Ônibus 256 – sentido terminal

E era uma menina como tantas outras. Quieta, comum e medíocre, daquelas que quase não se escuta a respiração e nem se nota a existência. Ia e voltava todo dia do trabalho no mesmo ônibus, sentada no mesmo banco na ida e na volta, todo dia no mesmo horário, do mesmo jeito. Sua vida parecia um reprise eterno de dias iguais e sem sentido. Até que
numa quarta-feira nublada ela viu sua rotina ser bagunçada de um jeito que nunca mais voltaria ao normal.
Saiu de casa pontualmente as 6:29 da manhã, foi até o ponto de ônibus contando exatos 37 passos, parou a dois palmos da árvore de flores amarelas e cuidadosamente segurou o passe na mão esquerda, já que usaria a direita pra se apoiar e subir no ônibus. Sentaria no ônibus logo atrás do cobrador e dali 13 minutos, quando o ônibus parasse em frente a padaria Bom Pão, ela passaria a catraca e se dirigiria a parte frontal do ônibus pois dali dois pontos era o seu local de destino. Mas ao subir no ônibus ficou paralisada no corredor ao ver que seu banco estava ocupado. O passageiro impaciente atrás dela resmungou algo sobre ela estar atrapalhando a passagem, mas ela nem se moveu. Ao se perceber encarado, o moço petulante que ocupava o lugar exclusivo dela sorriu e pulou pro banco da janela, fazendo sinal para que ela se sentasse ali, o que ela fez um pouco a contragosto. Logo após se sentar e tentar ignorar o intruso, sentiu-se observada e percebeu que o estranho a encarava. Ele sorriu. E não era qualquer sorriso. Ele era daqueles que sorri não só com os dentes, mas também com os olhos e o corpo todo. E depois desse sorriso ela finalmente viu sentido na expressão “borboletas no estômago”.
No dia seguinte ele estava no mesmo lugar, no lugar dela. Ela já o viu de fora do ônibus, se mudando do assento do corredor pro assento da janela. Ela afrouxou um pouco o passe na mão esquerda e não percebeu que o derrubou assim que subiu no ônibus. Sentou ao lado dele e recebeu de novo aquele sorriso de corpo inteiro e retribuiu com seu meio sorriso sem graça, que nem dente deixava aparecer. Ficou inquieta, não estava confortável, não se sentia a vontade ao lado dele. Alguma coisa a incomodava, era como se um calor saísse do corpo dela e viesse sufocá-la. Ela estava quase pedindo pra ele abrir a janela, quando percebeu que a padaria Bom Pão se aproximava. Então ao precisar do passe, percebeu que a mão fechada estava vazia e só com a marca das unhas cravadas na carne devido a força com que fechou a mão ao sentar ao lado do rapaz sorridente. Ela ficou olhando pra mão aberta e vazia, atônita, até que viu um passe sendo colocado ali em câmera lenta. Num pulo, olhou pro seu vizinho de banco e ganhou um daqueles sorrisos maravilhosos e uma piscadela. Sentiu o mundo desaparecendo sob seus pés. A padaria Bom Pão já estava pra trás, os dois pontos seguintes também e daí ela se deu conta de que passou do seu destino. Entregou o passe correndo ao cobrador, passou pela catraca com a delicadeza de uma jamanta, derrubou a bolsa, e saiu gritando ao motorista que parasse, pelamordedeus. Desceu e enquanto aguardava na calçada pra atravessar, observou o seu vizinho de ônibus a observando ao ir embora e leu em seus lábios “até amanhã”.
No dia seguinte recebeu o primeiro “bom dia” do moço do sorriso feliz. E daí começaram a se falar todas as manhãs. Depois disso seus dias não tinham mais aquela rotina regrada e imutável, cada dia era bem diferente do outro. Os horários não eram mais tão importantes se não fossem milimetricamente calculados.

Por fora era pífia e desinteressante, mas por dentro guardava um universo de imaginação e criatividade dentro de si. Ele se encantou com quem ela era por dentro e ela abriu o coração.

