A carta que não vai ser entregue.

Parece que tem uma mão grandona apertando o meu coração. E dói, como se fosse dividi-lo em milhares de partes. É a saudade que aperta no peito e me deixa sem ar, sem chão. Mesmo depois de pouco mais de oito anos, eu sinto como se você ainda estivesse aqui, Pai. Parece que a qualquer momento você vai voltar de uma viagem longa e que vai me abraçar forte e sorrir e dizer que agora vai ficar tudo bem, que tudo vai se ajeitar. A nossa vida virou de ponta cabeça depois que você se foi. Nós nunca mais fomos os mesmos. A mãe foi uma guerreira por cuidar de nós três tão bravamente como ela fez. Mas nós 4 nos isolamos depois disso. É como se cada um tivesse somente os seus próprios problemas pra resolver e não enxergasse os problemas dos outros. E assim tem sido desde que o Papai do Céu decidiu te levar pra junto d’Ele. Em casa reina um misto de egoísmo e auto-piedade e parece que isso não vai acabar nunca. Faltam as suas broncas, pra colocar ordem na bagunça. Falta o seu olhar, só o olhar, pra fazer com que as coisas sejam feitas direito. Falta a tua autoridade de chefe de família.
Eu nunca pensei que diria isso, mas eu queria tanto uma bronca sua, agora, Pai. Umas palmadas na bunda, até. Um sermão bem dado, daqueles que demoram e que fazem a gente chorar, percebendo o tamanho da idiotice que cometeu. Um chacoalhão, pra me fazer dar um rumo na vida. Um castigo pra eu aprender o que não se deve fazer. Queria contar pra você, Pai, todos os medos que me assombram e escutar os seus sábios conselhos. E depois chorar no teu ombro e ganhar um abraço bem apertado. A gente nunca chegou a conversar sério sobre nada, eu acho. Quando falávamos era sempre em tom de brincadeira e risos. Eu queria conversar com você sobre tantos assuntos, Pai. E ouvir a tua opinião sobre todos eles. Queria falar tanta coisa que eu não falei pra você, inclusive o quanto eu te amo e te admiro. O quanto eu sou feliz por ter sido escolhida por Deus pra ser tua filha. E da mãe também. Às vezes acho que eu não mereço ter tido a sorte de ter pais tão bons quanto vocês, e me culpo por não ter te dado o valor merecido quando eu deveria. Outras vezes fico procurando em mim coisas que pareçam com vocês, pra fazer com que eu me sinta melhor e digna de proporcionar algum tipo de orgulho a vocês.
Você faz tanta falta! Todos os dias, principalmente nas últimas semanas, eu tenho pensado bastante em você. É tanta coisa acontecendo de uma vez. Às vezes eu paro e fico imaginando como seria a nossa vida se você ainda estivesse aqui, qual atitude você tomaria em determinada situação. E quase sempre termino com os olhos marejados e questionando a decisão de Deus de te levar daqui. Eu já questionei tudo, muitas e muitas vezes. É pecado, eu sei, mas eu não consegui não procurar um sentido, um porque. Não encontrei nada. Só que isso é uma coisa que a gente nunca vai entender, nunca vai descobrir o sentido. Existe um propósito, como tudo na vida, mas não cabe a mim ou a qualquer outra pessoa descobrir e nem entender. Só resta se conformar.
Eu não sou e nem passo perto de uma “filha exemplo”, mas eu tô me esforçando. Onde quer que você esteja, eu sei que está olhando por nós quatro e nos ajudando a escolher o caminho. E não quero te decepcionar. E é também por você que tô tentando mudar, melhorar e evoluir.
Pai, te amo muito! Você vai ser pra sempre o meu herói.

– Juliana Bassan Ayon
A trilha sonora é essa porque ele amava música clássica e ensaiamos as quatro estações
várias vezes no meio da sala pois ele dizia que iria dançar primavera comigo no meu casamento.

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4 Comentários

  1. O que dizer depois de ler essa carta?! Sem palavras…
    Desejo que vc tenha sempre essa certeza… seu pai está olhando por vcs.
    E que Deus conforte seu coração moça ^^

    Até!
    =]

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