A casca

Olhando de fora eu pareço uma pessoa forte, segura, cheia de si. E parece mesmo, as pessoas acreditam. Porque eu me esforço pra que seja assim. Porque eu não gosto de parecer frágil e vulnerável. Porque eu não quero que ninguém saiba das minhas inseguranças, que não são poucas. Mas tem dias que elas aparecem como se fossem uma tsunami, e dessa vez derrubaram esse muro de proteção que eu havia construído.

Eu nunca me achei bonita, nunca me achei inteligente, importante ou interessante. Na realidade eu sempre me senti em segundo plano e sempre me coloquei nos lugares mais como figurante do que no papel principal. Porque sempre teve alguém que roubava a cena e eu nunca entrei na briga, me conformava e ia pra platéia.
Na escola por exemplo, o cara de quem eu gostava nunca soube que era dele que eu gostava. Isso começou na quinta série, se eu não me engano. A gente conversava e ele me falava sobre outras meninas e eu aconselhava, ajudava ele nas provas, mas nunca saiu disso. E eu dizia pra todo mundo que gostava de um outro menino, que tinha quase o mesmo nome dele e era o fodão da escola, pra despistar. Daí a gente mudou de sala, nós nos distanciamos e daí que eu nunca falei nada mesmo. Porque eu não me achava boa o suficiente pra competir com as outras meninas. Tinham tantas outras meninas bonitas, ele ia querer o que comigo? Nunca quis competir e fiquei na minha. E ninguém nunca soube disso, muito menos ele.
Com amigas também. Sabe quando você tem uma amiga que você acha que é sua melhor amiga, mas ela também tem outra amiga que é pra ela uma melhor amiga? Eu sei que tem espaço pra todo mundo, mas eu nunca soube lidar com isso. Me sentia pior do que a amiga em questão e caía fora. Acho que é por isso que não tenho tantas amigas assim. Porque não sei mantê-las, embora quisesse muito. Eu sempre acho que não sou bem vinda, que vou atrapalhar, que ninguém sente a minha falta. Que vão encontrar outra amiga melhor do que eu. E me afasto. E daí pode parecer que eu é quem não preciso mais e então ninguém me procura. E eu fico sozinha.
Depois eu comecei a trabalhar e sempre foi a mesma coisa. Sempre me achei ruim no que eu fazia e isso fez de mim muito crítica e exigente comigo mesma. Já que não sou boa, não posso falhar. E me fez ficar cada vez mais detalhista e perfeccionista. Até chegar num nível elevado, quase paranóico.
Os elogios normalmente sou eu quem faço aos outros. Mas é dificil de eu ouvir um elogio ao que eu faço. E eu me acostumei tanto a não escutar que quando falam alguma coisa parece mentira ou que estão tirando uma com a minha cara. E isso me fez ultra dependente dos outros. 
E fora isso tem também todas as coisas ruins que eu já fiz na vida, que por mais que tenham sido coisas bobas e idiotas continuam aqui me assombrando. E elas sempre me fizeram crer que cada coisa ruim que acontecia na minha vida era uma maneira de eu pagar o que havia feito. E isso fez com que eu acreditasse cada vez menos em mim.
E o que eu quero dizer com tudo isso? Que nesses últimos tempos isso tudo o que eu contei está sendo colocado em prova. E essa sensação de desdém comigo mesma está se despedaçando aos poucos e está sendo superada. E não é porque eu tô aprendendo a dar valor a mim mesma. Os outros estão. E depois de tanto tempo acreditando que eu era a pior pessoa do universo, ver que tem gente que vê coisa boa em mim de verdade fez toda a diferença. E finalmente descobrir que eu sou realmente boa em alguma coisa me fez acreditar que aí possa estar o sentido que eu sempre procurei. O jeito de encontrar o meu lugar no mundo.

{Juliana Bassan}

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