Não ouse me parabenizar se você ainda não aprendeu a nos respeitar.

Trilha sonora: “Pagu” – Rita Lee e Zélia Duncan

“Mexo, remexo na inquisição
só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão
eu sou pau pra toda obra, Deus dá asas à minha cobra
minha força não é bruta, não sou freira nem sou puta”

 

Feliz dia, Mulher.
Mas se arruma um pouquinho vai, senão você vai parecer desleixada.
Feliz dia, Mulher.
Mas troca esse vestido aí que tá muito curto senão vão te chamar de vadia.
Feliz dia, Mulher.
Mas não pesa tanto assim na maquiagem, nas roupas e sapatos senão você vai ser taxada de fútil e estúpida.
Feliz dia, Mulher.
Mas não sai na rua com essa roupa aí não porque vai que um tarado te vê, né? Parece que tá pedindo pra ser estuprada.
Feliz dia, Mulher.
Mas não se iluda pensando que mesmo que você esteja toda coberta vai estar livre de assédio ou de sentir medo.
Feliz dia, Mulher.
Mas nem pense em falar em voz alta que você não quer filhos, sua desalmada sem coração.
Feliz dia, Mulher.
Mas se tiver, não descuida dos teus filhos nunca, viu? Porque qualquer coisa que acontecer a eles a culpa vai ser sempre sua que não soube criar, nunca do pai.
Feliz dia, Mulher.
Mas não engorda muito, hein? Sabe como é homem, logo te troca por outra mais magra.
Feliz dia, Mulher.
Mas nem pense em beber, falar e rir alto. Não vai querer que te chamem de vulgar, né?
Feliz dia, Mulher.
Mas nem se anime em ser ótima profissionalmente, teu salário nunca vai ser como o de um homem que desempenhe a mesma função.
Feliz dia, Mulher.
Mas não ouse ficar com muito caras, senão você sai automaticamente sai da categoria “pra casar” e vai pra categoria “só pra pegar”.
Feliz dia, Mulher.
Mas não tenha e muito menos expresse sua opinião sobre qualquer assunto, você nunca será boa o suficiente pra discutir sobre o que quer que seja.
Feliz dia, Mulher.
Mas toma aqui de presente esse guardanapo, essa panela, essa escova e esse balde pra você nunca esquecer de onde realmente é o seu lugar.
Feliz dia, Mulher.
E aproveita bem esse dia cheio de parabéns, bombons, flores e clichês. Porque até o próximo dia 08 de março você voltará a ser julgada, difamada, violada, abusada e esquecida.

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#euqueroérespeito

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Eu acredito no Girl Power

Para ler ouvindo: The Lady is a Vamp – Spice Girls

 

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Éramos eu e mais 3 amigas inseparáveis. Estudávamos juntas e nos dávamos muito bem. Nos sentíamos maduras, maiorais e inatingíveis. Três de nós estávamos namorando e sempre saíamos todas juntas. Daí um dia uma largou o namorado.

Foram vários acontecimentos até chegar a esse fim, mas em meio a muitas coisas acontecendo, ela estava finalmente se sentindo livre, dona de si novamente.

Ela estava bem com ela mesma, fazendo o que tinha vontade, beijando os caras que ela queria. Não demorou muito para que ela virasse motivo de falatório. Ganhou diversos apelidos, foi taxada de biscate, piranha, vadia. Ela não estava “se dando ao respeito”. E alguns caras que nem com ela tinham ficado começaram a espalhar que tinham ficado com ela e, inclusive, ido mais além.

Os caras podiam fazer isso desde que o mundo era mundo, mas onde já se viu uma menina se comportar assim? Ela tinha que pagar pela audácia.

Ela virou o assunto preferido das rodinhas. Todo mundo sabia quem ela era e todos tinham alguma história para contar. Eu me meti em muitas discussões para defender, mas não são dessas que eu me lembro. Ainda me corrói por dentro quando lembro das vezes que eu ouvi falarem coisas dela e não me posicionei e não a defendi. Porque dentro de mim, porque na minha cabeça limitada e preconceituosamente moldada desde quando eu era criança, aquilo de certa forma tinha a sua razão de ser.

