O Eterno Retorno (Quando Nietzsche Chorou)

Nietzsche: Nós devemos morrer… Mas na hora certa. A morte só não é aterrorizante quando a vida já se consumou. Já consumou a sua vida?

Breuer: Eu já consegui muitas coisas.

Nietzsche: Mas aproveitou a vida? Ou deixou-se levar por ela? Você está fora da sua vida… sofrendo. Por uma vida que nunca foi vivida.

Breuer: Não posso mudar minha vida. Tenho minha família, meus pacientes e alunos. É tarde demais.

Nietzsche: Não posso lhe dizer como viver de outra forma, viveria segundo o plano de outra pessoa, mas talvez eu possa lhe dar um presente Josef. Eu poderia lhe dar um pensamento.

E se um demônio lhe dissesse que esta vida da forma como vive e viveu no passado você teria de vivê-la de novo. Porém inúmeras vezes mais e não haverá nada novo nela. Cada dor, cada alegria, cada coisa minúscula ou grandiosa retornaria para você mesmo. A mesma sucessão, a mesma sequência, várias e várias vezes como uma ampulheta do tempo. Imagine o infinito! Considere a possibilidade de que cada ato que você escolher Josef, você escolherá para sempre! Então toda vida não vivida permaneceria dentro de você! Não vivida… por toda a eternidade!

Gosta desta idéia…? Ou detesta…? Escolha!

Friedrich Nietzsche

você pode assistir a cena aqui.

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mergulho

vivo essa vida corrida
que implora ser vivida
que rouba a minha calma
e voraz suga minha alma

que me tira os anseios
aumenta a dor que já existe
acentua meus receios
e faz de mim vazia e triste

quero reaprender a amar
na serenidade mergulhar
e me banhar em euforia

quero me reencontrar
contra o mundo lutar
e celebrar minha autonomia

ser de novo dona de mim
e quem sabe assim
ser, enfim, feliz

– Juliana Bassan Ayon

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Eu (II)

Esse poema faz parte do livro “Charneca em flor”, publicado em 1931.

Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca! –
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma”

– Florbela Espanca

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8 de dezembro de 1984 – Matosinhos, 8 de dezembro de 1930), foi batizada como Flor Bela Lobo, e opta por se autonomear Florbela d’Alma da Conceição Espanca. A sua vida, de apenas 36 anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos, que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização, feminilidade e panteísmo. Autora polifacetada: escreveu poesia, contos, um diário e epístolas; traduziu vários romances e colaborou ao longo da sua vida em revistas e jornais de diversa índole, Florbela Espanca antes de tudo é poetisa. É à sua poesia, quase sempre em forma de soneto, que ela deve a fama e o reconhecimento. A temática abordada é principalmente amorosa. O que preocupa mais a autora é o amor e os ingredientes que romanticamente lhe são inerentes: solidão, tristeza, saudade, sedução, desejo e morte. A sua obra abrange também poemas de sentido patriótico, inclusive alguns em que é visível o seu patriotismo local: o soneto “No meu Alentejo” é uma glorificação da terra natal da autora.
Somente duas antologias, Livro de Mágoas (1919) e Livro de Sóror Saudade (1923), foram publicadas em vida da poetisa. Outras, Charneca em Flor (1931), Juvenília (1931) e Reliquiae (1934) saíram só após o seu falecimento.
fonte: Wikipedia
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ironia

Corri pra ver o arco-íris. Mas devido aos meus tropeços, cheguei atrasada. Só consegui ver o céu cinza cheio de nuvens exasperadas e nada gentis. E é irônico como isso tem acontecido sempre. Eu tenho corrido muito, mas tenho estado sempre atrasada. Sempre perco o belo, o confortante, o feliz. Sempre espio pela janela os outros felizes contemplando as paisagens bonitas, mas eu mesma não consigo ver a beleza, porque a grade fechada na minha cara tampa a minha visão. Tenho corrido tanto, mas ao invés de correr pra viver, tenho corrido pra morrer. Sou obrigada a olhar somente pras paredes, pra lugares sem cor e sem vida. Vejo só nuvens carregadas de tempestade. E nunca mais vi nenhum arco-íris.

– Juliana Bassan Ayon

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ímpar

Devo ter surgido num deslize
Num erro, num defeito
Saí estranha da forma
Em nada me reconheço
Não encontro iguais
Não vejo similaridades
Não sou unidade,
Fragmento ou pedaço
Não sou porção de nada
Nem parte de conjunto nenhum
Sou peça única, solitária
Eu, inabitada
Eu por mim mesma
Vim sozinha pra essa vida
E do mesmo jeito dela partirei.
– Juh, desvalida.

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maldição

Eis que dentro de mim sinto
a maldição de ser poeta
de carregar um coração faminto
e uma mente louca e inquieta
crio histórias e fantasias
sorrio vivendo na imaginação
suplico por grandes alegrias
e descubro em mim
uma grande paixão
sonhos que me fazem arrepiar
mas o que seria de mim
se não pudesse sonhar?
ah, que grande agonia!
me sinto amaldiçoada
por ver em tudo poesia,
de amor ficar atordoada
e por sentir tudo em demasia
injusta essa maldição
que me faz amar assim
me faz berrar a negação
e me obriga a tudo isso
dar um fim.
que grande maldição
ter nascido poeta
e ser tão pateta
por expor minha rendição.

– Juliana Bassan Ayon

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arrebatada

Encontros e
desencontros
Idas e vindas
algumas vezes
idas sem vindas
Chegadas sem aviso
E partidas sem despedida
Vida corrida
sentimento impreciso
A voz que grita
na minha cabeça
Confusa e escusa
Bem contraditória
Não tenho escapatória
Fui laçada
Caçada
Abatida
Ok, eu me rendo
Acabou
Você ganhou.
– Juliana Bassan Ayon

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afogamento

Tem dias em que toda a turbulência que existe dentro de mim formam um tsunami. Ondas gigantes de desespero. Afundo, me debato e quase me afogo. Fico submersa, de olhos arregalados e de repente tudo some e eu perco a consciência. Tudo fica em silêncio. De repente, tudo vai voltando a clarear As cores vão reaparecendo. E dentro do meu caos reencontro minha calmaria.
– Juh, maremoto.

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contradições

A casca é fluida e descomplicada.
No interior, um emaranhado
avassalador de problemas.
Límpida como água
pra quem via de longe.
Forte como vodka
pra quem sente de perto.
Se olha de fora,
é simples, comum
e desembaraçada.
Mas os poucos
que ela deixa entrar
mergulham numa intensidade
que não acaba mais.

– Juliana Bassan Ayon

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