Quem é seu quem?

Quem é?
Que te tira a concentração,
que faz na sua cabeça confusão
que entra sem pedir permissão
Quem é?
Que te dá batedeira,
que dentro de você faz fogueira,
que te deixa sem eira nem beira
Quem é?
Que é impossível mostrar indiferença,
que invade teu peito sem pedir licença,
que te faz mais que tudo desejar a presença
Quem é?
Que faz teu estômago ferver,
que faz dentro de ti chover,
quem é desordem sem o ser?
Quem é?
Que quando veio bagunçou
e nem sequer imaginou
o estrago que causou
Quem é?
Que chegou pra ficar,
que decidiu dentro de ti morar
e inevitavelmente se apaixonar?
Quem é?
– Juliana Bassan Ayon

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Coração

Eu tenho um coração.
Um coração solitário batendo rápido no peito.
Um coração que até gosta de companhia, mas que normalmente prefere estar sozinho em sua cama com suas cobertas fofinhas.
Eu sempre fui solitária.
Não sozinha, mas solitária.
Daquele tipo que se tranca dentro do quarto e dali admira a vida e a paisagem pela janela e que fica feliz com o que vê, mas não sai pra ver ou sentir pessoalmente.
Tenho meu próprio mundo e as particularidades dele.
E ninguém, fora eu, entenderia.
Por isso não crio laços apertados demais.
Sem conexões fortes demais não existe vínculo.
Tenho medo de criar vínculos.
Por isso não faço questão de explicar ou de me fazer entender.
E assim sempre crio um limite, uma linha pra não ultrapassar.
E assim não preciso deixar ninguém entrar.
E não deixando ninguém entrar, não espero nada.
E sem ninguém aqui, ninguém nunca precisará sair.
E sem ninguém pra sair eu não me machuco, não me corto e não sangro.
E continuo sendo só um coração.
Mas um coração solitário.
Só eu e ele.
Eu e meu coração.
Eu, meu coração e a solidão.

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nada.

Seguem as semanas,
menos pra mim.
Aqui o tempo nunca passa
sempre é assim.
Seguem os dias,
seguem sem serem meus.
São de todos,
menos meus.
Nunca foram meus.
Todos têm tempo,
menos eu.
Todos se cuidam,
menos de mim.
Todos se chocam,
menos eu.
Estou anestesiada,
acostumada a negação.
Nem doente me arrisco ficar,
o tempo não é meu,
não pode me esperar.
O mundo nunca parou
pra me esperar,
nunca deu prazo
pros meus pedaços eu juntar.
Não tenho tempo,
não posso dormir.
Não posso olhar
e nem mesmo sorrir.
Não tenho tempo,
não tenho rumo.
Não tenho prestígio,
não tenho qualidade.
Nem dinheiro
e nem mais saúde.
Não tenho força
nem ambição.
Talvez nem tenha mais
um coração.
Não tenho amigos
e nem mais me tenho.
Não tenho nada,
nem mais amor.
– Juh, nada.

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dor

Se a dor é minha
por que eu culpo o mundo?
Se o mundo nada sabe
do meu medo e terror
por que eu culpo o mundo?
Por que eu procuro culpados
pela dor que só eu sinto?
Gente toda essa
que de mim se afasta
que carregar nas costas
o peso que deveria ser só meu.

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pequena

Não carrego em mim nada de perfeição. Mas sou toda imensidão. Transpiro intensidade e é verdade que nem sempre sou o mais afável dos seres. Mas tô sempre na luta. Não me contento com nada e estou sempre buscando mais e sei que nada nunca vai ser suficiente. Eu choro, eu grito, eu brigo. Eu tento, sempre. E nem sempre consigo. Só tenho a certeza que minha alma já não é mais tão pequenininha, sei que estou sempre buscando ser a dona de uma alma um pouco mais imensa a cada dia.

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pqp

Eu queria não sentir o problema.
Eu não queria sentir o problema,
não como o sinto.
Eu não queria me sentir o problema.
Mas como problema sempre me sinto.
Me percebo rodeada de gente
que não parece mais gente.
De gente que não é o que diz que é.
Gente que tá me fazendo perder a fé.
Gente que matou um pedaço de mim, até.
Gente que um dia eu achei
que fosse a melhor gente.
E que hoje me faz descrente
e prova que me enganei.
Gente que usou de mim como pôde
que sugou o que podia e soube
me fazer de imbecil.
Gente que me fez de escada
subiu até onde podia e com nada
nunca me retribuiu.
Devo ter mesmo cara de trouxa
mas meu problema mesmo é ser trouxa
e que vá tudo pra puta que pariu.

(primeira vez que uso um palavrão numa poesia, mas hoje foi necessário)

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tesouro

O ônibus que eu pego pra ir embora do trabalho passa todo dia na frente da casa da minha mãe e todo dia ela espera no portão pra me dar tchau. Até se está chovendo. Aquele sorriso acolhedor. Aquele sacudir de mão que atravessa o vidro e me alcança sentada no meu banco. Aquele olhar que diz tanto, sem dizer nada. Daí eu sigo meu trajeto. Mas não sigo só porque o amor dela vem vindo junto comigo. Se esse não é o maior tesouro que se pode ter na vida, então não sei o que poderia ser. 💛

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desencaixe

Se eu não me encaixo,
por que é que eu fico?
Se eu não me sinto parte,
por que é que insisto?
Se o que eu sou afronta,
se pra onde vou amedronta,
por que é que corro o risco?
Se não posso ser compreendida
qual o sentido de ser ouvida?
Juh, desencaixada e sem respostas.

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mergulho

vivo essa vida corrida
que implora ser vivida
que rouba a minha calma
e voraz suga minha alma

que me tira os anseios
aumenta a dor que já existe
acentua meus receios
e faz de mim vazia e triste

quero reaprender a amar
na serenidade mergulhar
e me banhar em euforia

quero me reencontrar
contra o mundo lutar
e celebrar minha autonomia

ser de novo dona de mim
e quem sabe assim
ser, enfim, feliz

– Juliana Bassan Ayon

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