espelho

Hoje o espelho falou comigo.
Me contou coisas
que eu tenho tentado não ver.
Me disse coisas
que tenho tentado esquecer.
Não sou mais tão jovem,
não adianta querer esconder.
Não tenho mais aquela luz
que existia e brilhava em mim.
Minha escuridão hoje faz jus
a quem se aproxima do fim.
Carrego riscos no meu rosto.
Marcas de tanto desgosto.
Os riscos que já fingi não ver.
As lamúrias que tento esquecer.
Sou a mesma,
mas não sou mais.
Estou mais velha,
rugas acidentais.
Vejo rugas, inclusive
na testa da caveira
que faceira
estampa a minha coxa.
Vejo linhas na minha pele
como um solo ressecado.
Meu corpo não é mais meu.
Meu cérebro envelheceu.
Não penso mais
com tanta clareza.
Não possuo mais
tanta esperteza.
Minhas bochechas
estão caídas.
Minha pele
menos elástica,
menos bonita.
Vida sarcástica.
Minha pele está líquida.
Me vejo derretendo.
E rigidez só enxergo
nos meus sentimentos.
Meus peitos,
antes tão firmes,
hoje estão flácidos.
E quando, nua,
deito de bruços,
vejo eles pendurados,
formando gotas
bicudas e redondas.
E vejo neles a flacidez
e as linhas das estrias.
Os riscos rosados e brancos
como se fossem rios.
Como se fossem caules,
que descem
de encontro aos mamilos.
Os mamilos,
antes rosados,
agora arroxeados,
estão disformes,
como se fossem uma flor.
Um flor há tanto tempo
desabrochada
que agora está ressecada
e esperando se decompor.
O espelho me mostra
um corpo que não reconheço
um lugar onde não pertenço.
Alguém mais velha,
alguém usada,
alguém ultrapassada.
Alguém medrosa.
Eu jovem era tão corajosa!
Mas agora não sei mais
onde encontrar braveza
e nem destreza
pra me aceitar como estou.
O espelho me contou que mudei.
Que não sou mais aquela
que estava aqui antes.
Não sei quem sou.
Não sei mais ser.
O espelho me contou
que eu não sou mais quem eu era,
mas que eu ainda sou alguém.

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