nós, tão sós.

Busquei versos
de grandes poetas
pra tentar
só uma vez
explicar o que sinto.
decifrar
o que pressinto.
mas nunca achei
verso nenhum
que de você lembrei.
somos dois sós.
duas linhas
paralelas e solitárias.
culpa toda
dos nossos passos.
tão incertos,
mas tão mais espertos
que nós.

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voando

Hoje é um daqueles dias
que eu me perdi por aí.
Não sei se foi na ida,
ou no intervalo,
naquela pausa rápida
ou na volta pra casa.
Mas por aí eu fiquei.
Não me reconheço em mim.
Sou uma alma estranha
vivendo aprisionada nesse corpo,
nessa vida antiga,
querendo rasgar a carne
e escapar pro mundo.
Uma transgressora refém
da casca de moça subordinada.
Uma desbravadora de histórias
ansiando por novos caminhos.
Mas erroneamente correndo
toda vez pro mesmo sentido.
Pra lugares já tão conhecidos,
parados e entediantes.
Alguma coisa dentro de mim se foi
e outras partes chegaram.
Partes que precisam de mudança.
Não sou mais quem eu era
não enxergo mais como eu via
não sinto mais como eu sentia.
Não tem reversão.
Me aceite.
Acostume-se.
Acomode-se.
E me ame do jeito que estou.
-Juh, quebrando a gaiola.

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gente de bem

Santa hipocrisia
Se faz de gente de bem
Com frases de efeito
E versículos bíblicos
Pede amor e compreensão
Pede empatia
Mas até ontem tava aí
querendo mandar matar
quem é diferente de ti
Até ontem tava aí
sem se importar com teu próximo
Sem ver a dor dos teus irmãos
Só olha pro centro do seu círculo.
Usa o nome de Deus
do jeito que lhe convém
pra justificar os próprios preconceitos.
Não é capaz de ver além,
não vê que existem outras realidades
bem diferentes da sua bolha,
opostas ao seu mundo de privilégios.
Essa empatia que você pede
É pra passar pano pros teus preconceitos?
Quanto mais eu conheço
os ~cidadãos de bem~
Mais eu prefiro me afastar de todos eles.

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Ato

Diz que me disse
daqui,
diz que me disse
dali.

Quem
conta
um
conto
aumenta
um ponto.

Mas não tem sido só um ponto,
é toda a acentuação conhecida.
É até a invenção de novos verbos.
Tentam encontrar um jeito
de justificar o que é injustificável.
Tentam a todo custo defender
pontos de vista difíceis de crer.
Conhecimento de que importa?
Se o banalizaram de tal forma
que questionam o consistente
e acreditam piamente no demente.
Todos acreditam em tudo
e ninguém questiona nada.
Estudam pelas fake news no facebook
e tiram dúvidas pelos grupos do whatsApp.

Questionam estudiosos

e aplaudem ignorantes.

Massa de manobra.
Gente que é povo e se esqueceu.
Que luta com unhas e dentes
pelo fim da democracia.
Sem se dar conta de que ele mesmo
terá que se render a supremacia.
Tristes aqueles que não entendem
que nunca mais lhe será dada a chance
de dizer o que sente e o que pensa.
Acreditam pensar por si mesmos
mas estão inteiramente influenciados.
E defendem bravamente
uma ideologia desumana e opressora.
Não tem ciência de si mesmos
não tem consciência de classe.
Perderam a noção da realidade
e não vêem que eles mesmos
são o alvo e não o dardo,
são eles os oprimidos, os rebaixados.
Não vêem que são eles aqueles
que sofrerão as consequências
e não haverá reticências
porque teremos chegado ao fim.

Por isso luto
faço coro e oposição.
Questiono, debato e rebato.
E enquanto não me calam
eu indago e faço poesia.
E transformo minhas palavras
na minha grande arma.
Porque eu não aceito esse fim.
Eu ainda acredito nas pessoas.
Eu acredito num mundo melhor.
eu acredito no amor e na empatia.
Eu acredito na democracia.

– Juliana Bassan Ayon

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final

E quando quiseres notícias de mim
Não mais vai ter jeito de saber
Construí paredes e instalei grades
E garanto assim nunca mais te ver.
Serei só lembrança e amargura
Sentirá falta da minha presença
Vai sentir aguçada a sua loucura
E se condenar na tua sentença.
Fui tanto tempo estúpida
Cansei de desprezo e desdém
Estou farta de sozinha te amar
Até daqui pra nunca mais, meu bem.
– Juh, adeus.

