Indagações

Para ler ouvindo:

Eu não sei onde foi que eu perdi essa mudança toda nas pessoas. Não sei se eu estava ocupada demais dentro do meu mundo que não percebi como o egocentrismo está crescendo. É como se as pessoas estivessem ocupadas demais com o próprio umbigo pra se lembrar de quem está ao lado. É raro ver alguém ser gentil com o outro. E não só com estranhos, principalmente com conhecidos e com a própria família. Gritaria, ofensas, grosserias. Filhos gritando com os pais, pais gritando com os filhos, brigas no trânsito, pavio curto no trabalho. É como se nada mais fosse importante o suficiente pra ser tratado com amor.
É clichê, mas às vezes me pergunto onde é que o mundo vai parar desse jeito. ‘Por favor’ e ‘Obrigado’ são raridade de se ouvir. Uma palavra de apoio e incentivo também. Parece que hoje em dia pra fazer o bem a alguém as pessoas precisam de uma garantia de que receberão algo em troca. E quando o fazem, jogam na cara na primeira oportunidade, como se tivessem o direito de exigir alguma coisa de volta. E nessas horas em que a carência de gentileza nesse mundo me deixa agoniada é que lembro do meu pai e saudade aperta mais ainda. Ele sempre colocava os outros a frente dele mesmo. Tinha seus defeitos? É lógico que tinha. Mas conforme eu vou vivendo e aprendendo com os tropeços da vida, mais admiro essa qualidade dele. Nossa situação financeira nunca foi ótima. Mas apesar disso toda sexta-feira ele ia ao açougue e fazia as compras da semana. E teve uma época em que um de nossos vizinhos estava desempregado e a mesma coisa que ele trazia pra casa pra nós, ele comprava pra eles. Eu não entendia, questionava e achava um absurdo ele fazer aquilo. Até que um dia, enquanto ele me levava pra escola de carro, passamos por uma menina que estava na minha classe, mas que eu não conhecia direito. Ela estava indo a pé pra escola e eu comentei que ela estava na minha sala. Ele perguntou se eu queria que ele parasse e desse carona a ela e eu disse que não, que nem conhecia a menina direito. Daí ele me perguntou se fosse o contrário, se ela estivesse de carro e me oferecesse uma carona se não seria uma boa. Eu concordei que seria. E daí ele me disse as frases que mudaram a minha maneira de ver o mundo desde então: “Quando tiver a oportunidade de fazer alguma coisa a alguém, faça. Não deixe a aportunidade passar. E não faça para os outros o que você não gostaria que fizessem pra você.” Eu lembro que fiquei a manhã inteira pensando naquilo. E ele tinha razão, como tem até hoje. Se antes de falar ou fazer qualquer coisa as pessoas seguissem essa linha de pensamento, imagina quão melhor não seria a nossa vida?
Mas independente dos coices que tenho tomado da vida, não vou mudar meu foco e a minha maneira de ser e de agir. Não que eu seja o modelo de perfeição, longe disso. Ainda tenho muito o que aprender. Mas não é pelo fato de não estar recebendo gentilezas do mundo que vou deixar de ser gentil quando puder ser gentil. Não é por não ter uma mão estendida quando eu preciso, que vou deixar de estender a minha pra alguém. A minha parte vou me esforçar pra continuar fazendo.

{Juliana Bassan}

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