Um sonho real.

Tinha sido um dia de cão. Tudo tinha dado o mais errado possível e o que ela mais queria era chegar em casa, tomar um banho e dormir. Chegou e não tinha ninguém em casa, era só ela e ela mesma aquela noite. Entrou e abriu as janelas. O calor estava infernal. Foi direto pro banho e ficou lá, deixando a água cair nas costas e nem percebeu que tinha ficado ali por quase meia hora. Saiu do banho, se trocou e deitou no sofá. Ligou a TV e pra variar nada, nada e nada… Parou num canal aleatório, mas não demorou muito, já estava com os olhos pesados de sono. Estava cansada fisicamente e emocionalmente também. Fechou os olhos e ficou ali, num quase cochilo, mas pensando em tudo o que acontecera até então. Dali a dois dias ela faria aniversário e ela se perguntava por que tantos anos tinham se passado e nada acontecido. Todo mundo falava, mas ela não acreditava que depois dos 15,18 anos a vida voa e hoje percebia que era verdade. Parecia que ontem mesmo tinha sido a festa de 15 anos surpresa que ela ganhou. Mas viu que não tinha mudado muita coisa daquela época até agora. Ela continuava infantil e briguenta, chata e desbocada. Mas mais madura. Sabia que tudo o que havia passado tinha feito com que ela amadurecesse, mas não o suficiente. O rosto nem tinha mudado muito. Os cabelos continuavam os mesmos, mas estavam mais bem tratados. Mas em compensação ela estava 3 graus mais cega. As pernas continuavam finas, os peitos grandes e a bunda pequena, embora um pouco mais cheinha que 10 anos atrás. Quase a mesma coisa se for ver, tirando as estrias e celulites. Se bem que a barriga estava bem diferente, digamos mais flácida. Culpa do sedentarismo, da preguiça e do McDonalds. E dos programas de namorados que na maioria das vezes se resumia a sair pra comer. Ela continuava sem poder dirigir, já que ainda não tinha tido coragem de tirar carta. Estava muito mais insegura e dependente dos outros do que era quando mais jovem. Deu-se conta que nem tinha muito que comemorar e a ideia de fazer uma festinha ou qualquer comemoração que fosse, causava enjoo. Pra quê? Pra comemorar a falta de competência pra fazer as coisas darem certo? Desejou naquele instante um buraco pra enfiar a cabeça e se esconder do mundo e dos problemas dele. Ficou enumerando as oportunidades que deixou passar, as coisas que poderia ter feito, onde estaria se tivesse seguido seu coração… Nesse instante, foi arremessada pra fora de seus pensamentos por um suspiro alto, vindo de outro cômodo da casa. Ficou estática e um arrepio percorreu toda a sua espinha. Quem seria? Ninguém tinha chegado ainda, ela tinha certeza. Ou não? Levantou devagar e foi caminhando lentamente até a porta do quarto, que estava aberta. Olhou pra dentro dele e viu que, parada de costas pra porta, havia uma garota, pequena, magrinha, com os cabelos louros e cacheados presos num rabo de cavalo, fuçando em algumas coisas que estavam em cima da escrivaninha.
– Qu… qu… quem é você?
Num movimento leve e ao mesmo tempo rápido, a garota se virou de frente pra ela e por um momento ela sentiu o chão sumir sob seus pés.
– Eu sou você, não está se reconhecendo, não? – respondeu a garota, sorrindo.
Ela ficou em choque, com medo, sentiu vontade de gritar, mas o grito não saiu. Estava se vendo ali, na sua frente, no seu próprio quarto, só que anos mais nova. Mas como podia?
– Co… como você veio parar aqui?
– Vindo, ué…
– Maa… maaas, por que?
– Ei, para de gaguejar. Que boba! Eu não achei que eu fosse ficar assim quando eu ficasse mais velha – disse em tom irônico, e cruzou os braços em seguida.
Ela não podia acreditar no que estava acontecendo. Era loucura demais acreditar naquilo. Mas num impulso, mesmo com medo, decidiu arriscar e continuou a conversa:
– Mas posso saber então o que você quer comigo?
– Ah, mas é claro que pode! Eu quero saber o que foi que você fez com a MINHA vida, com os MEUS sonhos!
Foi pega de surpresa novamente.
– Tá querendo dizer o que com isso?