Continua…

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estardalhaço

Hoje mais uma vez acordei sozinha. Fui pra cozinha, tomei um copo d’água e, enquanto a água descia pela minha garganta, olhei pelo vão da janela e vi o céu, com toda a sua imensidão azul, e pensei que queria dividir esse momento de apreciação do mundo com você. Abri e geladeira, o armário e não conseguia me decidir sobre o que comer. Talvez se você estivesse aqui nós decidiríamos juntos o nosso café da manhã. Se seria suco de laranja e algumas torradas com requeijão light ou um litro de leite com toddy e um pão caseiro inteiro com manteiga. E daí no meio da preparação, você me abraçaria por trás e comecaria a beijar meu pescoço, me levaria pra cama e a gente acabaria esquecendo tudo o que estava fazendo. E entre beijos, sexo, abraços de conchinha e cochilos, a minha ou a sua barriga roncaria de fome e daí a gente cairia na risada lembrando que juntos nós esquecemos do mundo e até de comer. Depois finalmente terminaríamos nosso café da manhã e voltaríamos pra cama. Resolveríamos ver um filme e começaríamos a debater, eu querendo Marvel e você DC. E essa discussão acabaria em outro beijo. E esse beijo acabaria em sexo de novo. E na bagunça dos lençóis, a gente lembraria que precisava almoçar também. E daí graças a modernidade, a gente pediria comida por um aplicativo e não precisaríamos parar nossas atividades, salvo pra atender a campainha e receber o pedido. Depois tomaríamos um banho, eu e você abraçados como um só debaixo da cachoeira de água do chuveiro. Minha maquiagem escorreria com a água e você enxergaria as manchas e olheiras do meu rosto e veria beleza nas minhas imperfeições e diria que ama os meus defeitos. Não veríamos a cara da rua por um dia inteiro. Só veríamos a nós mesmos, nus de corpo e alma. Mas só o que vi hoje foi a casa e os cômodos vazios. Só o que ouvi foi o silêncio da tua ausência e da minha solidão. Só o que fui foi eu, como sempre sozinha, como sempre esquecida. E me senti ensurdecida com o estardalhaço da minha solidão.
– Juliana Bassan Ayon

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discrepância

para ler ouvindo: Under The Bridge – RHCP

A chuva caía mansinha, melancólica e serena, contrastando com o cinza escuro do céu carregado de água, numa ferocidade pronta pra ser tempestade. E eu me vi exatamente como o céu; cinza e enfurecida por dentro, mas tranquila e fleumática por fora. Eu gosto de grandes contrastes, mas não gosto deste. E talvez seja porque esse contraste pareça demasiadamente comigo. E é de certa forma perturbador se ver tão nitidamente assim.
Andei a longos passos até encontrar um lugar pra me abrigar do frio daqueles pingos cortantes, mas não corri. Hoje é um dia daqueles que não tenho pressa de chegar. Tenho pra onde ir, mas não queria. Desejei ter o poder de segurar o relógio. Não queria ver ninguém, mas precisava. Até que o inevitável aconteceu e eu tive que encarar. Mais uma vez dei o meu melhor, me entreguei, mas não valeu a pena. Vai trouxa, pensei. Por fora disfarçadamente o sorriso amarelo e amigável, por dentro um vulcão em erupção pronto pra briga. Mas de que adianta? Pessoas cruéis estão por todos os lugares, muitas vezes disfarçados e dissimulados. É inevitável o confronto e as feridas abertas. Volto pra casa sozinha e abro um vinho pra me fazer companhia. Que raio de gente é essa? Ligo o rádio e está tocando uma das minhas músicas favoritas. Respiro fundo. Ela diz sobre como foi meu dia hoje, eu e a cidade, sozinhas e chorando. Choro de novo ouvindo a música, mas ali naquele momento tenho uma certeza: por mais dolorido que seja, eu não vou me abalar. O que coisas como essa me ensinaram é que as pessoas só oferecem aquilo que possuem, as atitudes são reflexo do que são. Mesmo retalhada eu ainda escolho refletir amor.
– Juliana Bassan Ayon

