run baby run

para ler ouvindo: “Run Baby Run” – Garbage

 

run baby run

 

Num certo ponto da minha vida eu até acreditei que tivesse algo a mais, que seria especial do meu jeito e com as minhas peculiaridades. Mas nunca fui. Sempre fui a mesmice e o de sempre. Talvez o ego faça essa mágica de nos acharmos diferentes e incríveis e, quando a realidade bate na porta nos mostrando que não temos nada pra nos distinguir na multidão, tudo dói.

Mas o show tem que continuar, mas eu não sei mais como fazer isso sendo essa máquina causadora de decepções. Por isso, enquanto posto uma foto sorrindo no espelho nas redes sociais, estou deitada há horas na mesma posição, sem conseguir dormir e me alimentar direito há semanas, tendo pesadelos diários, mas preferindo dormir a enfrentar a realidade. Tudo ao meu redor parece passar em câmera lenta e em escala de cinza, mas os dias passam na velocidade da luz e com cores quentes que chegam a queimar. O final do mês chega sem que eu me dê conta. E quando chega, me joga na parede e me exige explicação sobre a não produtividade do mês todo. Não sou como me veem. Não sou como a imagem que eu construí. Não sou nada.

Há pouco mais de um ano, tive um devaneio. E dentro desse delírio, enlouqueci. Parecia que não estava vivendo a minha própria vida, como se fosse um personagem de uma história dentro de outra história, perdida no enredo por estar fora de contexto. Tudo virou de ponta cabeça. Me despi de tudo o que era eu até então, de tudo o que sempre fui, de tudo o que sempre acreditei que fosse. E parti em busca da minha real história. Hoje vejo tudo como um desvario, uma grande alucinação de que eu merecia mais, de que eu merecia uma história digna de livro ou de filme, que eu merecia ser uma heroína ou algo além da minha habitual mediocridade. O voo foi bem alto e a queda foi igualmente imensa. E, quando caí, rezei pra não sobreviver.

Mas sobrevivi e aqui estou. Mais perdida do que nunca. Atolada num lamaçal de lágrimas e fracassos, torcendo por uma poção de invisibilidade ou por uma máquina do tempo. Nada de bom tem acontecido há meses. Mas hoje consegui escrever, apesar de. E esse bloqueio por não conseguir sangrar pelas palavras me trazia ainda mais a sensação de morte diária. O monitor cardíaco voltou a apitar, mas não sei ao certo se essa é uma boa notícia.

-Juh Bassan

Continue Reading

desconectada

para ler ouvindo: “Black Mirror” – The Arcade Fire 

“I never guessed how the mirror could ever break you”

 

Sou eu
desconectada de mim.
Eu, sozinha,
sem me reconhecer.
O reflexo no espelho
não é o meu.
Não sei quem ela é.
Sei que é assim,
tão diferente de mim.
Ela me dá saudade.
Há tanto tempo
não aparece.
Tanto tempo
que dela até se esquece.
Quem é ela?
Eu não sou.
Estou num quarto
rodeada de espelhos.
Formas geométricas
com partes de mim.
Tantos eu’s.
Escolhas, recaídas.
Tantos erros.
Dores, choro e lágrimas.
Nenhuma delas
se reconhece.
São todas estranhas.
Não partilham.
Se humilham
pelo papel principal.
Gritam e se estapeiam
por um lugar ao sol.
Os espelhos todos
estão agora em pedaços.
Não restou nada.
Todo mundo já foi embora.
Eu agora caminho
por cima dos cacos.
Meus pés sangram.
Mas não paro de andar.
Sigo em frente,
pra, enfim, achar meu lugar.

-Juh Bassan

Continue Reading

inteira

Tantas vezes eu escrevi sobre não pertencer, sobre como não me sentia parte de nada, como me incomodava não fazer parte das paisagens ao meu redor. Mas sempre pertenci a mim mesma. Me joguei pro lado como coadjuvante, mas dá minha vida a protagonista sou eu. Sempre fui minha. Sempre fui importante pra mim mesma e me compreendi nas minhas estranhezas. Eu gosto da minha companhia. Hoje vejo que sou parte mim, apenas. Sou inteira. Não nasci pra ser par. E tá tudo bem.

