cara feia

Chegou em casa com as sacolas do supermercado no braço e já de longe viu os olhos estranhos das vizinhas que a encaravam.
Olhos invasivos.
Olhos julgadores.
Abaixou a cabeça e pegou a chave dentro da bolsa, depois de apanhar um pouco por causa do tanto de sacola que tinha nos braços. Abriu o portão e entrou rápido pra dentro do quintal. Respirou fundo. Pronto, acabou a agonia. Ali ela se sentia segura.
Apesar de se sentir sempre julgada e condenada pelas futriqueiras da vila, ela sabia que não era nada daquilo que falavam e a acusavam. Era apenas quieta e tinha um jeito diferente de se vestir e de ser. Já ouvira comentários de que a achavam triste e apática, também por conta das roupas escuras, das músicas melancólicas que ouvia no rádio e da cara sempre séria que vestia ao sair de casa.
Mas ela se sentia feliz, sendo o que era. Só não aguentava mais julgamento. E depois de muito pensar, resolveu que deveria mostrar ao mundo que poderia ser diferente e extravasar a felicidade que carregava no peito. Mas do seu jeito.
Saiu de casa e foi à casa de materiais de construção duas quadras dali. Comprou tintas, pincéis, molduras, sprays e voltou pra casa. Comeu alguma coisa e se deitou no sofá esperando a noite ficar bem escura. E só daí pôs em prática o seu plano.
A vizinhança acordou diferente. Todo mundo olhava com os olhos arregalados pra casa colorida da menina esquisita que morava no 203. E comentavam entre si sobre ela, mas desta vez tinham sorrisos em seus rostos. Ela pintou todas as paredes de preto. E escreveu em todas elas, com cores vivas e luminosas, as frases alegres das músicas tristes que ela ouvia. Mostrou a alegria que sentia dentro da tristeza que vivia.
Abriu o portão e deu um sorriso ao receber vários sorrisos de todos que ali estavam. E se ouviu um barulho de alguma coisa caindo no chão e quebrando. Ao lado do portão estava a cara feia, carrancuda, rachada ao meio. Ela não era mais útil naquela rua.

{Juliana Bassan Ayon}

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