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a menina, a madrugada e o silêncio

para ler ouvindo: “Enjoy The Silence” – Depeche Mode

Numa madrugada dessas o Sr Silêncio veio falar com a menina que não dormia.
– Você de novo por aqui? – disse em tom de sarcasmo.
– É, já faz tempo que não consigo deixar de aparecer.
A menina estava com a face cansada e triste.
– Você não tá me deixando fazer meu trabalho, menina. Fica aí chorando, falando sozinha, trombando nas coisas… Sabe o que é silêncio?
– Sei sim.
– Então faça silêncio, oras.
– Me desculpe, mas é que não tenho conseguido dormir. – disse a menina, quase deixando pingar algumas lágrimas.
– Tem que aquietar essa cabeça, menina. Esquecer dessa dor.
– Como sabe da minha dor? – perguntou a menina curiosa.
– Ahhh, já cansei de ouvir suas reclamações, já sei da história decor. – o Sr Silêncio parecia já estar realmente cansado de tudo aquilo.
– Me desculpe.
– Desculpa nada, menina. Dá um jeito aí de dormir e não atrapalhar meu serviço.
– Mas como? – disse ela, já não segurando o choro.
– Assim que não vai ser, né.
A menina continuava chorando copiosamente. Sr Silêncio era todo durão, mas tinha um coração mole.
– Tá bom, vem cá. – Sr Silêncio chamou a menina pra perto e pediu que ela se aconchegasse em seu colo.
– Deita aqui e fecha os olhos.
Sr Silêncio fez uma pequena pausa e disse em seguida:
– Agora respira fundo, menina. Esvazia a cabeça. Esquece problemas, não pensa na sua dor. Pensa em coisas que te fazem feliz. Pensa nas paisagens que você admira, nos sabores que você mais gosta, nas músicas que embalam a sua vida, nos cheiros que te dão aconchego…
Sr Silêncio foi baixando o tom de voz conforme falava e ficou ali vigiando a menina e calmamente a viu pegar finalmente no sono. Sentiu alívio por ela e por si mesmo. Não aguentava mais aquela matraca. Ficou um pouco ainda ali vendo a menina sorrir no seu sonho de algodão doce e depois foi embora, fazer o silêncio ser respeitado em outros cantos da madrugada. E enquanto ia pensava na tolice da menina e de tantos outros que buscam paz no caos, enquanto a paz tá bem ali quietinha no silêncio.

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inspirações interligadas.

Um pôr do sol registrado numa foto:

Que inspirou um conto:
Em casa.
Pegou a bolsa e ficou alguns segundos olhando pro nada pensando se não tinha esquecido de alguma coisa. Saiu apressada e quando estava quase chegando ao portão, lembrou-se que o celular havia ficado em cima da mesa e voltou correndo pegar. Não podia sair sem ele. Estava atrasada e aflita. Saiu e começou a subir a rua quando viu de longe o ônibus passando direto pelo ponto, o ônibus que ela deveria estar dentro. Droga! Teve vontade de gritar e xingar alto. Teria que ir a pé. Não tinha outro jeito, outro ônibus só dali meia hora. E foi andando com passos largos e rápidos. Olhava no relógio e pensava que não daria tempo. Num certo ponto decidiu correr.
E correu.
Ela tinha que correr.
E mesmo com o joelho machucado correu.
Mesmo cansada correu.
Eram 35 quadras até o lugar onde ela precisava estar. Quando estava chegando foi diminuindo o ritmo até parar. Abaixou, colocou as mãos nas coxas e sentiu o joelho latejar. Respirou fundo e tentou recuperar o fôlego. Continuou descendo a metade do último quarteirão devagar e avistou-o de longe. Não queria que ele a visse daquele jeito. O cabelo estava desarrumado, as roupas desalinhadas e a maquiagem um pouco borrada. Mas ficou feliz por ter conseguido chegar a tempo. Fuçou na bolsa até achar um elástico e fez um rabo de cavalo. Pensou que de nada adiantou essa produção toda e poderia até ter economizado uns minutos a mais e assim não teria perdido o ônibus. Estava ajeitando a blusa quando se sentiu observada. Parado perto de uma árvore estava ele, olhando pra ela de longe com um esboço de sorriso no rosto. Ela abriu os braços e fez um sinal mostrando a situação em que estava, toda molambenta. Ele deu de ombros, mostrando que não se importava com isso, e foi até ela. Deu-lhe um beijo no canto da boca, a pegou pela mão e disse:
– “Vem que tá na hora”.
Andaram juntos até um banco de madeira improvisado que tinha ali. Sentaram-se lado a lado. Ela tirou o celular da bolsa, pegou os fones, deu um lado pra ele e ficou com o outro. Entrelaçaram os braços, ela deitou a cabeça no ombro dele e ficaram em silêncio olhando o céu e ouvindo música.
E era assim todos os dias, desde que se conheceram. Nesse mesmo horário se encontravam para verem juntos o pôr do sol. O céu que estava azul claro foi ficando amarelado, depois foi ficando laranja, depois vermelho, violeta, e depois azul bem escuro. Daí assim já dava pra ver a lua sorrindo no céu. A agitação da correria toda passou, ela enfim se acalmou.
Ali ela esquecia todas as dores e medos.
Ali ela se sentia completa e feliz.
Ali ela se sentia em casa.
{Juliana Bassan Ayon}

