gelo e fogo

Se apaixonar é arte. É dança. É uma coreografia insana e instintiva, um jogo de braços, pernas, olhares e toques. Mas solo nunca funcionou muito bem.

A gente sempre pensa em amor como algo bom, mas esquece que por trás da calmaria de amar, do frescor que vem do bater das asas de um anjo, existem as brasas de um demônio que esquentam as nossas entranhas, que flamejam os nossos olhos e que, se a gente não toma cuidado, queima. E no desconhecer o desconhecido e mergulhar na intensidade de amar, nos queimamos.

Amor é brasa, é fogueira. Acende dentro do peito algo que antes não estava ali, aquece, esquenta, ferve… É combustível. Faz vir força de onde não tem. É quente e doce, faz salivar, enche a boca, satisfaz o paladar. E um beijo, depois de provado, não há a possibilidade de se esquecer o sabor.

Daí um dia esse amor acaba. Se é dos dois lados vira um monte de cinzas numa paisagem esquecida em preto e branco. E só. Mas às vezes acaba só de um lado. Ou nunca existiu de um dos lados. Daí a labareda aumenta e pende pra um dos lados, cercando, deixando a beira da morte. Porque quem ama está preso num edifício em chamas, ardendo e queimando de um jeito que deixa cicatrizes enormes e absurdas, quem ainda ama acabando em cinzas, junto com tudo o que construiu. Faz desintegrar, perder a identidade, o brio, a vaidade e a sanidade. Se tiver mesmo coragem pra amar, tem que vir preparado pra morrer.

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