saudade

Saí do trabalho e no caminho senti o peso de quase um mês saindo de casa cedo e voltando 13 horas depois, sem parada e sem descanso. O cansaço físico brigando com a sanidade mental pra ver quem é o mais ferrado dos dois. Dias esses resumidos em insônia, preocupação e desespero, combinados a doses cavalares de café durante o dia pra se manter alerta. O que resulta em sono leve ou ausência completa dele a noite. Ainda pensando nisso tudo, abri o portão e a primeira coisa que vi foi um pano preto no chão. Chegando mais perto, vi a estampa “Star Wars” e percebo que não era qualquer pano, era minha camiseta preferida que eu havia deixado estendida no varal. Mais pra frente mais uma e depois um bolinho delas, inclusive meus uniformes. Pandora comeu minhas roupas, pensei. Cheguei perto e examinei as peças; estavam intactas e sem nenhum rasgo. Mas tinham pelos e marcas de pata. Ela tirou as minhas roupas do varal, levou na cama dela e em lugares estratégicos do quintal e deitou em cima delas. Não eram só as minhas roupas que estavam no varal, mas foram só as minhas que ela pegou. Não tenho tido tempo de ver séries, de ler livros, de ver tv… E nem de brincar com a Pandora. Tenho chegado tarde e tão cansada que quase não tenho dado atenção a ela. Normalmente ela está sempre comigo em tudo, mas eu não tenho estado aqui pra nada. E ao surrupiar minhas roupas do varal ela me contou que estava com saudades. E pra me redimir hoje a noitada é nossa: cobertor, petiscos e Netflix. 💛

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conformismo

Me sinto mergulhada na mediocridade de ser eu. Sou boa em tantas coisas, mas ótima não sou em nada.
Em nenhuma área sou perita. Em nenhuma quesito ganhei nota máxima. Fui passando alcançando a média.
Nunca fui brilhante. Nunca me destaquei em algo. Era boa, mediana, razoável…
Na vida a gente nasce, cresce, toma uns capotes da vida, se arrepende de ter sido trouxa tanto tempo e morre.
Será que eu tenho que me conformar com esse fim? Será que tem que necessariamente ser assim? Será que eu tenho que assumir calada essa irrelevância que a vida empurrou pra mim?
E se eu não quiser me conformar? E se eu quiser esse destino mudar? E se eu estiver pronta pra começar a ganhar?
Eu cansei de perder. Me acabei tentando entender. Estou farta de todo dia um pouco morrer. Não quero ser invisível até desaparecer.

– Juliana Bassan Ayon

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cegueta

Ja perdi muita coisa nessa vida.
Já perdi o sono.
Já perdi a fome.
Perdi hora, perdi a paciência.
Já perdi gente.
Já perdi dinheiro.
Já perdi oportunidades.
De ficar calada, inclusive.
Já perdi muitos pés de meia que somem misteriosamente na máquina de lavar.
O mesmo com papéis que somem misteriosamente na minha bolsa.
Mas hoje foi a pior das piores perdas de todos os tempos: perdi o parafusinho pequenininho que prende a perninha do óculos.
Quase chorei quando a perninha despencou na minha mão e eu não vi o parafusinho ali.
Vasculhei a casa, a cama, o quarto, o sofá…
E se caiu no trabalho?
E se caiu no caminho pra casa?
E se enroscou no capacete e caiu na rua?
Que tristeza.
Senti uma lágrima se formando no cantinho do olho.
Com mais de 4 graus de miopia é um bom tanto de astigmatismo meus óculos são donos da minha vida.
Essa doeu.
E doeu mesmo, não no sentido figurado do doer, doeu porque se eu já trombo em tudo enxergando imagina cegueta?
Que fase, Juliana!

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esquecível

Já teve gente que me perguntou se eu era solitária por causa das coisas que eu escrevo. Então eu respondo: não sou não, mas me sinto. E isso nada tem a ver com falta de amor ou carinho, ou por falta de pessoas próximas, de amigos de verdade, porque isso tenho de sobra e sou grata. Mas me sinto demasiada sozinha perante à minha insignificância no mundo. Eu me vejo pequena, errante, irrelevante e desimportante na maioria das vezes. Por quê eu, só um cisco dentre os 7,6 bilhões de habitantes desse planeta, seria de alguma forma relevante pro mundo? Qual o meu grau de importância pra achar que dentre todas as orações dessas 7,6 bilhões de pessoas, justo a minha seria ouvida e meu desejo realizado? Quem sou eu pra me achar mais importante que o meu próximo?
É lógico que eu desejo ser vista e ouvida. Mas pra quê? Com qual propósito?
Quando escrevo eu sinto como se transbordasse, mas a gente só transborda aquilo de que está cheio. E eu estou cheia de perguntas e questionamentos.
E daí é nessas horas que me sinto sozinha. E sem sentido e esquecível. Talvez seja essa a minha sina.
– Juh, irrelevante.

