culpada

para ler ouvindo: Moonlight Sonata – Beethoven

Solidão é uma coisa tão relativa. Tem vezes que é até terapêutico estar só. Se conhecer traz essa sensação de plenitude ao partilhar de um momento com você mesmo, sem aquela pressão do que vamos parecer pros outros, de como seremos vistos. Eu sou dessas que me sinto muito bem com a minha própria companhia. Aliás, costumava ser.

E pensando nisso penso também em como é engraçado como somos muitos sendo um só. É engraçado pensar que somos todas as visões que todas as pessoas que conhecemos já tiveram de nós, tudo baseado na experiência. Seja algo longo ou breve, bom ou ruim, todos tem os seus julgamentos bem definidos, com bordas bem fechadas e opiniões totalmente formadas. Encontros casuais que definem pra sempre uma imagem, que a carimbam como verdade absoluta.

“Você é uma boa pessoa.”

“Você é uma péssima amiga”

“Você tem escrito muitas coisas tristes, tenta escrever algo mais alegre.”

“Ninguém se importa com o que você sente.”

“Você não parece ser quem escreve seus textos.”

“Você é boa no que faz, mas não precisamos mais de você.”

“No último mês muitas pessoas elogiaram seu trabalho, mas toma aqui a sua demissão.”

“Não entendo porque escreve.”

“Você escreve muito, não é objetiva.”

“Você é uma bagunça.”

“Limite de 2000 caracteres seria um desafio pra você.”

“Você é burra.”

“Só se aproximam de você porque precisam de algo.”

“Eu te amo, mas você deveria mudar seu jeito de ser.”

“Tentei gostar de você, mas não consegui.”

Opiniões de fora que se enrolam e misturam às opiniões de dentro.

“Não sou suficiente.”

“Ninguém sente a minha falta.”

“Até que sou boa no que faço.”

“Sou medíocre em tudo o que tento fazer.”

“Nunca serei lembrada.”

“Não sou alguém apaixonável.”

“Eu não deveria existir.”

Somos tantos, mas somos apenas versões. Versões do que queremos ser e do que querem fazer a gente ser. E nessa lambança a gente às vezes se perde. Não se sabe mais o que é real. E é um caminho sem volta.

Mas… como alguém pode chegar perto de quem somos se nem nós mesmos sabemos disso?

Contradições, contradições e contradições.

Só que nessa bagunça a solidão chega. Mas ao contrário daquela bonitinha lá do início, de conhecimento interior e tal, essa dói. Você está só com alguém que não conhece. Um estranho morando dentro de você mesma, um inimigo vivendo dentro da sua própria carne, comendo as suas entranhas.

E sabe, é nesses períodos que daí eu me afasto, sumo e desapareço. Isso é uma coisa que eu sinto e faço desde sempre, principalmente quando estou em abismos profundos. Principalmente quando eu sinto essa desassociação de mim mesma. Quando só quero fugir e não ter que falar ou me explicar, porque na realidade não sei pautar o que acontece. Eu não quero ter que falar sobre os meus medos porque se eu falar, é como se eles fossem virar realidade. Eu não quero ter que falar sobre os pesadelos que tenho quase todas as noites e nem sobre os demônios que falam comigo nesses sonhos. Eu não quero assumir que eu estou quebrada em milhões de pedaços. Porque mesmo que eu me esforçasse pra explicar, ninguém nunca entenderia e ninguém conseguiria ouvir sem julgar.

E esse mundo conectado, essa ânsia de respostas rápidas, pioram tudo. Não quero ter conversas profundas porque elas machucam. Não quero responder as perguntas sobre estar tudo bem porque não está. Não é agradável contar certas coisas, não é confortável admitir que está falhando. Eu só quero distrair a cabeça com coisa inútil e tentar parar de pensar em morrer. Só que essa ótima forma de disfarçar é também um ótimo jeito de parecer só uma babaca que ignora as pessoas e não se importa com nada.

E por fim dou assim mais combustível pros julgamentos que tanto sempre me massacraram e que me jogaram nesse limbo, veja só. Sou a única culpada da minha solidão. É, talvez eu seja mesmo uma babaca.

– Juh Bassan

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um dia a menos

A gente nunca imaginou
que ia doer tanto,
mas ah, como dói.
A gente nunca espera
sofrer,
chorar,
perder.
Mas perdemos.
Todo o tempo.
O tempo todo.

Ninguém idealiza noites mal dormidas nem olhos inchados e olheiras fundas e escuras.

Ninguém deseja a solidão do quarto escuro.

Nem a dor da inutilidade individual perto da grandeza de todo o resto.

A insuficiência do querer ser algo a mais perante o desdém com o que mundo nos olha nos olhos.

Não temos controle de nada.
A dor não se sabe
de onde vem.
A solidão também.
Sempre perdemos.
Perdemos o tempo.
Cada segundo vivido
é um segundo a menos,
uma dor a menos,
um sorriso a menos.
Sempre perdemos.
Vivemos todo dia.
Todo dia um dia a menos.

– Juh Bassan

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gelo e fogo

Se apaixonar é arte. É dança. É uma coreografia insana e instintiva, um jogo de braços, pernas, olhares e toques. Mas solo nunca funcionou muito bem.

A gente sempre pensa em amor como algo bom, mas esquece que por trás da calmaria de amar, do frescor que vem do bater das asas de um anjo, existem as brasas de um demônio que esquentam as nossas entranhas, que flamejam os nossos olhos e que, se a gente não toma cuidado, queima. E no desconhecer o desconhecido e mergulhar na intensidade de amar, nos queimamos.

