coisas, mas ótima não sou em nada.
Em nenhuma área sou perita. Em nenhuma quesito ganhei nota máxima. Fui passando alcançando a média.
Nunca fui brilhante. Nunca me destaquei em algo. Era boa, mediana, razoável…
Na vida a gente nasce, cresce, toma uns capotes da vida, se arrepende de ter sido trouxa tanto tempo e morre.
Será que eu tenho que me conformar com esse fim? Será que tem que necessariamente ser assim? Será que eu tenho que assumir calada essa irrelevância que a vida empurrou pra mim?
E se eu não quiser me conformar? E se eu quiser esse destino mudar? E se eu estiver pronta pra começar a ganhar?
Eu cansei de perder. Me acabei tentando entender. Estou farta de todo dia um pouco morrer. Não quero ser invisível até desaparecer.

– Juliana Bassan Ayon

Continue Reading

cegueta

Ja perdi muita coisa nessa vida.
Já perdi o sono.
Já perdi a fome.
Perdi hora, perdi a paciência.
Já perdi gente.
Já perdi dinheiro.
Já perdi oportunidades.
De ficar calada, inclusive.
Já perdi muitos pés de meia que somem misteriosamente na máquina de lavar.
O mesmo com papéis que somem misteriosamente na minha bolsa.
Mas hoje foi a pior das piores perdas de todos os tempos: perdi o parafusinho pequenininho que prende a perninha do óculos.
Quase chorei quando a perninha despencou na minha mão e eu não vi o parafusinho ali.
Vasculhei a casa, a cama, o quarto, o sofá…
E se caiu no trabalho?
E se caiu no caminho pra casa?
E se enroscou no capacete e caiu na rua?
Que tristeza.
Senti uma lágrima se formando no cantinho do olho.
Com mais de 4 graus de miopia é um bom tanto de astigmatismo meus óculos são donos da minha vida.
Essa doeu.
E doeu mesmo, não no sentido figurado do doer, doeu porque se eu já trombo em tudo enxergando imagina cegueta?
Que fase, Juliana!

Continue Reading

Das Vantagens de ser Bobo

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
Clarisse Lispector

Continue Reading