– Tô querendo dizer o que você entendeu, ué. Quero saber por que é que você se abandonou desse jeito e deixou pra trás todos os planos que eu tinha! Lembra? Arrumar um emprego legal, guardar uma quantia boa por mês pra com 18 anos tirar carta, comprar um carrinho e quem sabe até ir morar sozinha. Fazer alguma coisa importante pro mundo, sei lá. Ser independente, livre, importante! Olha pra você! Em todos esses anos você não fez nada que fosse digno de merecer um elogio…
Ela engoliu em seco e ficou em silêncio. Era até engraçado provar da sua própria insolência. Sentiu um aperto no peito por não falar mais com aquela paixão toda sobre seus planos. Irritou-se com tudo aquilo. Não que o que ela – ela mesma, mais nova – estava falando não fosse verdade, era sim e doía saber que era, mas ela não podia jogar tudo isso na cara dela assim. Sentiu-se no direito, por ser mais velha e dona da vida de agora, de se impor e ergueu o tom de voz:
– Primeiro olha o tom, mocinha. Você ainda é muito pirralha pra entender o que é a vida. E segundo que eu não tenho que te dar satisfação de nada, afinal a vida é minha também, não é? Nos dias de hoje, muito mais minha do que sua.
Ela – mais nova – ficou extremamente irritada.
– Mas você é o MEU futuro e me deve satisfação sim do que fez com ele! Eu não quero ser você daqui a 10 anos…
– Pois se conforme, é esse seu futuro. Agora dá pra voltar de onde você veio e me deixar em paz?
– Não, não volto. Você acha que ta certa, mas não ta não. E eu não aceito ter essa vida! Você precisa fazer alguma coisa.
– Ah é? Então amanhã me jogo duma ponte, certo?
– Você pode até ser cabeça dura, mas não tem coragem. Ta sendo idiota e dramática.
– Olha quem fala!
– Mas pelo menos eu não faço um dramalhão por qualquer coisinha. É patético. Você é patética, ta precisando ser mais prática.
Ela estava realmente se irritando com aquela situação toda e tinha vontade de se pegar pelo pescoço. Mas respirou fundo, ficou em silêncio, como que se procurando as palavras certas e, baixando o tom de voz, respondeu:
– Ta, eu sei que eu fiz tudo errado, eu sei que eu poderia ter feito muito mais coisa, mas o que eu posso fazer agora? To indo rumo ao fundo do poço, se você quer saber… E eu não me sinto nem um pouco orgulhosa de mim e nem nisso aqui eu me transformei.
A garota percebeu que estava conseguindo o que queria desde o começo.
– Você tem muito o que fazer, é só você querer! Sério, eu vim aqui porque quero te ajudar…
– Mas como?
– Olha pra você, você tem tudo que precisa pra ser feliz, tá aí dentro, só falta você encontrar…
Ela sentiu um nó na garganta, como ela tão mais nova e inexperiente podia ter as palavras tão certas pra ela mesma daquele jeito?
– Meu recado ta dado, só depende de você, de mais ninguém. A vida ta aí, pedindo pra ser vivida e não só empurrada com a barriga como você vem fazendo. Faz o que você tem que fazer, preciso ir embora agora…
– Não, espera aí, me fala mais, me ajuda … Me fala pelo menos como você veio parar aqui…
Nesse instante o telefone começou a tocar, e o barulho foi ficando cada vez mais alto e ensurdecedor. Ela tapou os ouvidos, porque doía. A cabeça parecia que ia explodir. No susto, levantou correndo e foi atender. Não encontrou o telefone na base, voltou e viu que ele estava ali, do lado dela no sofá. Atendeu:
– Alô?
– É da casa da Maria?
Ficou em silêncio.
– Oi, tem alguém na linha? É da casa da Maria?
Ficou mais um pouco em silêncio, com se a voz não quisesse sair, mas por fim respondeu:
– Não, não tem ninguém aqui com esse nome.
– Tá bom, desculpa o engano!
Ainda ficou escutando o silêncio do telefone por uns instantes até que finalmente desligou. Sentou e sentiu a boca seca e o coração batendo forte. O que tinha acontecido? Que loucura toda foi aquela? Não sabia explicar. Levantou e foi até o quarto, espiou pela porta e não tinha ninguém ali. Ninguém mais. Aliás, ninguém esteve ali naquela noite além dela mesma. Questionou-se em voz alta:
– Foi só um sonho, então? Por que isso aconteceu comigo?
Sentou na cama e ficou olhando pro quarto e lembrando do sonho mais real que já tivera até aquele dia. E soube que a partir dali, não seria mais a mesma…

{Juliana Bassan Ayon}

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