profundidade

Sinto uma dor gigante só por estar aqui, só pelo fato de existir. Uma dor sempre excessiva, abundante. Que me joga desavisada na água e me afoga no mergulho exagerado de sentir. Dói tanto. Dói fundo. Mas essa dor me permite perceber que ainda tenho vida dentro de mim. Não nasci pra lugares rasos e nem pra ficar na superfície. Minha intensidade exige profundidade. E alguém que não tenha medo de mergulhar.

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enquanto questiono ainda existo.

Quem eu sou? Quem é essa que eu vejo todo dia no espelho e que não mais conheço? Que olhos são esses que veem o mundo por mim, mas que não mais os reconheço? Quem é essa que ainda sou eu, mas a quem não mais pertenço? Interrogações que não acabam mais. É como se minha alma estivesse se desligando do meu corpo. O coração ainda bate, mas não parece mais que ele é meu. Ele ainda sabe amar, mas está quase se esquecendo como se faz, assim como eu estou me esquecendo de ser. Ainda existo enquanto questiono. Amanhã já não sei mais.

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não consigo continuar

Todos querem seguir em frente. Somos assim, seres humanos que querem sempre seguir em frente, que precisam seguir em frente, que precisam continuar, pessoas que estão sempre vivendo e tentando superar alguma coisa. Todo dia brigando com a morte. Evitando encontrá-la ao virar a esquina. Todo dia um novo passo rumo ao que se deseja, todo dia um pouco mais além. Dias que muitas vezes parecem mais um meio passo do que um passo inteiro. Outros que não saímos do lugar. Mas às vezes, como hoje por exemplo, recuamos ao invés de avançar. Como aqueles jogos de tabuleiros, sabe? Que você joga os seus dados com a maior fé, mas a soma dos dados te faz cair bem naquele lugar que te faz voltar várias casas pra trás. A sensação é a de rolar ladeira abaixo. É a de ver desmoronar os pedacinhos todos que você vinha juntando de você mesma, tão cuidadosamente, há tanto tempo. Os pedacinhos que você tinha colado com tanta cautela com superbonder, tentando deixar as menores cicatrizes possíveis. Voltaram todos a ser só pedacinhos de novo. Eu estava indo bem, estava me reconstruindo. Mas eu não consigo mais continuar. Hoje eu, mais uma vez, sou só cacos.

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daqueles dias que eu desisti de morrer.

ypê

20′

Os céus de outono me deixam apaixonada. Aquele céu aquarelado, aquela mistura de cores que você não sabe onde começa o amarelo, não vê o degrau que sutilmente faz dele laranja e nem como ele chega a ser até vermelho às vezes. Contrastando com aquele azul tão intenso do resto do céu já anoitecido. O mais bonito céu de todo o ano, que dá a sensação de estar vivendo dentro de uma pintura. Que dá vontade de segurar o tempo pra ele parar ali, naquela lindeza de céu.
Mas daí chega a primavera. E os ipês floridos que despertam felizes quando ela chega. Deixando as ruas coloridas lá em cima e no chão, aquele chão antes tão sem graça que agora tem milhares de florzinhas enfeitando a passagem. Daí meu coração se enche de amor pela primavera. Mas continuo amando o Outono. Amo os dois ao mesmo tempo. Amo as belezas escondidas no cotidiano. E dentro de mim se cria um embate entre esse amor pelo imenso todo e o meu ódio por existir. Me sinto cansada de ver tanta feiúra em mim, que fujo e me apaixono pelas belezas da natureza. E isso me preenche e transforma. Me faz não querer mais morrer. Me faz querer viver até chegar a próxima estação, só pra eu me apaixonar de novo pelos céus e suas nuances de cores ou pelas flores que enfeitam os caminhos.

