em casa.

Para ler ouvindo: Waterloo Sunset – The Kinks

Pegou a bolsa e ficou alguns segundos olhando pro nada pensando se não tinha esquecido de alguma coisa. Saiu apressada e quando estava quase chegando ao portão, lembrou-se que o celular havia ficado em cima da mesa e voltou correndo pegar. Não podia sair sem ele. Estava atrasada e aflita. Saiu e começou a subir a rua quando viu de longe o ônibus passando direto pelo ponto, o ônibus que ela deveria estar dentro. Droga! Teve vontade de gritar e xingar alto. Teria que ir a pé. Não tinha outro jeito, outro ônibus só dali meia hora. E foi andando com passos largos e rápidos. Olhava no relógio e pensava que não daria tempo. Num certo ponto decidiu correr.
E correu.
Ela tinha que correr.
E mesmo com o joelho machucado correu.
Mesmo cansada correu.
Eram 35 quadras até o lugar onde ela precisava estar. Quando estava chegando foi diminuindo o ritmo até parar. Abaixou, colocou as mãos nas coxas e sentiu o joelho latejar. Respirou fundo e tentou recuperar o fôlego. Continuou descendo a metade do último quarteirão devagar e avistou-o de longe. Não queria que ele a visse daquele jeito. O cabelo estava desarrumado, as roupas desalinhadas e a maquiagem um pouco borrada. Mas ficou feliz por ter conseguido chegar a tempo. Fuçou na bolsa até achar um elástico e fez um rabo de cavalo. Pensou que de nada adiantou essa produção toda e poderia até ter economizado uns minutos a mais e assim não teria perdido o ônibus. Estava ajeitando a blusa quando se sentiu observada. Parado perto de uma árvore estava ele, olhando pra ela de longe com um esboço de sorriso no rosto. Ela abriu os braços e fez um sinal mostrando a situação em que estava, toda molambenta. Ele deu de ombros, mostrando que não se importava com isso, e foi até ela. Deu-lhe um beijo no canto da boca, a pegou pela mão e disse:
– “Vem que tá na hora”.
Andaram juntos até um banco de madeira improvisado que tinha ali. Sentaram-se lado a lado. Ela tirou o celular da bolsa, pegou os fones, deu um lado pra ele e ficou com o outro. Entrelaçaram os braços, ela deitou a cabeça no ombro dele e ficaram em silêncio olhando o céu e ouvindo música.
E era assim todos os dias, desde que se conheceram. Nesse mesmo horário se encontravam para verem juntos o pôr do sol. O céu que estava azul claro foi ficando amarelado, depois foi ficando laranja, depois vermelho, violeta, e depois azul bem escuro. Daí assim já dava pra ver a lua sorrindo no céu. A agitação da correria toda passou, ela enfim se acalmou.
Ali ela esquecia todas as dores e medos.
Ali ela se sentia completa e feliz.
Ali ela se sentia em casa.
– Juliana Bassan Ayon

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