A criança que eu era se orgulharia do adulto que eu me tornei?

Esse texto é parte da blogagem coletiva proposta pelo blog Garoto de Outro Planeta com os usuários da rede social oficial dos blogueiros e blogueiras Blogaweb. Foi intenso escrever esse texto. Me trouxe muitas memórias. Mas foi demais! E o link pro texto dos outros blogs participantes está no final deste post. 😉

a vocação é desde sempre

Eu fui uma criança feliz. Quieta, porém feliz. Nunca fui popular, nunca tive muitos amigos, me sentia sozinha na maior parte do tempo e isso fez dos livros os meus melhores amigos. Não era muito fã de estudar, mas gostava de ler coisas que me fizessem fugir um pouco do mundo real. Sempre fui imaginativa e criativa e criava um mundo só meu dentro da minha cabeça. Meu Instável Mundo. Meus pais sempre foram ótimos e carinhosos. Minha mãe é um tesouro desde sempre. Meu pai, super coruja, dizia que eu seria a Miss Brasil 2000, como na canção da Rita Lee. Ele me enxergava linda, apesar de eu nunca ter me visto assim. Fui uma adolescente estranha e sem auto estima. Nunca quis ou tive altura pra ser miss. Mas ah, como eu sonhava grande! Eu sempre quis mais. Eu sempre quis ser alguém que fizesse alguma diferença no mundo ou, pelo menos, na vida de alguém. Uma inventora, uma astronauta, uma professora, uma cineasta, uma poetisa, uma estilista que criaria roupas sensacionais. Que tornasse esse mundo melhor de algum jeito. Mais bonito, mais acolhedor… mesmo que fosse de um jeito pequeno. Lá na minha infância ter 34 anos era uma coisa bem longínqua pro meu eu e, quando eu me imaginava adulta, eu acreditava que teria todas as respostas pra todas as perguntas existentes no mundo. E que seria uma adulta sábia e inteligente, assim como eu via todos os adultos, sempre tão cheios de si e de certezas.
Aí hoje eu cheguei nos 34. É pesado quase ter 35. Eu não tenho nem ideia de onde encontrar respostas pras peguntas que eu tinha naquela época. E nem pra todas as outras tantas que surgiram ao longo desses anos. Descobri que aquela coisa de achar que os adultos sabem tudo é balela. A gente não sabe é nada! As crises existenciais são enormes. Eu não sei onde me encaixo nesse mundo. Eu vivo buscando aprender e entender as coisas. Me sinto cheia de informações, mas vazia de sentido. E tenho a sensação de que todos os adultos ao meu redor se sentem da mesma forma.
Quem eu me tornei?
Que tipo de pessoa eu sou?
O que eu criança acharia de mim mesma?

excêntrica?

Em alguns pontos eu sei que me frustraria. Nem sempre eu posso seguir meus ideais porque ser adulto também é engolir sapos e passar por cima de coisas que sentimos e acreditamos em nome de coisas não tão aceitáveis assim. A gente tem um papel a cumprir. A gente tem conta pra pagar. E os boletos nunca param de chegar. Mas paralelo a isso, não deixei que minha vida se resumisse a trabalhar e pagar contas. Continuar escrevendo foi uma maneira de resistir, de não perder a minha identidade, de não me perder de mim mesma. Inclusive acho que a Juh criança ia adorar os planetas que ilustram meu Instável Mundo aqui. Acho que a Juh criança ia adorar a forma como me visto. Parte dela ainda está aqui quando tento deixar meu guardarroupa um pouco mais divertido. A Juh criança adorava criar roupas pras Barbies e eu vivo criando com as minhas roupas. Eu tenho um estilo de me vestir que dizem ser só meu, que ninguém mais tem e sei que eu criança adoraria isso, essa autenticidade só minha. Eu adorava colocar as roupas da minha mãe e ir com ela no mercado com uma echarpe de lurex amarrada em forma de laço prateado na cintura. Porque é o que queria, sabe? Não ser igual a todo mundo. Ser eu, mesmo estranha. Mesmo causando risos. Eu criança amaria meu cabelo e a versatilidade dele, de em cada época estar de um jeito. Amaria o fato de eu ter feito pazes com o meu cabelo. Eu aprendi a amar meus cachos. Eu aprendi a me amar. Também tenho certeza que me surpreenderia com o piercing e as tatuagens. A romantiquisse da Juliana criança ficaria felicíssima com minha história de amor de 17 anos; primeiro amor, primeiro namorado, primeiro tudo. Muitos corações desenhadinhos nos cadernos. Acho que eu não entenderia o fato de eu ainda não ser mãe. “Como assim você é adulta e ainda não tem um filho?” Quase posso ouvir o tom petulante que eu teria dizendo essa frase. Não tendo, oras! Não sei mais se isso é pra mim. Brincar de casinha nunca foi minha brincadeira preferida mesmo. “Culpa sua!”, eu devolveria. Mas no fundo acho que eu ficaria feliz. Não feliz com tudo, porque putz, já fiz muita coisa errada. Já fui uma idiota. Já fui uma péssima amiga. Já fui uma péssima pessoa. Num caderninho antigo, lá dos meus 6/7 anos, eu me defino como “Juliana cabeça de côco”. Acho que eu quis dizer cocô, na verdade. Isso faria muito mais sentido, visto a forma como ando pirada e sem rumo e no quanto ainda serei uma péssima pessoa em várias situações, porque não sou perfeita e nunca serei. Ainda farei muita merda nessa vida. Mas a diferença é que tenho hoje consciência de que posso ser melhor, que depende de mim e, apesar dos tombos, tenho tentado sempre melhorar. “Só o amor constrói”, está escrito várias vezes neste mesmo caderninho. E é com amor que tenho construído. Então segui seu conselho, Juhzinha. O amor tá construindo bastante por aqui. Você ficaria orgulhosa.

Confira também os textos dos outros participantes:

Essa blogagem coletiva foi organizada por meio da BlogaWeb – A rede social dos blogueiros e blogueiras.
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