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paz

Três meses depois de eu completar 15 anos meu pai descobriu um câncer monstruoso no estômago e o médico deu pra ele poucos meses de vida. E meu refúgio era essa praça. Quantas vezes matei aula pra ficar aí, sozinha, lendo nesses bancos, ouvindo os passarinhos, desligada da realidade pesada de casa. Um ano e meio passou, daqueles dolorido demais, e ele cansou de lutar e foi embora. As pessoas sempre falam que os mortos descansam e isso nunca tinha feito sentido até o momento em que eu não conseguia dormir por ouvir os gemidos dele de dor de madrugada e suplicava aos céus misericórdia. Nessa época, eu com 16 anos e com um ódio natural do mundo, briguei com Deus porque aquilo tudo era absurdo, não fazia sentido fazer ele sofrer daquele jeito. Ele era aquele cara que comprava menos comida pra casa pra poder comprar algo pro vizinho desempregado. Ele foi a pessoa mais altruísta que eu já conheci. E que raio de deus era esse que fazia isso com meu pai? E, de novo depois da morte dele, essa praça e meus livros eram meu refúgio. Eu encontrei paz nessas árvores quando em nenhum outro lugar do mundo, nem dentro de mim mesma, eu achava paz. E essa semana, depois de um ano até agora excruciante, eu achei paz de novo nesse lugar. Sentada no banco com o livro no colo e coração na boca, me refiz, respirei fundo, fiz as pazes com as minhas lembranças e me permitir ficar em paz.

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migalhas

E depois de tanta frieza, caiu minha cara quando me dei conta de que há muito tempo eu só tenho juntado migalhas. Me contento com tão pouco, com míseros pedacinhos largados de vez em quando por aí pra mim. Esses míseros pedacinhos, que nunca significaram nada, ao se juntarem à minha imaginação e otimismo, se transformavam em uma ilusão devastadora. Um querer bem que eu queria tanto. Que eu acreditava tanto. Mas que só se vê nas histórias imaginárias dentro da minha cabeça, porque na realidade isso não existe. Nunca existiu. Porque mesmo que eu me esforce e junte todas as migalhas, elas nunca formarão algo inteiro. São só farelos, não são nada. Assim como eu.

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(re) moendo

Às vezes eu penso que o mundo é um moinho mesmo, como disse o Cartola. E que só faz estraçalhar as metas, esmigalhar esperanças e destruir todos os sonhos. Mas daí eu paro e olho pro céu e vejo esse azul tão imenso, cheio de alegria e possibilidade. E tenho vontade de correr pra longe desse moinho. De jogar pedras dentro dele pra que ele quebre. Porque o barulho do moinho é tão alto que a gente não consegue escutar os pássaros cantando felizes lá de cima do Ipê. Se focamos só no barulho assustador do moinho, a gente não ouve e não enxerga o que realmente alimenta nossa alma.

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Maldito Padrão

Maldito padrão
que define
e que dá razão
ao molde que oprime

que reprime a mulher
e a faz se ver feia
e poda as asas da menina
pela falsa perfeição alheia

e essa ilusória perfeição
que é sempre manipulada
acaba virando rejeição
na menina não amada

e a faz não se ver
pelos outros bem quista
por não parecer em nada
a modelo da capa da revista

– Juh Bassan

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acomodada

É engraçado como a gente se acostuma e se acomoda. Em menos de seis meses me acostumei com o silêncio de acordar sozinha e uma hora mais cedo. Me acostumei com os bom dias não respondidos. Me acostumei a passar o dia todo pisando com cuidado pra não me cortar nos cacos espalhados no caminho. Me acostumei a passar 50 minutos no ônibus na volta pra casa e também com o silêncio do trajeto. Me acostumei com as paisagens que via pela janela. Com os lugares afastados que passávamos e que mostravam cores lindas que contrastavam com a feiúra dos meus dias. A gente se acostuma. Por pior que seja. Nos acomodamos. Nos acostumamos. E ficamos com saudades. E a saudade que fica são dos céus coloridos e brilhantes me esperando na volta pra casa.

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