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blue

Tem dias em que bate uma deprê existencial, o ar fica difícil de respirar, no espelho não consigo me encarar… Isso acontece muitas vezes. É aquela certeza de que eu sou uma incerteza. Aquela convicção de que eu não sou nada além de pretensão. É a afirmação da pequenez do meu ser. É a descoberta de que pra ser alguma coisa, antes eu preciso aprender muito ainda. Que existem muitas coisas que eu poderia ser. E daí a vida parece tão curta! O mundo tá aí, cheio de possibilidade e de caminhos que eu posso percorrer, mas eu não posso percorrer todos. Ou sou uma coisa, ou sou outra. Se sigo o sonho ou me mantenho na realidade. É estar frente a um oceano de imensas possibilidades e acabar me afogando em uma lagoa.
– Juh, azul.

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apego

Eu tenho três caixas onde guardo as minhas bijouterias. Mas confesso, as que mais uso quase não vêem essas caixas; elas ficam por cima de móveis, aparadores, bancadas e vez ou outra eu perco parte delas. Tenho vários brincos que um dia eram pares e hoje estão solitários. Porém isso nunca foi um problema, pois eu sempre combinei os solitários entre si e formava pares diferenciados. E entre anéis, pingentes, colares, pulseiras e correntes, essas caixas se transformam em um depósito de lembranças. Eu guardo muitas coisas que tem valor sentimental. Nunca tive esse apego com roupas, mas com esses badulaques as coisas mudam. É quase uma caixa de relíquias, porque por mais que eu saiba que não vou usar tudo, dá um certo conforto saber que estão ali. Eu juro que consigo contar uma história pra cada peça que está ali, mas algumas histórias com o tempo deixam de fazer sentido. E daí é hora de se despedir. E por isso de tempos em tempos eu faço uma limpa nessas caixas, pra tirar dali o que não se encaixa mais no meu estilo e na minha vida. Hoje eu joguei muita coisa fora; brincos sem par, anéis sem pedra, correntes sem pingente… Eram muitas peças quebradas que eu não ia consertar mesmo. Então guardar pra quê? E isso é como certas coisas na nossa vida. A gente guarda ali ocupando espaço um tempão e nunca vão fazer bem ou serem úteis. Então é hora de desapegar e deixar ir. Já outras não vão sair daqui tão cedo. Algumas coisas que estão aqui faz tempo ainda permanecerão por outros tantos anos. Como uma pedra de um anel que era da minha mãe, um brinco que era da minha irmã, um broche que ganhei da minha cunhada, um colar que eu ganhei do meu marido na nossa primeira viagem juntos… As minhas caixas de bijouterias nunca serão só caixas de bijouterias, elas sempre serão contadoras de histórias. E é bom que continue assim.
-Juh, apegada desapegando.
@oinstavelmundodajuh

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O que deixar.

Quando eu tinha 10 anos eu queria logo ter 15 porque eu odiava ser tratada como criança. Quando cheguei nos 15 eu percebi que ser adolescente não era como eu imaginava, que era terrível se ver no próprio corpo, e queria ter logo 20 pra daí poder ser dona do meu nariz e de mim. Quando chegou os 20 eu percebi que eu não tinha ideia nenhuma do que estava fazendo nesse mundo e rezei pros 25 chegarem logo e eu me encontrar. E os 25 chegaram e neles eu me perdi mais do que me encontrei; só trabalhava, pagava contas e dormia nas horas vagas. Daí vieram os 30, a idade que a gente imagina que estaremos plenos em todas as áreas da vida, e foi quando eu me senti insana e completamente desestabilizada por causa de duas hérnias na coluna. E comecei a questionar meu rumo, meus caminhos e meus medos.
Eu ainda não sei o que a vida é e nem o que eu sou na vida. E talvez eu chegue nos 35, 40 anos e ainda assim não descubra. Mas eu tenho tentado ser alguma coisa além de toda a minha mediocridade de antes. Conforme a gente cresce vamos acreditando que uma hora vai acontecer uma mágica e que finalmente tudo vai se encaixar e começar a dar certo. E isso nunca acontece. E daí assim a gente vai adiando as coisas, esperando o milagre. Mas o fato é que nunca está bom do jeito que estamos. A gente sempre espera mais e enquanto espera o que nunca acontece, não vive o que poderia ter vivido. E não percebe que a mágica está no hoje, no perder antes de ganhar, no sofrer um pouco pra evoluir, no se perder pra se encontrar. E não vemos que pode ser que o amanhã nem chegue a existir, que a idade que a gente espera que seja milagrosa pode nunca chegar. Eu não economizo mais palavras e tenho dito muito a quem eu gosto o que penso e o que sinto. Não economizo mais nem roupa, nem louça. Não vou guardar nada pra uma ocasião especial porque a ocasião especial é hoje. Se eu estiver afim vou de jaqueta de paetê na padaria. Se eu quiser, como sucrilhos no prato chique de sopa do aparelho de jantar. Se der vontade, tomo água na taça de cristal. Vou usar tudo antes de morrer, vou ser tudo o que eu quiser ser antes de partir. Porque eu não posso escolher o que levar dessa vida. Mas eu posso escolher o que deixar.
– Juliana Bassan Ayon

