gelo e fogo

Se apaixonar é arte. É dança. É uma coreografia insana e instintiva, um jogo de braços, pernas, olhares e toques. Mas solo nunca funcionou muito bem.

A gente sempre pensa em amor como algo bom, mas esquece que por trás da calmaria de amar, do frescor que vem do bater das asas de um anjo, existem as brasas de um demônio que esquentam as nossas entranhas, que flamejam os nossos olhos e que, se a gente não toma cuidado, queima. E no desconhecer o desconhecido e mergulhar na intensidade de amar, nos queimamos.

Amor é brasa, é fogueira. Acende dentro do peito algo que antes não estava ali, aquece, esquenta, ferve… É combustível. Faz vir força de onde não tem. É quente e doce, faz salivar, enche a boca, satisfaz o paladar. E um beijo, depois de provado, não há a possibilidade de se esquecer o sabor.

Daí um dia esse amor acaba. Se é dos dois lados vira um monte de cinzas numa paisagem esquecida em preto e branco. E só. Mas às vezes acaba só de um lado. Ou nunca existiu de um dos lados. Daí a labareda aumenta e pende pra um dos lados, cercando, deixando a beira da morte. Porque quem ama está preso num edifício em chamas, ardendo e queimando de um jeito que deixa cicatrizes enormes e absurdas, quem ainda ama acabando em cinzas, junto com tudo o que construiu. Faz desintegrar, perder a identidade, o brio, a vaidade e a sanidade. Se tiver mesmo coragem pra amar, tem que vir preparado pra morrer.

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refletir, cogitar e entender

Penso demais, penso muito.

Tanta coisa pesada, dolorida, densa…

Tanta coisa que parece que vai faltar o ar.

Mas daí é como se uma melodia começasse a tocar,

como se meus devaneios tomassem forma,

se encaixassem,

encontrassem um sentido…

Sílabas se combinam, se juntam e rimam.

É uma poesia surgindo, musicando meus pensamentos.

– Juh Bassan

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run baby run

para ler ouvindo: “Run Baby Run” – Garbage

 

run baby run

 

Num certo ponto da minha vida eu até acreditei que tivesse algo a mais, que seria especial do meu jeito e com as minhas peculiaridades. Mas nunca fui. Sempre fui a mesmice e o de sempre. Talvez o ego faça essa mágica de nos acharmos diferentes e incríveis e, quando a realidade bate na porta nos mostrando que não temos nada pra nos distinguir na multidão, tudo dói.

Mas o show tem que continuar, mas eu não sei mais como fazer isso sendo essa máquina causadora de decepções. Por isso, enquanto posto uma foto sorrindo no espelho nas redes sociais, estou deitada há horas na mesma posição, sem conseguir dormir e me alimentar direito há semanas, tendo pesadelos diários, mas preferindo dormir a enfrentar a realidade. Tudo ao meu redor parece passar em câmera lenta e em escala de cinza, mas os dias passam na velocidade da luz e com cores quentes que chegam a queimar. O final do mês chega sem que eu me dê conta. E quando chega, me joga na parede e me exige explicação sobre a não produtividade do mês todo. Não sou como me veem. Não sou como a imagem que eu construí. Não sou nada.

Há pouco mais de um ano, tive um devaneio. E dentro desse delírio, enlouqueci. Parecia que não estava vivendo a minha própria vida, como se fosse um personagem de uma história dentro de outra história, perdida no enredo por estar fora de contexto. Tudo virou de ponta cabeça. Me despi de tudo o que era eu até então, de tudo o que sempre fui, de tudo o que sempre acreditei que fosse. E parti em busca da minha real história. Hoje vejo tudo como um desvario, uma grande alucinação de que eu merecia mais, de que eu merecia uma história digna de livro ou de filme, que eu merecia ser uma heroína ou algo além da minha habitual mediocridade. O voo foi bem alto e a queda foi igualmente imensa. E, quando caí, rezei pra não sobreviver.

Mas sobrevivi e aqui estou. Mais perdida do que nunca. Atolada num lamaçal de lágrimas e fracassos, torcendo por uma poção de invisibilidade ou por uma máquina do tempo. Nada de bom tem acontecido há meses. Mas hoje consegui escrever, apesar de. E esse bloqueio por não conseguir sangrar pelas palavras me trazia ainda mais a sensação de morte diária. O monitor cardíaco voltou a apitar, mas não sei ao certo se essa é uma boa notícia.