E que depois serviu de inspiração pra essa pintura em guache:

 

 

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ausência presente

Uma música já me fez lembrar. Num filme já enxerguei seus olhos. Já vi suas feições em atores e cantores. Um livro já te trouxe de volta e insistentemente me fez reviver aqueles dias. E por muitas vezes você já invadiu meus sonhos. Você ainda existe quietinho aqui dentro, adormecido, e vez ou outra é despertado das minhas secretas lembranças por situações corriqueiras. E é sempre assim, sem controle, sem pedir licença. As lembranças de você ressurgem do nada. E eu fico aqui me lembrando de você, pensando onde você estaria e porque não ficou quando podia. Se você ainda guarda aquela versão que te escrevi da carta do livro “O amor é uma dor feliz”. Se você ainda usa o cabelo jogado de lado. Se suflair ainda é seu chocolate preferido. Se você ainda escuta Pink Floyd e se “Wish you were here” tem o mesmo sentido pra você que tem pra mim. E o que seria de mim, de você e de nós, se tivesse dado certo. Não consigo explicar ou definir o que é você pra mim. Se é mágoa, rancor ou paixão mal curada. Se é frustração, dissabor ou pergunta sem resposta. Tem vezes que chego a pensar que você finalmente bateu asas e foi embora. Mas você sempre volta. E tudo ressurge de novo. Daí lembro do seu toque no meu corpo e vem um frio doloroso na espinha, que vai até o pescoço, causando arrepio. Mesmo querendo negar e não querendo admitir, afirmo que você nunca desapareceu por completo daqui. E não faz sentido! Eu tinha todos os motivos do mundo pra te riscar daqui, pra ter desaparecido contigo. Você transcende a minha razão. Eu nunca descobri o que tinha por trás desses olhos azuis que olhavam dentro da minha alma. Você nunca se revelou por completo. Nunca soube de verdade o que eu fui pra você. Se signifiquei alguma coisa. Se fui tão relevante quanto você foi pra mim. Nós seguimos nossos caminhos e eu acho que nunca mais vou te ver. Mas pelo jeito é como se uma parte de mim te quisesse sempre presente e tentasse me avisar que talvez essa conexão venha de outras vidas. E que, já que nessa não deu certo, talvez a gente se encontre de novo na próxima pra tentar de novo.
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passos e pedaços

Acordo antes do dia. 
Saio cedo e em cada passo cai um pedaço de mim. 
O dia passa e meus pedaços vão ficando por aí. 
Cansados, jogados, desistentes da labuta. 
O dia passa e eu passo o dia. 
Mas daí chega a noite e venho recolhendo meus cacos. 
E dos meus cacos eu vou me reconstruindo. 
Daí deito no seu peito e me aconchego. 
Recarrego as baterias. 
E depois disso tô pronta pra encarar tudo de novo.

– Juliana Bassan Ayon

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Procurando.

