Procurando.

 

Lúcia gostava de se definir como uma andarilha. Era uma pessoa que procurava. Coisas, sentidos, rumos. Passou a vida toda em busca de algo que desse algum sentido a sua vida. Saiu de casa cedo, logo após os pais morrerem. Viajou pra muitos lugares, teve todas as profissões que pôde, se apaixonou por algumas e odiou outras. Andou por vários caminhos, correu o mundo. Conheceu muitas pessoas, fez grandes amigos e teve muitos amores. Mas sempre tinha a sensação de que faltava alguma coisa dentro daquela vida ampla de possibilidades; Sempre existiu um vazio. Depois de quarenta anos, um mapa todo rabiscado indicando os lugares que visitou e muitos adesivos colados na mala, depois de muitos anos sem ficar mais de seis meses em uma só cidade, cansou e resolveu que deveria fixar-se em algum lugar, afinal já não era mais tão jovem. Mas não sabia naquela imensidão de mundo onde era o seu lar. Por fim escolheu voltar pra cidade onde nasceu, uma cidade tranquila e pacata, onde poderia descansar o corpo e a cabeça. Começaria e terminaria no mesmo lugar.

Comprou uma casa e a decorou com as lembranças das suas viagens e das histórias que viveu. Transformou aquela casa no seu canto, em cada detalhe da casa tinha um pouco da sua personalidade. Pintou, reformou, decorou. Torceu pra terminar tudo logo. Queria se sentir em casa de novo, aconchegada. Mas naquele dia quando tudo acabou, quando não tinha mais nada seu pra chegar, nada pra colocar no lugar, isso não aconteceu. E se perguntou se algum dia a sua busca chegaria ao fim.

Na manhã seguinte se levantou e andou um pouco pelos cômodos da casa, observando tudo. Enquanto se preparava pra ir à padaria buscar algo pra comer, já que a geladeira estava vazia, bateram a sua porta. Ela achou estranho, pois ainda não conhecia os vizinhos e da família ninguém sabia ainda que ela havia voltado. Foi curiosa até a porta e quando a abriu viu um rosto familiar, porém cansado e marcado pelo tempo. Sentiu um frio percorrer toda a sua espinha quando reconheceu aquele sorriso caloroso e os olhos expressivos que há tanto tempo ela não via. Ele era Pedro, seu vizinho e melhor amigo de infância. Aquele rosto que ela viu pela última vez quando saiu de casa aos vinte anos. Por coincidência ele morava na rua pra onde ela havia se mudado e a reconheceu no dia anterior enquanto ela descarregava o resto da mudança. O estranho conhecido na porta a puxou e a abraçou apertado. Lúcia se sentiu transportada de volta pra uma época longe e feliz. E ali naquele abraço teve a certeza de que passou anos procurando o que sempre esteve a apenas 5 minutos do portão.

 -Juliana Bassan Ayon

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