versões de mim

 

 

Sonhei essa noite que eu tinha outras vidas. Outras vidas reais, paralelas a minha vida de hoje. Eu tinha essa mesma cara e essa mesma idade e todas as outras Julianas também. Todas estavam vivendo exatamente o mesmo dia, mas cada uma delas em algum momento havia tomado um rumo diferente e isso tinha alterado e feito diferente os seus destinos. Cada situação tinha opções de escolha, e pra cada opção surgia uma nova “eu” com um futuro diferente. As decisões tomadas, as escolhas feitas, cada uma teve uma consequência diferente e isso tinha alterado os caminhos percorridos, fazendo com que cada “eu” tivesse a sua própria história e personalidade. Eram muitas “eu”, vindas de muitas opções de escolha diferentes. Eu estava em um corredor grandão, sem começo e nem fim, cheio de portas fechadas. E atrás de cada porta tinha uma possibilidade de mim. Logo na minha frente tinha uma porta roxa e preta, com um aviso de proibido. A curiosidade foi grande e abri. Vi uma Juliana imatura e irresponsável, estacionada na adolescência rebelde, vivendo uma vidazinha medíocre e fútil, e cercada de gente errada. Fechei logo a porta pra não ser vista e senti uma decepção pelo que eu havia me tornado ali. Estava de novo sozinha no corredor e pra cada lado que eu olhava era uma infinidade de portas, com cores e formatos diferentes. Fui andando e reparando em cada detalhe que cada uma delas tinha e daí teve uma do lado esquerdo que me chamou a atenção. Era de madeira antiga, parecia surrada e gasta. Estava cheia de adesivos e cartões postais, como se cada detalhe da porta fosse sozinho contar uma história. Abri com cuidado, me escondendo pra espiar, e vi uma Juliana independente e aventureira, andando sozinha pelo mundo só com uma mochila nas costas. Achei bem legal e cobicei aquela vida! Mas quando me vi, eu estava sentada num canto, sozinha, fazendo mil perguntas para o universo e frustrada por não encontrar em lugar nenhum as respostas que procurava. Senti pena daquela vida vazia. Fechei a porta e voltei pro corredor. Fui andando de novo pra um dos lados, observando as portas e me perguntando se eu gostaria mesmo de ver mais alguma daquelas outras versões. Um pouco mais a frente vi uma porta escura, brilhante e grande, onde parecia que a madeira havia sido talhada à mão. Achei que ali eu seria alguém de sucesso e abri. Vi uma Juliana madura e bem sucedida, realizada profissionalmente, admirada e respeitada, mas tão amargurada! Tinha o coração feito pedra de gelo de tão duro, frio e mesquinho. Achei triste e fiquei feliz de não ser ela. Ao lado dessa tinha uma porta com algumas partes descascadas e com a dobradiça quebrada, mas que tinha cara de um dia ter sido bonita. Abri com cuidado pra não despencar e vi ali deitada em uma cama de lençóis brancos uma Juliana moribunda, conformada com a vida de merda que levava, sem perspectiva nenhuma de melhora e já sem forças pra lutar. Senti um aperto no coração e aí foi a primeira vez que senti vontade de chorar. Hesitei em abrir mais portas e me decepcionar com o que veria, mas a curiosidade acabou sendo maior que o medo e continuei andando pelo corredor e abrindo mais algumas portas. Vi uma Juliana com o coração partido e a cara carrancuda, distribuindo coices e patadas em quem tentasse alcançar seu coração ferido; vi algumas Julianas com bocas que não sorriam mais e olhos tristes e opacos, que há muito não tinham brilho algum; vi uma Juliana que ria demais, ria exagerada e desesperadamente, mas eram risos rasos e falsos, porque graça de verdade mesmo não tinha. Abri várias portas e vi várias versões de mim, vi várias histórias que eu poderia ter vivido, vi vários lugares que eu poderia ter visitado, outras tantas pessoas que eu poderia ter conhecido, outros amores que eu poderia ter amado… De nenhuma delas gostei tanto quanto gosto de mim hoje. Daquela eu ali, vivendo contente atrás da porta colorida, toda desenhada e rabiscada com letras de música, textos e poemas. E fiquei feliz de estar vivendo a melhor versão de mim.
 {Juliana Bassan Ayon}

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