-Juh Bassan

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tchau, 2019!

Último dia do ano. Não tem como a gente não se obrigar a fazer uma retrospectiva, não tem como não fazer mentalmente uma revisão dos momentos que marcaram o ano, de repensar as atitudes e os caminhos. Teve muita coisa boa nesse ano, mas teve muito tombo e porrada na cara. Eu não gosto de anos ímpares, eles são sempre difíceis, pesados e doloridos. Mas acho esse deixou todos os outros no chinelo. Em 2019 eu completei 35 anos e nessa etapa da vida (que eu acreditava que já estaria certa de tudo), percebi que não tinha certeza de nada. Me vi sem saber quem era eu e pra onde eu deveria ir. E está sendo árdua essa busca por mim mesma, essa busca por entendimento, essa busca por algo que eu ainda não sei o que é. Mas o que sei é que toda essa dor me fez despertar de um jeito antes nunca visto por aqui. Não fossem todas essas dores, eu não seria alguém em busca de evolução e autoconhecimento. Eu não teria enfrentado medos e não teria me permitido fazer coisas que nunca tinha tido coragem de fazer. Eu não teria enxergado toda a podridão dentro de mim e não estaria me esforçando pra sair da mediocridade e ser alguém um pouco melhor. E é assim que eu termino o ano. Ainda sem saber de nada, ainda com a mente cheia de perguntas sem resposta – respostas que talvez eu nunca encontre -, cheia de ideias, desejos e sonhos. Morei tanto tempo na escuridão dentro de mim que eu não sabia mais o que era a luz. E é isso que eu desejo pro ano que vem: luz! Serei vela, fósforo, lanterna ou fogueira. Serei meu próprio sol, se assim precisar. E nunca mais vou permitir que meu coração se perca novamente naquele abismo escuro de onde eu saí.31

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oco

No vazio das ruas da cidade eu tenho me perdido.

Ando assim, meio sem rumo,

buscando tanta coisa,

querendo encontrar razões, motivos e perdões.

E nisso eu acabo me distanciamento da realidade.

O vazio da cidade é complementado pelo vazio das pessoas que caminham por ela.

Corações iguais ao meu, buscando coisas, sem as encontrar.

No fim nem são assim tão vazios.

Todas as pessoas estão assim, como eu,

todos cheios de coisas, de desejos, de amor pra dar.

Mas despejam isso tudo nos lugares e sentidos errados.

E eu, confesso, também tenho um péssimo senso de direção.

-Juh, sem bússola.

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poesia sem sentido

De que me adianta a poesia?
De que me adianta ser poeta
se não há quem compreenda
a intensidade toda
que jorra dos meus versos?
Eu sempre mergulho só,
sinto em excesso.
E sozinha grito o meu amor,
e o confesso aos prantos
em versos apaixonados.
É doloroso.
Eu me faço ver
te faço me ler.
Sou uma alma perdida
que transforma tudo
em prosa e poesia.
E me amar não deveria ser
uma cortesia.
Eu só queria me sentir vista.
Um amor intenso
caloroso e real,
nada que eu tivesse
que ajoelhar e implorar.
Mas nunca pareceu possível.
Revejo nisso
minha sina, afinal.
O presságio
de que nunca serei alguém
digna de se amar.
Sempre uma sombra despercebida
na penumbra dessa medíocre vida.
– Juh Bassan04

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morte e vida

Desci a rua segurando o choro. Três quarteirões até o ponto de ônibus pareceram 3000 kilômetros. Antes do primeiro quarteirão acabar eu desabei. Aquele choro descontrolado, as lágrimas molhando a cara toda e o pescoço também. Cheguei no ponto de ônibus e sentei. As costas curvadas pra frente, o corpo fazendo força pra se encolher todo. As pessoas começaram a me olhar.

Uma senhora se aproximou, se sentou ao meu lado, tirou um saquinho de lenço de papel da bolsa e me deu um.

– O que aconteceu? – perguntou baixinho.

Só consegui chacoalhar a cabeça de um lado pro outro, tentando dizer que não era nada, pra não se preocupar.

Ela insistiu:

– Alguém querido morreu?

Chorei mais alto e mais dolorido. Porque sim, metaforicamente era isso.

E respondi:

– Meu coração, senhora. E sem ele eu deixei de existir.

 

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