 

Lúcia gostava de se definir como uma andarilha. Era uma pessoa que procurava. Coisas, sentidos, rumos. Passou a vida toda em busca de algo que desse algum sentido a sua vida. Saiu de casa cedo, logo após os pais morrerem. Viajou pra muitos lugares, teve todas as profissões que pôde, se apaixonou por algumas e odiou outras. Andou por vários caminhos, correu o mundo. Conheceu muitas pessoas, fez grandes amigos e teve muitos amores. Mas sempre tinha a sensação de que faltava alguma coisa dentro daquela vida ampla de possibilidades; Sempre existiu um vazio. Depois de quarenta anos, um mapa todo rabiscado indicando os lugares que visitou e muitos adesivos colados na mala, depois de muitos anos sem ficar mais de seis meses em uma só cidade, cansou e resolveu que deveria fixar-se em algum lugar, afinal já não era mais tão jovem. Mas não sabia naquela imensidão de mundo onde era o seu lar. Por fim escolheu voltar pra cidade onde nasceu, uma cidade tranquila e pacata, onde poderia descansar o corpo e a cabeça. Começaria e terminaria no mesmo lugar.

Comprou uma casa e a decorou com as lembranças das suas viagens e das histórias que viveu. Transformou aquela casa no seu canto, em cada detalhe da casa tinha um pouco da sua personalidade. Pintou, reformou, decorou. Torceu pra terminar tudo logo. Queria se sentir em casa de novo, aconchegada. Mas naquele dia quando tudo acabou, quando não tinha mais nada seu pra chegar, nada pra colocar no lugar, isso não aconteceu. E se perguntou se algum dia a sua busca chegaria ao fim.

Na manhã seguinte se levantou e andou um pouco pelos cômodos da casa, observando tudo. Enquanto se preparava pra ir à padaria buscar algo pra comer, já que a geladeira estava vazia, bateram a sua porta. Ela achou estranho, pois ainda não conhecia os vizinhos e da família ninguém sabia ainda que ela havia voltado. Foi curiosa até a porta e quando a abriu viu um rosto familiar, porém cansado e marcado pelo tempo. Sentiu um frio percorrer toda a sua espinha quando reconheceu aquele sorriso caloroso e os olhos expressivos que há tanto tempo ela não via. Ele era Pedro, seu vizinho e melhor amigo de infância. Aquele rosto que ela viu pela última vez quando saiu de casa aos vinte anos. Por coincidência ele morava na rua pra onde ela havia se mudado e a reconheceu no dia anterior enquanto ela descarregava o resto da mudança. O estranho conhecido na porta a puxou e a abraçou apertado. Lúcia se sentiu transportada de volta pra uma época longe e feliz. E ali naquele abraço teve a certeza de que passou anos procurando o que sempre esteve a apenas 5 minutos do portão.

 -Juliana Bassan Ayon

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versões de mim

 

 

