O que deixar.

Quando eu tinha 10 anos eu queria logo ter 15 porque eu odiava ser tratada como criança. Quando cheguei nos 15 eu percebi que ser adolescente não era como eu imaginava, que era terrível se ver no próprio corpo, e queria ter logo 20 pra daí poder ser dona do meu nariz e de mim. Quando chegou os 20 eu percebi que eu não tinha ideia nenhuma do que estava fazendo nesse mundo e rezei pros 25 chegarem logo e eu me encontrar. E os 25 chegaram e neles eu me perdi mais do que me encontrei; só trabalhava, pagava contas e dormia nas horas vagas. Daí vieram os 30, a idade que a gente imagina que estaremos plenos em todas as áreas da vida, e foi quando eu me senti insana e completamente desestabilizada por causa de duas hérnias na coluna. E comecei a questionar meu rumo, meus caminhos e meus medos.
Eu ainda não sei o que a vida é e nem o que eu sou na vida. E talvez eu chegue nos 35, 40 anos e ainda assim não descubra. Mas eu tenho tentado ser alguma coisa além de toda a minha mediocridade de antes. Conforme a gente cresce vamos acreditando que uma hora vai acontecer uma mágica e que finalmente tudo vai se encaixar e começar a dar certo. E isso nunca acontece. E daí assim a gente vai adiando as coisas, esperando o milagre. Mas o fato é que nunca está bom do jeito que estamos. A gente sempre espera mais e enquanto espera o que nunca acontece, não vive o que poderia ter vivido. E não percebe que a mágica está no hoje, no perder antes de ganhar, no sofrer um pouco pra evoluir, no se perder pra se encontrar. E não vemos que pode ser que o amanhã nem chegue a existir, que a idade que a gente espera que seja milagrosa pode nunca chegar. Eu não economizo mais palavras e tenho dito muito a quem eu gosto o que penso e o que sinto. Não economizo mais nem roupa, nem louça. Não vou guardar nada pra uma ocasião especial porque a ocasião especial é hoje. Se eu estiver afim vou de jaqueta de paetê na padaria. Se eu quiser, como sucrilhos no prato chique de sopa do aparelho de jantar. Se der vontade, tomo água na taça de cristal. Vou usar tudo antes de morrer, vou ser tudo o que eu quiser ser antes de partir. Porque eu não posso escolher o que levar dessa vida. Mas eu posso escolher o que deixar.
– Juliana Bassan Ayon

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