Amor é brasa, é fogueira. Acende dentro do peito algo que antes não estava ali, aquece, esquenta, ferve… É combustível. Faz vir força de onde não tem. É quente e doce, faz salivar, enche a boca, satisfaz o paladar. E um beijo, depois de provado, não há a possibilidade de se esquecer o sabor.

Daí um dia esse amor acaba. Se é dos dois lados vira um monte de cinzas numa paisagem esquecida em preto e branco. E só. Mas às vezes acaba só de um lado. Ou nunca existiu de um dos lados. Daí a labareda aumenta e pende pra um dos lados, cercando, deixando a beira da morte. Porque quem ama está preso num edifício em chamas, ardendo e queimando de um jeito que deixa cicatrizes enormes e absurdas, quem ainda ama acabando em cinzas, junto com tudo o que construiu. Faz desintegrar, perder a identidade, o brio, a vaidade e a sanidade. Se tiver mesmo coragem pra amar, tem que vir preparado pra morrer.

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refletir, cogitar e entender

Penso demais, penso muito.

Tanta coisa pesada, dolorida, densa…

Tanta coisa que parece que vai faltar o ar.

Mas daí é como se uma melodia começasse a tocar,

como se meus devaneios tomassem forma,

se encaixassem,

encontrassem um sentido…

Sílabas se combinam, se juntam e rimam.

É uma poesia surgindo, musicando meus pensamentos.

– Juh Bassan

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run baby run

para ler ouvindo: “Run Baby Run” – Garbage

 

run baby run

 

Num certo ponto da minha vida eu até acreditei que tivesse algo a mais, que seria especial do meu jeito e com as minhas peculiaridades. Mas nunca fui. Sempre fui a mesmice e o de sempre. Talvez o ego faça essa mágica de nos acharmos diferentes e incríveis e, quando a realidade bate na porta nos mostrando que não temos nada pra nos distinguir na multidão, tudo dói.

Mas o show tem que continuar, mas eu não sei mais como fazer isso sendo essa máquina causadora de decepções. Por isso, enquanto posto uma foto sorrindo no espelho nas redes sociais, estou deitada há horas na mesma posição, sem conseguir dormir e me alimentar direito há semanas, tendo pesadelos diários, mas preferindo dormir a enfrentar a realidade. Tudo ao meu redor parece passar em câmera lenta e em escala de cinza, mas os dias passam na velocidade da luz e com cores quentes que chegam a queimar. O final do mês chega sem que eu me dê conta. E quando chega, me joga na parede e me exige explicação sobre a não produtividade do mês todo. Não sou como me veem. Não sou como a imagem que eu construí. Não sou nada.

Há pouco mais de um ano, tive um devaneio. E dentro desse delírio, enlouqueci. Parecia que não estava vivendo a minha própria vida, como se fosse um personagem de uma história dentro de outra história, perdida no enredo por estar fora de contexto. Tudo virou de ponta cabeça. Me despi de tudo o que era eu até então, de tudo o que sempre fui, de tudo o que sempre acreditei que fosse. E parti em busca da minha real história. Hoje vejo tudo como um desvario, uma grande alucinação de que eu merecia mais, de que eu merecia uma história digna de livro ou de filme, que eu merecia ser uma heroína ou algo além da minha habitual mediocridade. O voo foi bem alto e a queda foi igualmente imensa. E, quando caí, rezei pra não sobreviver.

Mas sobrevivi e aqui estou. Mais perdida do que nunca. Atolada num lamaçal de lágrimas e fracassos, torcendo por uma poção de invisibilidade ou por uma máquina do tempo. Nada de bom tem acontecido há meses. Mas hoje consegui escrever, apesar de. E esse bloqueio por não conseguir sangrar pelas palavras me trazia ainda mais a sensação de morte diária. O monitor cardíaco voltou a apitar, mas não sei ao certo se essa é uma boa notícia.

-Juh Bassan

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tchau, 2019!

Último dia do ano. Não tem como a gente não se obrigar a fazer uma retrospectiva, não tem como não fazer mentalmente uma revisão dos momentos que marcaram o ano, de repensar as atitudes e os caminhos. Teve muita coisa boa nesse ano, mas teve muito tombo e porrada na cara. Eu não gosto de anos ímpares, eles são sempre difíceis, pesados e doloridos. Mas acho esse deixou todos os outros no chinelo. Em 2019 eu completei 35 anos e nessa etapa da vida (que eu acreditava que já estaria certa de tudo), percebi que não tinha certeza de nada. Me vi sem saber quem era eu e pra onde eu deveria ir. E está sendo árdua essa busca por mim mesma, essa busca por entendimento, essa busca por algo que eu ainda não sei o que é. Mas o que sei é que toda essa dor me fez despertar de um jeito antes nunca visto por aqui. Não fossem todas essas dores, eu não seria alguém em busca de evolução e autoconhecimento. Eu não teria enfrentado medos e não teria me permitido fazer coisas que nunca tinha tido coragem de fazer. Eu não teria enxergado toda a podridão dentro de mim e não estaria me esforçando pra sair da mediocridade e ser alguém um pouco melhor. E é assim que eu termino o ano. Ainda sem saber de nada, ainda com a mente cheia de perguntas sem resposta – respostas que talvez eu nunca encontre -, cheia de ideias, desejos e sonhos. Morei tanto tempo na escuridão dentro de mim que eu não sabia mais o que era a luz. E é isso que eu desejo pro ano que vem: luz! Serei vela, fósforo, lanterna ou fogueira. Serei meu próprio sol, se assim precisar. E nunca mais vou permitir que meu coração se perca novamente naquele abismo escuro de onde eu saí.31

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