perfeição e podridão

Todo mundo parece ter um manual de como deveríamos viver. De como deveríamos nos comportar. Principalmente na era da internet, onde todo mundo exibe suas vidas plenas e perfeitas em fotos bem pensadas e posadas, exibindo pro mundo uma felicidade invejável. Stories de garrafas de cerveja, taças de vinhos, festas, lugares bonitos… Mas quem disse que essa felicidade é real? A minha não é. Existem momentos alegres e os compartilho, sim. Exibo também as minhas taças de vinho. Mas eu não sou alegre o tempo todo. A felicidade é uma utopia. Eu não estou feliz, tenho andado triste não é de hoje. E eu escrevo sobre isso. Eu falo das dores que sinto, da minha desimportância no mundo. Porque é doloroso viver.
Hoje o dia começou com uma garoa fina e quieta, que deixou o dia gelado e cinza. No meu caminho de volta pra casa passei em frente a uma igreja, mas que são duas na verdade, uma ao lado da outra. A primeira pequena e antiga; a nova grande e imponente. As duas com as portas fechadas. E eu vi, na porta da grandona, um senhor ajeitando suas cobertas pra dormir. Esse é o mundo que vivemos. A porta da casa do Senhor, fechada, não abre para abrigar um filho D’Ele que está passando frio. No reflexo da janela do ônibus vi meu rosto ficando vermelho com a chegada do choro. Eu ferrada sem um real no bolso, sem limite no cartão. Quis descer do ônibus, mas estava longe de casa, poucos passes na carteira, final de mês… Eu não iria poder fazer nada. Eu, egoísta. Eu tenho uma casa pra voltar, uma casa que me abrigaria da chuva e do frio e com coisas que matariam a minha fome. Como se sentir confortável num mundo desse? Como voltar pra casa e simplesmente esquecer aquela cena? Como não pensar em quantos outros que estão assim? Que morrem de fome e de frio. Que sobrevivem apenas. Como não pensar nas pessoas que morrem todos os dias porque não tiveram a mesma sorte que eu? Qual a diferença entre eu e eles? O que eu tenho de diferente pra ter nascido em um lugar onde tenho o privilégio de viver confortavelmente? E todas essas pessoas que morrem afogadas no oceano fugindo da guerra em seus países? Por quê?
E toda vez em que em pensamento eu reclamo de alguma coisa na minha vida, eu penso nisso tudo. E a dor se torna maior. Porque me acho egoísta e ingrata. Porque eu deveria ser grata pelo que tenho. Mas uma tristeza tão grande tem tomado conta de mim que tenho sentido dificuldade em sentir gratidão. E daí, quando vejo cenas como a de hoje, a dor é mais intensa. E de que jeito eu a expresso? Escrevendo. Porque eu sei que eu não sou a única ridícula egoísta desse mundo. Só que ao invés de jogar meu egoísmo pra debaixo do tapete e mostrar perfeição como se espera, eu escrevo sobre a minha podridão. Sobre a minha condição de humana imperfeita. Eu escancaro. E daí, como eu disse lá no começo do post, as pessoas no geral tem um manual de comportamento. Porque eu não deveria escrever coisas tristes. Eu não deveria postar tanta coisa triste. Eu não deveria me expor tanto. Mas não sei ser de outro jeito. E não posso obrigar ninguém a se sentir confortável com isso. A ideia é justamente o contrário.

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