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Melancolia

Fim de domingo, Faustão na tv. Aquela melancolia que nos apetece por conta do final de semana acabando, aquele friozinho na barriga avisando que a segunda tá aí, aquela sensação que a gente carrega desde sempre de que o final do domingo é sinônimo de tristeza porque a semana está começando. Mas o que é que tem nessa nova semana que faz com que ela seja tão temida antes mesmo de começar? Qual é o problema no que faremos durante a semana que nos causa essa sensação? Não sei se isso tudo é real ou se estamos fadados a absorver as sensações alheias e assim viramos todos haters da segunda-feira. Como se o começo da semana fosse um ir para a força, um corredor da morte. Como se nossa vida fosse um eterno martírio que ninguém quer viver. Como se fôssemos todos prisioneiros voltando do banho de sol pra dentro de nossas celas cinzentas e geladas. Isso é triste. Talvez a solução seja mudar o foco, mudar os hábitos. Pelo vale a pena acordar? O que te faz ter vontade de sair da cama? Quais são seus ideais? Pelo que você luta? O que você tem feito pra ser a diferença no mundo em que você vive? Quem dita as regras da sua vida, você ou os outros?

– Juliana Bassan Ayon

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discrepância

para ler ouvindo: Under The Bridge – RHCP

A chuva caía mansinha, melancólica e serena, contrastando com o cinza escuro do céu carregado de água, numa ferocidade pronta pra ser tempestade. E eu me vi exatamente como o céu; cinza e enfurecida por dentro, mas tranquila e fleumática por fora. Eu gosto de grandes contrastes, mas não gosto deste. E talvez seja porque esse contraste pareça demasiadamente comigo. E é de certa forma perturbador se ver tão nitidamente assim.
Andei a longos passos até encontrar um lugar pra me abrigar do frio daqueles pingos cortantes, mas não corri. Hoje é um dia daqueles que não tenho pressa de chegar. Tenho pra onde ir, mas não queria. Desejei ter o poder de segurar o relógio. Não queria ver ninguém, mas precisava. Até que o inevitável aconteceu e eu tive que encarar. Mais uma vez dei o meu melhor, me entreguei, mas não valeu a pena. Vai trouxa, pensei. Por fora disfarçadamente o sorriso amarelo e amigável, por dentro um vulcão em erupção pronto pra briga. Mas de que adianta? Pessoas cruéis estão por todos os lugares, muitas vezes disfarçados e dissimulados. É inevitável o confronto e as feridas abertas. Volto pra casa sozinha e abro um vinho pra me fazer companhia. Que raio de gente é essa? Ligo o rádio e está tocando uma das minhas músicas favoritas. Respiro fundo. Ela diz sobre como foi meu dia hoje, eu e a cidade, sozinhas e chorando. Choro de novo ouvindo a música, mas ali naquele momento tenho uma certeza: por mais dolorido que seja, eu não vou me abalar. O que coisas como essa me ensinaram é que as pessoas só oferecem aquilo que possuem, as atitudes são reflexo do que são. Mesmo retalhada eu ainda escolho refletir amor.
– Juliana Bassan Ayon

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da saudade

De tudo dá saudade
da voz
do calor
do olhar
Dá saudade
da risada que não será mais ouvida
do abraço que não será mais sentido
da vida que não será mais vivida
Dá saudade
das bagunças que a gente faria
dos rumos que a vida tomaria
daquilo que eu me tornaria
Dá saudade
do que a ausência impediu de realizar
do que o partir impediu de existir
do que o morrer impediu de viver
Um detalhe
Um segundo
Um sorriso
Me dá saudade,
tenho muita saudade
– Juh, cheia de saudade

30 de Janeiro, dia da Saudade

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