juliana, a saudade e os pecados capitais

Para ler ouvindo:
Breathe – Pink Floyd

Tem vezes que encontramos dentro de nós sentimentos tão ruins e mesquinhos que até nos surpreendemos. Isso sempre acontece comigo, porque a verdade é que é mais fácil encontrar o pecado e a maldade nos outros ao invés de nós mesmos. Ultimamente tenho procurado e encontrado mais pecados dentro de mim do que fora.

Esses dias eu estava com o Jorge na nossa casa (a futura!) e quando estávamos indo embora vimos que o vizinho da frente estava lá, o cumprimentamos e daí ele puxou assunto. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que o vizinho não era realmente o vizinho, era o pai da dona da casa, a minha verdadeira vizinha. Ele estava fazendo toda a parte da mão de obra da reforma/construção da casa da filha. Daí contou que a vida inteira tinha trabalhado por elas, falou da luta que foi criar as filhas, do tanto que ele e a esposa batalharam e do quanto ele se sentia orgulhoso por poder ajudar a filha a construir a casa dela. Brotou amor das palavras daquele pai apaixonado pela família. E nesse momento me bateu um aperto imenso no coração  porque ele me fez lembrar muito o meu pai.

A paixão com que ele contou cada luta da vida dele e cada obstáculo que ele passou fez com que meus os olhos ficassem marejados. Eu não sei quem é a menina, minha vizinha. Não sei o nome, não sei o que ela faz da vida e nunca vi a cara dela. Mas ali, naquele momento, eu senti inveja. Não dela necessariamente, ou do que ela tem ou do que ela é, mas do pai dela. E não do pai dela propriamente dito, eu invejei o fato dela ter o pai dela e eu não ter mais o meu. Invejei o fato de que ela pode dividir esse e outros tantos momentos maravilhosos com o pai dela e eu não. Invejei o fato de que se ela já for casada, certeza que o pai dela deve a ter levado até o altar, ou se ainda não é, ele com certeza fará isso. Invejei o fato de que toda vez que ela olhar cada pedacinho da casa, ela vai lembrar que foi o pai dela quem fez. Ele vai estar junto com ela nos churrascos de domingo. Ele vai brincar com os netos, vai levar eles andarem de bicicleta, passear no parquinho. Vai contar histórias, vai ver o caderno da escola, vai encobrir das broncas que ela der. Invejei tudo isso e mais muitas outras coisas que passaram pela minha cabeça, porque a possibilidade de viver isso foi tirada de mim.

Estou aqui escrevendo este texto como um tipo de confissão. Essa perda é a minha maior dor, a minha maior frustração, o meu maior arrependimento. Dor que nunca sara, frustração que nunca acaba e arrependimento que tortura. Dói toda vez que eu encontro um pai amoroso como era o meu e sim, eu tenho uns surtos egoístas que me fazem questionar porque o meu pai morreu e não o dos outros. E depois de pensar isso tenho vontade de dar cabeçadas na parede por ter sido tão idiota a ponto de pensar dessa maneira. Mas é mais forte do que eu. Me sinto frustrada toda vez que vejo o quanto ele faz falta na minha vida e da minha família e do quanto a falta da presença dele aqui desestruturou tudo e nos deixou abandonados. E me arrependo demais por não ter falado vezes suficientes o quanto ele era importante e do quanto eu o amava.

Por vezes já me senti tomada pela ira. Já tive vontade de me meter em brigas dos outros quando vi alguém destratando o pai ou desejando que ele morresse. Dar um tapa na boca, que nem meu pai fazia comigo quando eu era criança e respondia pra ele faltando com o respeito. Às vezes me seguro, mas às vezes falo demais e acabo arranjando confusão. Mas essa sou eu, fazer o que. Como ele mesmo dizia, sempre falei mais do a que devia.

E sabe, tô aqui escrevendo tudo isso porque hoje fazem 11 anos que ele morreu e o que está tomando conta de mim é saudade e choro. E todo ano é assim. No próximo dia 25 seria aniversário dele e depois vem o dia dos pais em agosto e a raiva fica viva aqui dentro. Essa é pra mim a época mais torturante e agoniante do ano, seguida do Natal. E eu tenho pra mim que essa sensação nunca vai mudar ou passar e que vai ser assim pra sempre. E eu tenho percebido que estou ficando cada vez mais surtada nessa época. Só espero não virar uma velhota amarga por isso e espero de coração que um dia eu consiga aceitar e perdoar o que destino fez comigo, e reencontrar a serenidade.

{Juliana Bassan Ayon}
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