Sonhei essa noite que eu tinha outras vidas. Outras vidas reais, paralelas a minha vida de hoje. Eu tinha essa mesma cara e essa mesma idade e todas as outras Julianas também. Todas estavam vivendo exatamente o mesmo dia, mas cada uma delas em algum momento havia tomado um rumo diferente e isso tinha alterado e feito diferente os seus destinos. Cada situação tinha opções de escolha, e pra cada opção surgia uma nova “eu” com um futuro diferente. As decisões tomadas, as escolhas feitas, cada uma teve uma consequência diferente e isso tinha alterado os caminhos percorridos, fazendo com que cada “eu” tivesse a sua própria história e personalidade. Eram muitas “eu”, vindas de muitas opções de escolha diferentes. Eu estava em um corredor grandão, sem começo e nem fim, cheio de portas fechadas. E atrás de cada porta tinha uma possibilidade de mim. Logo na minha frente tinha uma porta roxa e preta, com um aviso de proibido. A curiosidade foi grande e abri. Vi uma Juliana imatura e irresponsável, estacionada na adolescência rebelde, vivendo uma vidazinha medíocre e fútil, e cercada de gente errada. Fechei logo a porta pra não ser vista e senti uma decepção pelo que eu havia me tornado ali. Estava de novo sozinha no corredor e pra cada lado que eu olhava era uma infinidade de portas, com cores e formatos diferentes. Fui andando e reparando em cada detalhe que cada uma delas tinha e daí teve uma do lado esquerdo que me chamou a atenção. Era de madeira antiga, parecia surrada e gasta. Estava cheia de adesivos e cartões postais, como se cada detalhe da porta fosse sozinho contar uma história. Abri com cuidado, me escondendo pra espiar, e vi uma Juliana independente e aventureira, andando sozinha pelo mundo só com uma mochila nas costas. Achei bem legal e cobicei aquela vida! Mas quando me vi, eu estava sentada num canto, sozinha, fazendo mil perguntas para o universo e frustrada por não encontrar em lugar nenhum as respostas que procurava. Senti pena daquela vida vazia. Fechei a porta e voltei pro corredor. Fui andando de novo pra um dos lados, observando as portas e me perguntando se eu gostaria mesmo de ver mais alguma daquelas outras versões. Um pouco mais a frente vi uma porta escura, brilhante e grande, onde parecia que a madeira havia sido talhada à mão. Achei que ali eu seria alguém de sucesso e abri. Vi uma Juliana madura e bem sucedida, realizada profissionalmente, admirada e respeitada, mas tão amargurada! Tinha o coração feito pedra de gelo de tão duro, frio e mesquinho. Achei triste e fiquei feliz de não ser ela. Ao lado dessa tinha uma porta com algumas partes descascadas e com a dobradiça quebrada, mas que tinha cara de um dia ter sido bonita. Abri com cuidado pra não despencar e vi ali deitada em uma cama de lençóis brancos uma Juliana moribunda, conformada com a vida de merda que levava, sem perspectiva nenhuma de melhora e já sem forças pra lutar. Senti um aperto no coração e aí foi a primeira vez que senti vontade de chorar. Hesitei em abrir mais portas e me decepcionar com o que veria, mas a curiosidade acabou sendo maior que o medo e continuei andando pelo corredor e abrindo mais algumas portas. Vi uma Juliana com o coração partido e a cara carrancuda, distribuindo coices e patadas em quem tentasse alcançar seu coração ferido; vi algumas Julianas com bocas que não sorriam mais e olhos tristes e opacos, que há muito não tinham brilho algum; vi uma Juliana que ria demais, ria exagerada e desesperadamente, mas eram risos rasos e falsos, porque graça de verdade mesmo não tinha. Abri várias portas e vi várias versões de mim, vi várias histórias que eu poderia ter vivido, vi vários lugares que eu poderia ter visitado, outras tantas pessoas que eu poderia ter conhecido, outros amores que eu poderia ter amado… De nenhuma delas gostei tanto quanto gosto de mim hoje. Daquela eu ali, vivendo contente atrás da porta colorida, toda desenhada e rabiscada com letras de música, textos e poemas. E fiquei feliz de estar vivendo a melhor versão de mim.
 {Juliana Bassan Ayon}
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visita

 

Rostos e lembranças. 
Rostos parecidos com rostos que eu já conheci. 
E que me levam de volta a um lugar que não volta mais. 
Um rosto que só conheci mais velho e que novo assim só vi em fotos. 
Um rosto desconhecido que tem um quê familiar.
Um rosto de um desconhecido que me dá saudade de alguém que era tão conhecido e presente. 
Como pode um rosto de alguém ser tão parecido com o rosto de outro alguém? 
Todas as vezes que o rapaz chega com as correspondências é como se eu visse o meu pai mais novo entrando pela porta. 
O meu pai que eu só vi nas fotos bem novinho junto com a minha mãe no começo do namoro deles. 
Tem dias que eu fico curiosa com vontade de perguntar e tentar descobrir se ele não é algum parente perdido, da mesma forma que encontrei uma tia por acaso uma vez. 
Mas eu sei que nunca vou perguntar. 
Daí eu guardo isso pra mim e faço desse o meu segredo. 
E continuo em silêncio recebendo a visita do meu pai todos os dias no rosto do rapaz desconhecido que traz a correspondência.

{Juliana Bassan Ayon}

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