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eu e meu breu

Desde cedo sozinha aprendi
Que não era nada fácil ser eu
Tantas vezes a raiva em mim brotou
Porque com minha dor e meu breu
Ninguém nunca se importou.
Sou constantemente julgada
Na rua, no trabalho, na sociedade
E me sinto tantas vezes sufocada
pois ninguém me dá credibilidade.
Exigem de mim tanta coisa
Filhos, beleza, submissão
Mas ninguém de fato se importa
Com o que se passa no meu coração.
Meu fardo maior é esse
Ser mulher numa sociedade machista
Que exige de mim tanto esforço
Só pra que eu simplesmente exista
Pra suportar eu grito todo dia
Resista!
Não desista!
Persista!
O machismo é uma mão grande
que sufoca, me diminui e me cala
Que de todo lado me cerca
E rouba o meu lugar de fala.
Eu quero reconhecimento,
Respeito e integridade
Quero viver num mundo
Onde exista equidade.
Meu intelecto não se refere
Com o fato de eu ser mulher
Sou competente, sim senhor
E isso nada tem a ver
Com meu órgão reprodutor.

– Juliana Bassan Ayon

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mãe

E dentre todas as mulheres
que habitam esse mundo
Eu vim com destino certo
para o colo da minha mãe
Mulher forte e batalhadora
combativa, guerreira e lutadora
Que quando a vida tirou
o grande amor de sua vida
Apesar de toda dor ela lutou
mesmo estando destruída.
Olhou pros desafios e sorriu,
e então bravamente lutou.
Nos perrengues que se seguiu
três grandes filhos criou.
E houve quem dissesse
que ela não conseguiria
Mas mãe tem em si certa mágica
e ela nunca, por nada, desistiria
Nos deu amor e educação
Foi mãe, pai e oração
Esqueceu de si várias vezes
pra cuidar das suas crias
Dona do colo mais aconchegante
que nesse mundo se há de encontrar
Que só num abraço apertado
tem o poder de nos curar.
E o que eu mais admiro
é a grandiosidade da minha mãe.
Que pequenininha que nem é
carrega um enorme coração.
– Juliana Bassan Ayon

Feliz dia das Mães 💛

Homenagem pra minha mãe Regina Bassan, meu exemplo de mulher maravilhosa e destemida. Te amo, mãe!

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Coragem #DesafiodePoesia

Uma foto inspirando um poema.

Eu participo de um grupo no WhatsApp de poetas e escritores e algumas vezes o moderador nos desafia a escrever por algum meio de inspiração, seja por meio de música, filme, palavras ou foto.

O desafio de hoje era escrever um poema inspirado por essa foto aqui:

E eu gostei bastante do resultado. Espero que vocês também gostem 🙂

Coragem

Deitada no chão frio do quintal
Eu olhava pro céu, desiludida
Esperando ansiosa por um sinal
Que me fizesse sentir compreendida

Empilhada ao lado do portão
Já estava toda a minha bagagem
procurei acalmar meu coração
e busquei um resto de coragem

Destruí arquivos e reticências
Rasguei fotos e retratos
apaguei todas as evidências
joguei fora os mimos baratos

De tudo não quis levar nada
Que me trouxesse recordações
De você, meu camarada
Eu só levo escoriações

A imagem que eu vou me lembrar
é das fotos jogadas no chão
que eu fiz questão de pisar
quando saí de vez pelo portão

E amor melhor que existe
é o amor que temos pela gente
Que mesmo que se esteja triste,
preenche e nos deixa contente

E um dia ainda, eu acredito
Disso tudo eu vou esquecer
Meu coração ao invés de ser aflito
Vai de novo florescer

– Juliana Bassan Ayon

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desvendando

Ei, quem é você?
O mundo me grita
e exige respostas.
Espera que eu seja coesa
e ainda convincente.
Mas eu não posso responder.
Eu me renovo todo dia
Eu sou o medo e a folia
O desespero e a alegria
A felicidade e a agonia.
Sou incansável e ociosa
Esfarrapada e vaidosa
Sou nova todo dia
Como então me definir?
Se esse eu de agora
amanhã vai partir?
Se o medo de hoje
amanhã não mais vai existir?
Quem é você?
Me grita de novo o mundo.
Pois bem, te responderei.
Sou a incógnita,
o enigma, o mistério
Sou toda incompreensão.
Te desafio a me desvendar.
– Juliana Bassan Ayon

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