ironia

Corri pra ver o arco-íris. Mas devido aos meus tropeços, cheguei atrasada. Só consegui ver o céu cinza cheio de nuvens exasperadas e nada gentis. E é irônico como isso tem acontecido sempre. Eu tenho corrido muito, mas tenho estado sempre atrasada. Sempre perco o belo, o confortante, o feliz. Sempre espio pela janela os outros felizes contemplando as paisagens bonitas, mas eu mesma não consigo ver a beleza, porque a grade fechada na minha cara tampa a minha visão. Tenho corrido tanto, mas ao invés de correr pra viver, tenho corrido pra morrer. Sou obrigada a olhar somente pras paredes, pra lugares sem cor e sem vida. Vejo só nuvens carregadas de tempestade. E nunca mais vi nenhum arco-íris.

– Juliana Bassan Ayon

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ímpar

Devo ter surgido num deslize
Num erro, num defeito
Saí estranha da forma
Em nada me reconheço
Não encontro iguais
Não vejo similaridades
Não sou unidade,
Fragmento ou pedaço
Não sou porção de nada
Nem parte de conjunto nenhum
Sou peça única, solitária
Eu, inabitada
Eu por mim mesma
Vim sozinha pra essa vida
E do mesmo jeito dela partirei.
– Juh, desvalida.

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maldição

Eis que dentro de mim sinto
a maldição de ser poeta
de carregar um coração faminto
e uma mente louca e inquieta
crio histórias e fantasias
sorrio vivendo na imaginação
suplico por grandes alegrias
e descubro em mim
uma grande paixão
sonhos que me fazem arrepiar
mas o que seria de mim
se não pudesse sonhar?
ah, que grande agonia!
me sinto amaldiçoada
por ver em tudo poesia,
de amor ficar atordoada
e por sentir tudo em demasia
injusta essa maldição
que me faz amar assim
me faz berrar a negação
e me obriga a tudo isso
dar um fim.
que grande maldição
ter nascido poeta
e ser tão pateta
por expor minha rendição.

– Juliana Bassan Ayon

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arrebatada

Encontros e
desencontros
Idas e vindas
algumas vezes
idas sem vindas
Chegadas sem aviso
E partidas sem despedida
Vida corrida
sentimento impreciso
A voz que grita
na minha cabeça
Confusa e escusa
Bem contraditória
Não tenho escapatória
Fui laçada
Caçada
Abatida
Ok, eu me rendo
Acabou
Você ganhou.
– Juliana Bassan Ayon

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afogamento

Tem dias em que toda a turbulência que existe dentro de mim formam um tsunami. Ondas gigantes de desespero. Afundo, me debato e quase me afogo. Fico submersa, de olhos arregalados e de repente tudo some e eu perco a consciência. Tudo fica em silêncio. De repente, tudo vai voltando a clarear As cores vão reaparecendo. E dentro do meu caos reencontro minha calmaria.
– Juh, maremoto.

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contradições

A casca é fluida e descomplicada.
No interior, um emaranhado
avassalador de problemas.
Límpida como água
pra quem via de longe.
Forte como vodka
pra quem sente de perto.
Se olha de fora,
é simples, comum
e desembaraçada.
Mas os poucos
que ela deixa entrar
mergulham numa intensidade
que não acaba mais.

– Juliana Bassan Ayon

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acordando

O que eu vejo primeiro
todo dia ao acordar
é você, meu parceiro
É teu corpo adormecido
jogado ao meu lado
é seu sono pesado
com a cara no travesseiro.
E eu sempre te acordo
antes do despertador
Porque não consigo me segurar
Faço cafuné do seu cabelo
Chego pertinho pra sentir seu cheiro
Ah, que sorte eu tenho!
De todo dia pela janela o sol entrar
E na minha cama ele iluminar
O amor da minha vida a sonhar.
– Juh, apaixonada.

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sistema & esquema

Era eu na luta todo dia
Eu contra mim mesma
Tentando ir em frente
Contra a vida,
contra o mundo
e contra a crueldade do sistema
Esse sistema era bem um esquema
que roubava todo dia meu tempo
Minutos sumidos
nunca mais vistos.
Fui feita prisioneira
do fantasma do desalento
que me colocou uma algema

Trancou meu pensamento,
roubou meu discernimento
e quanto mais eu trabalhava
mais sem tempo eu ficava
e de tanto trabalhar eu cansava
e na correria esquecia como se amava
E por fim o que realmente importa?
Se com esse tanto de stress
amanhã posso acordar morta?
– Juh, exausta de tanto brigar.

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nós, tão sós.

Busquei versos
de grandes poetas
pra tentar,
só uma vez,
explicar o que sinto.
Decifrar
o que pressinto.
Mas nunca achei
verso nenhum
que de você lembrei.
Somos dois sós.
Duas linhas
paralelas e solitárias.
Culpa toda
dos nossos passos.
Tão incertos,
mas tão mais espertos
do que nós.

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