Sobre como algumas coisas seriam caso outras tivessem acontecido

Quantos universos paralelos existiriam se cada oportunidade/escolha que eu tive se transformasse num caminho diferente?
Em quantos deles eu seria feliz?
O que seria essa felicidade?
O que eu estaria buscando?
Pelo que eu estaria chorando?
Que música eu estaria ouvindo?
Quem seriam meus amigos?
Onde eu estaria?
Com o que eu trabalharia?
Qual importância eu teria?
O que eu estaria aprendendo?
Quem me amaria?
Quem eu estaria amando?
Pelo que eu estaria vivendo?
E se não estivesse vivendo…
pelo que eu estaria morrendo?

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saudade do silêncio


Esses dias me dei conta de que não tenho ouvido o silêncio.
Não reparo mais nos barulhos causados pelas danças secretas das portas.
Não escuto mais a música que o vento sopra nos vãos das janelas.
Não presto mais atenção no grito alto que a geladeira dá quando o motor liga.
Não ouço mais nada.
O barulho dentro da minha cabeça está tão alto que não ouço nada do lado de fora.
Ouço confusão, gritos, discussões e alguns soluços.
Queria de volta a leveza de não ouvir nada.
De conseguir aproveitar o silêncio.
De mergulhar no silêncio.
Mas estou atolada no caos.
Juh, muitos decibéis.

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clown

Faço rir a platéia,
sou da piada o motivo
e o que se ouve de riso
são sobre meus solavancos.
A cara triste não escondo
mas importância ninguém dá
parece uma cena, um ato
só um jeito de brincar.
E com tanto riso e brincadeira
ninguém vê a tristeza certeira
dando a cara nos bastidores
bem longe dos espectadores.
E segue assim a sina,
o que riu pela peça se fascina,
o que chora conseguiu agradar,
mas dentro de si não pôde a dor parar.

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areia movediça

Como posso querer morrer,
se morta já me sinto?
Como posso querer viver
se com minha morte eu consinto?
Tantas mortes eu já morri,
tanta coisa nessa vida já vivi.
Muito disso num só dia,
numa só hora,
em uns poucos segundos.
Senti a despedida,
o final e a humilhação.
Me senti preenchida
de tristeza e degradação.
Desejei de todo jeito morrer,
quis parar de sofrer,
quis nunca mais aparecer.
Logo cedo me senti morta
sem compreender essa vida torta
sem entender como se suporta
esse infortúnio desastroso.
Mas no meio dessa falta de sorte
eu, teimosa, renasci
e senti que do limbo fugi
e sem perceber cresci
e vi meu futuro esperançoso.
Um caminho todo a percorrer
uma vida inteira pra viver
um coração pra florescer.
Mas meus sentidos estão atados
meus pés atolados
no lamaçal que escolhi viver.

Ei, me escute.
Pra sair daqui preciso de você.

– Juliana Bassan Ayon

***essa foto foi minha vista da porta do busão na volta pra casa no final do dia, que me inspirou a escrever sobre viver e morrer dentro de mim mesma todo dia.

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Quem é seu quem?

Quem é?
Que te tira a concentração,
que faz na sua cabeça confusão
que entra sem pedir permissão
Quem é?
Que te dá batedeira,
que dentro de você faz fogueira,
que te deixa sem eira nem beira
Quem é?
Que é impossível mostrar indiferença,
que invade teu peito sem pedir licença,
que te faz mais que tudo desejar a presença
Quem é?
Que faz teu estômago ferver,
que faz dentro de ti chover,
quem é desordem sem o ser?
Quem é?
Que quando veio bagunçou
e nem sequer imaginou
o estrago que causou
Quem é?
Que chegou pra ficar,
que decidiu dentro de ti morar
e inevitavelmente se apaixonar?
Quem é?
– Juliana Bassan Ayon

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Coração

Eu tenho um coração.
Um coração solitário batendo rápido no peito.
Um coração que até gosta de companhia, mas que normalmente prefere estar sozinho em sua cama com suas cobertas fofinhas.
Eu sempre fui solitária.
Não sozinha, mas solitária.
Daquele tipo que se tranca dentro do quarto e dali admira a vida e a paisagem pela janela e que fica feliz com o que vê, mas não sai pra ver ou sentir pessoalmente.
Tenho meu próprio mundo e as particularidades dele.
E ninguém, fora eu, entenderia.
Por isso não crio laços apertados demais.
Sem conexões fortes demais não existe vínculo.
Tenho medo de criar vínculos.
Por isso não faço questão de explicar ou de me fazer entender.
E assim sempre crio um limite, uma linha pra não ultrapassar.
E assim não preciso deixar ninguém entrar.
E não deixando ninguém entrar, não espero nada.
E sem ninguém aqui, ninguém nunca precisará sair.
E sem ninguém pra sair eu não me machuco, não me corto e não sangro.
E continuo sendo só um coração.
Mas um coração solitário.
Só eu e ele.
Eu e meu coração.
Eu, meu coração e a solidão.

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nada.

Seguem as semanas,
menos pra mim.
Aqui o tempo nunca passa
sempre é assim.
Seguem os dias,
seguem sem serem meus.
São de todos,
menos meus.
Nunca foram meus.
Todos têm tempo,
menos eu.
Todos se cuidam,
menos de mim.
Todos se chocam,
menos eu.
Estou anestesiada,
acostumada a negação.
Nem doente me arrisco ficar,
o tempo não é meu,
não pode me esperar.
O mundo nunca parou
pra me esperar,
nunca deu prazo
pros meus pedaços eu juntar.
Não tenho tempo,
não posso dormir.
Não posso olhar
e nem mesmo sorrir.
Não tenho tempo,
não tenho rumo.
Não tenho prestígio,
não tenho qualidade.
Nem dinheiro
e nem mais saúde.
Não tenho força
nem ambição.
Talvez nem tenha mais
um coração.
Não tenho amigos
e nem mais me tenho.
Não tenho nada,
nem mais amor.
– Juh, nada.

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dor

Se a dor é minha
por que eu culpo o mundo?
Se o mundo nada sabe
do meu medo e terror
por que eu culpo o mundo?
Por que eu procuro culpados
pela dor que só eu sinto?
Gente toda essa
que de mim se afasta
que carregar nas costas
o peso que deveria ser só meu.

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