Continue Reading

Meu destino

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida…
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida…
Cora Coralina

Continue Reading

utopia

é como se tudo
não passasse de um sonho.
uma visão lírica e perfeita
onde sentimos o corpo flutuar,
mas que o fel da distância
nos obrigou a acordar.
e a feroz realidade
veio com charadas pra me dar
incógnitas que, de verdade,
não sei como decifrar.
nesse sonho ou delírio,
como quiser chamar,
esse sentimento era recíproco,
não havia medo de amar.
-Juh, ainda desejando sonhar.

Continue Reading

mute

Ninguém nunca se interessou em parar pra me ouvir falar, então eu sempre escrevo. Eu sou o assunto que eu mais conheço, então eu escrevo bastante sobre o que eu sinto. Eu escrevo de eu pra mim. O único lugar onde eu posso ter voz são nos meus textos. Escrevendo eu sou a protagonista. Mas eu cansei. Não sei me fazer entender. Nunca soube.

Continue Reading

profundidade

Sinto uma dor gigante só por estar aqui, só pelo fato de existir. Uma dor sempre excessiva, abundante. Que me joga desavisada na água e me afoga no mergulho exagerado de sentir. Dói tanto. Dói fundo. Mas essa dor me permite perceber que ainda tenho vida dentro de mim. Não nasci pra lugares rasos e nem pra ficar na superfície. Minha intensidade exige profundidade.

Continue Reading

enquanto questiono ainda existo.

Quem eu sou? Quem é essa que eu vejo todo dia no espelho e que não mais conheço? Que olhos são esses que veem o mundo por mim, mas que não mais os reconheço? Quem é essa que ainda sou eu, mas a quem não mais pertenço? Interrogações que não acabam mais. É como se minha alma estivesse se desligando do meu corpo. O coração ainda bate, mas não parece mais que ele é meu. Ele ainda sabe amar, mas está quase se esquecendo como se faz, assim como eu estou me esquecendo de ser. Ainda existo enquanto questiono. Amanhã já não sei mais.

Continue Reading

não consigo continuar

Todos querem seguir em frente. Somos assim, seres humanos que querem sempre seguir em frente, que precisam seguir em frente, que precisam continuar, pessoas que estão sempre vivendo e tentando superar alguma coisa. Todo dia brigando com a morte. Evitando encontrá-la ao virar a esquina. Todo dia um novo passo rumo ao que se deseja, todo dia um pouco mais além. Dias que muitas vezes parecem mais um meio passo do que um passo inteiro. Outros que não saímos do lugar. Mas às vezes, como hoje por exemplo, recuamos ao invés de avançar. Como aqueles jogos de tabuleiros, sabe? Que você joga os seus dados com a maior fé, mas a soma dos dados te faz cair bem naquele lugar que te faz voltar várias casas pra trás. A sensação é a de rolar ladeira abaixo. É a de ver desmoronar os pedacinhos todos que você vinha juntando de você mesma, tão cuidadosamente, há tanto tempo. Os pedacinhos que você tinha colado com tanta cautela com superbonder, tentando deixar as menores cicatrizes possíveis. Voltaram todos a ser só pedacinhos de novo. Eu estava indo bem, estava me reconstruindo. Mas eu não consigo mais continuar. Hoje eu, mais uma vez, sou só cacos.

Continue Reading

entrega

Essa intuição gritante, que sempre esteve pulsando dentro de mim. Essa intuição que eu sempre larguei de lado, que eu não entendia, que eu tinha medo porque não sabia explicar. Ela está aqui, cada vez pulsando mais. Cada dia mais aflorada. Cada dia conversando mais comigo. Talvez seja só esse o recado: eu não preciso entender nada, eu só preciso sentir, me entregar e mergulhar.

Continue Reading