Eu acredito no Girl Power

Para ler ouvindo: The Lady is a Vamp – Spice Girls

 

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Éramos eu e mais 3 amigas inseparáveis. Estudávamos juntas e nos dávamos muito bem. Nos sentíamos maduras, maiorais e inatingíveis. Três de nós estávamos namorando e sempre saíamos todas juntas. Daí um dia uma largou o namorado.

Foram vários acontecimentos até chegar a esse fim, mas em meio a muitas coisas acontecendo, ela estava finalmente se sentindo livre, dona de si novamente.

Ela estava bem com ela mesma, fazendo o que tinha vontade, beijando os caras que ela queria. Não demorou muito para que ela virasse motivo de falatório. Ganhou diversos apelidos, foi taxada de biscate, piranha, vadia. Ela não estava “se dando ao respeito”. E alguns caras que nem com ela tinham ficado começaram a espalhar que tinham ficado com ela e, inclusive, ido mais além.

Os caras podiam fazer isso desde que o mundo era mundo, mas onde já se viu uma menina se comportar assim? Ela tinha que pagar pela audácia.

Ela virou o assunto preferido das rodinhas. Todo mundo sabia quem ela era e todos tinham alguma história para contar. Eu me meti em muitas discussões para defender, mas não são dessas que eu me lembro. Ainda me corrói por dentro quando lembro das vezes que eu ouvi falarem coisas dela e não me posicionei e não a defendi. Porque dentro de mim, porque na minha cabeça limitada e preconceituosamente moldada desde quando eu era criança, aquilo de certa forma tinha a sua razão de ser.

Foi uma guerra contraditória dentro de mim. Eu não conhecia o feminismo, eu ainda não enxergava totalmente que as mulheres têm o direito de serem e fazerem o que quiserem. Graças a essa educação machista e limitada que a sociedade nos impõe, chegamos ao triste absurdo de chamá-la num canto e pedir que ela parasse, que ela começasse a “se valorizar”, porque senão nenhum cara iria querer namorar com ela.

Ela argumentou que a maioria do que estavam dizendo era mentira, que era boato e chorou. Dissemos que como “boas amigas” que éramos, tínhamos que protegê-la e era isso que estávamos fazendo.

Mas no fundo, o grande medo era o de ser taxada de vadia também. E dos nossos namorados se importarem com aquilo. Sucumbimos a pressão do mundo, nos deixamos vencer. Calamos o nosso próprio discurso de que poderíamos ser o que quiséssemos, que poderíamos fazer o que tivéssemos vontade.

Estávamos saindo da adolescência e entrando na vida adulta e calamos a mulher forte e independente que estava nascendo em nós. Não éramos mais maduras, nem maiorais e muito menos inatingíveis.

Daí os anos foram passando e eu nunca esqueci esse episódio. Sempre lembrava daquilo e dizia pra mim mesma: “Tá muito errado isso aí.” Não foi certo, não é justo que isso continue acontecendo. Eu fui uma péssima amiga. Eu falhei quando ela mais precisava de apoio. Eu deixei que ela acreditasse que todas aquelas mentiras eram verdade e que sim, ela era uma vadia, puta, suja.

Não, amiga. Você não era nada daquilo, você apenas foi vítima.

Vítima como tantas outras mulheres. Situações parecidas já vimos em amigas, conhecidas e até com a gente mesma. A parte boa é que a gente cresce e passa a ter acesso a informação, como eu ao feminismo e agora ao projeto I AM THAT GIRL. E assim consegue abrir a mente, enxergar erro nas próprias atitudes e assim evitar que outras meninas sofram como essa minha amiga sofreu.

Hoje, eu criaria a hashtag #somostodasvadias e lutaria para que as pessoas não destruíssem a vida da minha amiga com mentiras, lutaria para deixar claro que todas temos o direito de fazer o que quisermos da nossa vida. Mas há 12 anos, fui covarde e me arrependo disso.

E mulheres, parem de julgar as outras mulheres! A gente foi criada assim, eu sei. É difícil, é contraditório, e eu mesma ainda estou passando por isso. Mas a gente precisa questionar e não aceitar tudo como nos é imposto. Homens estranhos quando se encontram num churrasco depois de 10 minutos são amigos, mulheres se dividem em rodinhas e 10 minutos depois estão malhando o outro grupo.

E sempre foi assim, desde o primário.

Mulheres não se veem como amigas, se enxergam como rivais. E olha, não sei se vocês sabem, mas estamos todas no mesmo barco. Somos julgadas, assediadas, discriminadas e estereotipadas todas da mesma forma. Deveríamos ser solidárias umas com as outras, mas muitas vezes ajudamos a disseminar fofocas, culpas e picuinhas.

O machismo está aí desde sempre e não vai sumir da noite pro dia. Mas está na hora de nós mulheres começarmos a mudar a maneira como nos vemos e nos unir pelo mesmo ideal.

E termos orgulho de todas sermos mulheres.

O machismo está aí desde sempre e não vai sumir da noite pro dia. Mas está na hora de nós mulheres começarmos a mudar a maneira como nos vemos e nos unir pelo mesmo ideal.

E termos orgulho de todas sermos mulheres.

*Esse texto foi publicado originalmente no blog do projeto I AM THAT GIRL: São Paulo, que tem orgulho de fazer parte de um movimento global para inspirar garotas a SER, AMAR, EXPRESSAR E SER QUEM ELAS SÃO. Estarei lá escrevendo a coluna “Eu acredito no Girl Power”, juntamente com outras meninas maravilhosas que estão juntas lutando por um mundo melhor e igualitário. 😉

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