discrepância

para ler ouvindo: Under The Bridge – RHCP

A chuva caía mansinha, melancólica e serena, contrastando com o cinza escuro do céu carregado de água, numa ferocidade pronta pra ser tempestade. E eu me vi exatamente como o céu; cinza e enfurecida por dentro, mas tranquila e fleumática por fora. Eu gosto de grandes contrastes, mas não gosto deste. E talvez seja porque esse contraste pareça demasiadamente comigo. E é de certa forma perturbador se ver tão nitidamente assim.
Andei a longos passos até encontrar um lugar pra me abrigar do frio daqueles pingos cortantes, mas não corri. Hoje é um dia daqueles que não tenho pressa de chegar. Tenho pra onde ir, mas não queria. Desejei ter o poder de segurar o relógio. Não queria ver ninguém, mas precisava. Até que o inevitável aconteceu e eu tive que encarar. Mais uma vez dei o meu melhor, me entreguei, mas não valeu a pena. Vai trouxa, pensei. Por fora disfarçadamente o sorriso amarelo e amigável, por dentro um vulcão em erupção pronto pra briga. Mas de que adianta? Pessoas cruéis estão por todos os lugares, muitas vezes disfarçados e dissimulados. É inevitável o confronto e as feridas abertas. Volto pra casa sozinha e abro um vinho pra me fazer companhia. Que raio de gente é essa? Ligo o rádio e está tocando uma das minhas músicas favoritas. Respiro fundo. Ela diz sobre como foi meu dia hoje, eu e a cidade, sozinhas e chorando. Choro de novo ouvindo a música, mas ali naquele momento tenho uma certeza: por mais dolorido que seja, eu não vou me abalar. O que coisas como essa me ensinaram é que as pessoas só oferecem aquilo que possuem, as atitudes são reflexo do que são. Mesmo retalhada eu ainda escolho refletir amor.
– Juliana Bassan Ayon

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