(re) moendo

Às vezes eu penso que o mundo é um moinho mesmo, como disse o Cartola. E que só faz estraçalhar as metas, esmigalhar esperanças e destruir todos os sonhos. Mas daí eu paro e olho pro céu e vejo esse azul tão imenso, cheio de alegria e possibilidade. E tenho vontade de correr pra longe desse moinho. De jogar pedras dentro dele pra que ele quebre. Porque o barulho do moinho é tão alto que a gente não consegue escutar os pássaros cantando felizes lá de cima do Ipê. Se focamos só no barulho assustador do moinho, a gente não ouve e não enxerga o que realmente alimenta nossa alma.

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condenação

Um dor aguda

profunda e dolorida

toma conta de mim.

No peito um aperto

uma dor sem conserto

quase meu fim.

Falta o ar

não consigo respirar

sinto que morrerei.

Essa dor me domina

e me faz crer que é sina

pelo sentimento que expressei.

Sou nesse mundo toda errada

e não acho que serei perdoada

pela dor que eu causei.

– Juh, condenada.

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despedaçada

Me desfaço
e despedaço
aos seus pés.
Me desgraço
e me esculacho
já sem fé.
Divido contigo meus sonhos,
meus medos e devaneios.
E observo meus cacos,
ansiosos,
esperando você os juntar.
Mas não cola,
não gruda.
Porque você não pode
me consertar.
No fundo só eu
posso me salvar.

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vem pro meu mundo

fala comigo
me deixa saber
o que se passa
com você.

fala comigo
me deixa entender
toda essa dor
que te faz sofrer.

se abre comigo
me conta seus medos
seus sonhos e anseios
eu sei guardar segredos.

eu te juro cuidar
e prometo curar
toda sua aflição.

vem pro meu mundo
e mergulha bem fundo
no meu coração.

-Juh Bassan

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afogamento

Sinto a corrosão
do sentir.
do não poder
sentir
do sentir
e ter que engolir.
a seco, sufocando,
engasgando.
sentir
sem poder.
sentir
sem enlouquecer.
sentir e nada mais.
morrer
por sentir tanto.
e no seu próprio pranto
se afogar.

– Juh, afogada.

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Maldito Padrão

Maldito padrão
que define
e que dá razão
ao molde que oprime

que reprime a mulher
e a faz se ver feia
e poda as asas da menina
pela falsa perfeição alheia

e essa ilusória perfeição
que é sempre manipulada
acaba virando rejeição
na menina não amada

e a faz não se ver
pelos outros bem quista
por não parecer em nada
a modelo da capa da revista

– Juh Bassan

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nem viveu

Vejo rostos o tempo todo
Rostos sem expressão
Gente sem sensação
Mergulhada no lodo
Gente que sai de casa
quando o dia amanhece
E só pega o caminho de volta
quando anoitece
Gente que nem vê o filho crescer
Gente que se não fizer isso
não tem o que comer
Gente que morre pra poder viver
Trocamos vida por dinheiro
Vendemos nosso tempo
E vai chegar uma hora
Que não teremos mais tempo
As crianças terão crescido,
o cachorro envelhecido,
os pais já terão morrido…
E sobram as pessoas
Sozinhas, sem tempo
Vivendo, mas não.
Sendo engolidas pelo sistema
Gastando a maior parte da vida
Pra ganhar dinheiro
Dinheiro pra comprar coisas que nem precisamos
Que poderíamos muito bem viver sem
Dinheiro que será gasto anos tarde
Remédios pra curar as doenças
Que chegam com a idade
E acabou, morreu
Trabalhou tanto que nem viveu.

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acomodada

É engraçado como a gente se acostuma e se acomoda. Em menos de seis meses me acostumei com o silêncio de acordar sozinha e uma hora mais cedo. Me acostumei com os bom dias não respondidos. Me acostumei a passar o dia todo pisando com cuidado pra não me cortar nos cacos espalhados no caminho. Me acostumei a passar 50 minutos no ônibus na volta pra casa e também com o silêncio do trajeto. Me acostumei com as paisagens que via pela janela. Com os lugares afastados que passávamos e que mostravam cores lindas que contrastavam com a feiúra dos meus dias. A gente se acostuma. Por pior que seja. Nos acomodamos. Nos acostumamos. E ficamos com saudades. E a saudade que fica são dos céus coloridos e brilhantes me esperando na volta pra casa.

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