Foi uma guerra contraditória dentro de mim. Eu não conhecia o feminismo, eu ainda não enxergava totalmente que as mulheres têm o direito de serem e fazerem o que quiserem. Graças a essa educação machista e limitada que a sociedade nos impõe, chegamos ao triste absurdo de chamá-la num canto e pedir que ela parasse, que ela começasse a “se valorizar”, porque senão nenhum cara iria querer namorar com ela.

Ela argumentou que a maioria do que estavam dizendo era mentira, que era boato e chorou. Dissemos que como “boas amigas” que éramos, tínhamos que protegê-la e era isso que estávamos fazendo.

Mas no fundo, o grande medo era o de ser taxada de vadia também. E dos nossos namorados se importarem com aquilo. Sucumbimos a pressão do mundo, nos deixamos vencer. Calamos o nosso próprio discurso de que poderíamos ser o que quiséssemos, que poderíamos fazer o que tivéssemos vontade.

Estávamos saindo da adolescência e entrando na vida adulta e calamos a mulher forte e independente que estava nascendo em nós. Não éramos mais maduras, nem maiorais e muito menos inatingíveis.

Daí os anos foram passando e eu nunca esqueci esse episódio. Sempre lembrava daquilo e dizia pra mim mesma: “Tá muito errado isso aí.” Não foi certo, não é justo que isso continue acontecendo. Eu fui uma péssima amiga. Eu falhei quando ela mais precisava de apoio. Eu deixei que ela acreditasse que todas aquelas mentiras eram verdade e que sim, ela era uma vadia, puta, suja.

Não, amiga. Você não era nada daquilo, você apenas foi vítima.

Vítima como tantas outras mulheres. Situações parecidas já vimos em amigas, conhecidas e até com a gente mesma. A parte boa é que a gente cresce e passa a ter acesso a informação, como eu ao feminismo e agora ao projeto I AM THAT GIRL. E assim consegue abrir a mente, enxergar erro nas próprias atitudes e assim evitar que outras meninas sofram como essa minha amiga sofreu.

Hoje, eu criaria a hashtag #somostodasvadias e lutaria para que as pessoas não destruíssem a vida da minha amiga com mentiras, lutaria para deixar claro que todas temos o direito de fazer o que quisermos da nossa vida. Mas há 12 anos, fui covarde e me arrependo disso.

E mulheres, parem de julgar as outras mulheres! A gente foi criada assim, eu sei. É difícil, é contraditório, e eu mesma ainda estou passando por isso. Mas a gente precisa questionar e não aceitar tudo como nos é imposto. Homens estranhos quando se encontram num churrasco depois de 10 minutos são amigos, mulheres se dividem em rodinhas e 10 minutos depois estão malhando o outro grupo.

E sempre foi assim, desde o primário.

Mulheres não se veem como amigas, se enxergam como rivais. E olha, não sei se vocês sabem, mas estamos todas no mesmo barco. Somos julgadas, assediadas, discriminadas e estereotipadas todas da mesma forma. Deveríamos ser solidárias umas com as outras, mas muitas vezes ajudamos a disseminar fofocas, culpas e picuinhas.

O machismo está aí desde sempre e não vai sumir da noite pro dia. Mas está na hora de nós mulheres começarmos a mudar a maneira como nos vemos e nos unir pelo mesmo ideal.

E termos orgulho de todas sermos mulheres.

O machismo está aí desde sempre e não vai sumir da noite pro dia. Mas está na hora de nós mulheres começarmos a mudar a maneira como nos vemos e nos unir pelo mesmo ideal.

E termos orgulho de todas sermos mulheres.

*Esse texto foi publicado originalmente no blog do projeto I AM THAT GIRL: São Paulo, que tem orgulho de fazer parte de um movimento global para inspirar garotas a SER, AMAR, EXPRESSAR E SER QUEM ELAS SÃO. Estarei lá escrevendo a coluna “Eu acredito no Girl Power”, juntamente com outras meninas maravilhosas que estão juntas lutando por um mundo melhor e igualitário. 😉

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O Dia da Mulher e a hipocrisia.

Dia 08 de Março é comemorado o Dia Internacional da Mulher. O dia da mulher surgiu por causa de mulheres que cansaram e resolveram lutar por uma vida melhor. As manifestações datam de 1908, 1910, 1911, 1913, 1917, 1960 em diversos lugares, mas todas com o mesmo objetivo: igualdade e melhores condições de trabalho (pra ler mais clique aqui). E em dezembro de 1977 esse dia foi adotado pelas Nações Unidas pra lembrar toda luta e conquista das mulheres. E hoje cá estamos nós celebrando o dia e nos deparando com lindas mensagens pra todas as mulheres nas redes sociais. Na teoria é tudo lindo, mas na prática a hipocrisia rola solta.

https://www.facebook.com/germana.zanettini
Hoje toda mulher recebe flores, toda mulher é guerreira, toda mulher é amada e admirada. Hoje o centro das atenções são as mulheres, hoje todos os esforços são reconhecidos, hoje todas somos mulheres maravilha. Mas isso não deveria ser só hoje. E tudo não deveria estar tão mergulhado em hipocrisia assim.
Porque eu não vejo muita coisa sincera aí, não. O que eu vejo hoje é aquele filho que destrata a mãe, que grita e que xinga, e que hoje chama ela de guerreira e dá parabéns por uma rede social qualquer e tá perdoado por tudo o que fez o ano inteiro. Vejo o marido que a semana toda chega em casa e fica largado no sofá, reclamando do jantar que a mulher fez ou de como a casa está bagunçada, que larga os filhos como responsabilidade toda da mulher, daquela mulher que trabalha fora como ele, mas que em casa tem que dar conta de tudo sozinha, daí ele hoje mandou um buquê de flores com um cartão bonitinho e opa, está tudo certo. Vejo as “amigas” que não perdem a oportunidade de falar o quanto a outra está gorda e que não se cuida, o quanto a fulana não deveria usar roupa curta porque vai ser julgada e chamada de biscate, ou o quanto a colega tá velha demais esperando pra ter filho, mandando lindas mensagens de “Parabéns, querida, você é maravilhosa”. Mas só hoje, tá? Porque no resto do ano você não se dá o respeito. E aposto que você também viu disso por aí. E, infelizmente, esses são só 3 exemplos.

E quer saber o que eu acho? Que perdeu todo o sentido. O que a gente tá comemorando é a luta pela igualdade, mas não é isso que eu vejo. Não tem igualdade, não tem respeito. Tem desigualdade salarial, tem padronização estética, tem assédio moral e sexual, tem culpabilização da vítima, tem falta de direito sobre o próprio corpo, tem revenge porn e discriminação de gênero. E é como se toda a gentileza de hoje apagasse os abusos do resto do ano. E não é assim que funciona! Eu acho pouco pras nós mulheres nos contentarmos com esses parabéns descarados de hoje. Que daí hoje é tudo lindo, mas no resto do ano somos obrigadas a aguentar toda uma sociedade nos dizendo como nos comportar, como nos vestir, quanto temos que pesar… Tá tudo muito errado!

E mulheres, parem de julgar as outras mulheres! A gente foi criada assim, eu sei. É difícil, é contraditório e eu mesma estou passando por isso. Mas a gente precisa questionar e não aceitar tudo como nos é imposto. Homens estranhos quando se encontram num churrasco depois de 10 minutos são amigos, mulheres se dividem em rodinhas e 10 minutos depois tão malhando o outro grupo. E sempre foi assim, desde o primário. Mulheres não se vêem como amigas, se enxergam como rivais. E olha, não sei se vocês sabem, mas estamos todas no mesmo barco. Somos julgadas, assediadas, discriminadas e estereotipadas todas da mesma forma. Deveríamos ser solidárias umas com as outras, mas muitas vezes ajudamos a disseminar fofocas, culpas e picuinhas. O machismo ta aí desde sempre e não vai sumir da noite pro dia. Mas está na hora de nós mulheres começarmos a mudar a maneira como nos vemos e nos unir pelo mesmo ideal. E termos orgulho de todas sermos mulheres.

Eu não quero chocolates, flores e bombons. Eu não quero homenagens mascaradas. Eu quero respeito e igualdade. Eu quero liberdade de decidir o que fazer e como levar a minha vida. Eu quero sim ser parabenizada pelas minhas conquistas. Mas sem hipocrisia.

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