contradições

A casca é fluida e descomplicada.
No interior, um emaranhado
avassalador de problemas.
Límpida como água
pra quem via de longe.
Forte como vodka
pra quem sente de perto.
Se olha de fora,
é simples, comum
e desembaraçada.
Mas os poucos
que ela deixa entrar
mergulham numa intensidade
que não acaba mais.

– Juliana Bassan Ayon

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acordando

O que eu vejo primeiro
todo dia ao acordar
é você, meu parceiro
É teu corpo adormecido
jogado ao meu lado
é seu sono pesado
com a cara no travesseiro.
E eu sempre te acordo
antes do despertador
Porque não consigo me segurar
Faço cafuné do seu cabelo
Chego pertinho pra sentir seu cheiro
Ah, que sorte eu tenho!
De todo dia pela janela o sol entrar
E na minha cama ele iluminar
O amor da minha vida a sonhar.
– Juh, apaixonada.

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sistema & esquema

Era eu na luta todo dia
Eu contra mim mesma
Tentando ir em frente
Contra a vida,
contra o mundo
e contra a crueldade do sistema
Esse sistema era bem um esquema
que roubava todo dia meu tempo
Minutos sumidos
nunca mais vistos.
Fui feita prisioneira
do fantasma do desalento
que me colocou uma algema

Trancou meu pensamento,
roubou meu discernimento
e quanto mais eu trabalhava
mais sem tempo eu ficava
e de tanto trabalhar eu cansava
e na correria esquecia como se amava
E por fim o que realmente importa?
Se com esse tanto de stress
amanhã posso acordar morta?
– Juh, exausta de tanto brigar.

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nós, tão sós.

Busquei versos
de grandes poetas
pra tentar,
só uma vez,
explicar o que sinto.
Decifrar
o que pressinto.
Mas nunca achei
verso nenhum
que de você lembrei.
Somos dois sós.
Duas linhas
paralelas e solitárias.
Culpa toda
dos nossos passos.
Tão incertos,
mas tão mais espertos
do que nós.

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o choro que ninguém ouviu

A gente sempre espera uma guinada
Deseja a vida arrumada
Mas esquece que o futuro
É incerto e bem escuro

O golpe veio sempre inesperado
tornando dura minha existência
deixou meu mundo dilacerado
e tão nova recebi a penitência.

E enquanto eu sozinha chorava,
nenhum olho por aí notava
nem percebia a enorme solidão
que me tirava o sono, a luz e o chão

E sozinha meu destino meu traçava
sozinha grandes batalhas eu lutava
E no meio do olho do furacão
eu entendi que nem tudo foi em vão

E que talvez desse jeito
Essa tristeza eu transforme
E com coragem reforme
A aflição no meu peito

E aprenda a fazer do choro poesia
do sofrimento um belo verso
e pra esse coração controverso
trazer, quem sabe, alegria.

– Juliana Bassan Ayon

Poesia produzida durante a Oficina de Poesia ministrada pelo poeta Lucas Afonso no último dia do primeiro FLIJ – Festival Literário Independente de Jaú em 18/11/2018. Essa poesia ficou em segundo lugar. 💛

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voando

Hoje é um daqueles dias
que eu me perdi por aí.
Não sei se foi na ida,
ou no intervalo,
naquela pausa rápida
ou na volta pra casa.
Mas por aí eu fiquei.
Não me reconheço em mim.
Sou uma alma estranha
vivendo aprisionada nesse corpo,
nessa vida antiga,
querendo rasgar a carne
e escapar pro mundo.
Uma transgressora refém
da casca de moça subordinada.
Uma desbravadora de histórias
ansiando por novos caminhos.
Mas erroneamente correndo
toda vez pro mesmo sentido.
Pra lugares já tão conhecidos,
parados e entediantes.
Alguma coisa dentro de mim se foi
e outras partes chegaram.
Partes que precisam de mudança.
Não sou mais quem eu era
não enxergo mais como eu via
não sinto mais como eu sentia.
Não tem reversão.
Me aceite.
Acostume-se.
Acomode-se.
E me ame do jeito que estou.
-Juh, quebrando a gaiola.

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gente de bem

Santa hipocrisia
Se faz de gente de bem
Com frases de efeito
E versículos bíblicos
Pede amor e compreensão
Pede empatia
Mas até ontem tava aí
querendo mandar matar
quem é diferente de ti
Até ontem tava aí
sem se importar com teu próximo
Sem ver a dor dos teus irmãos
Só olha pro centro do seu círculo.
Usa o nome de Deus
do jeito que lhe convém
pra justificar os próprios preconceitos.
Não é capaz de ver além,
não vê que existem outras realidades
bem diferentes da sua bolha,
opostas ao seu mundo de privilégios.
Essa empatia que você pede
É pra passar pano pros teus preconceitos?
Quanto mais eu conheço
os ~cidadãos de bem~
Mais eu prefiro me afastar de todos eles.

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Ato

Diz que me disse
daqui,
diz que me disse
dali.

Quem
conta
um
conto
aumenta
um ponto.

Mas não tem sido só um ponto,
é toda a acentuação conhecida.
É até a invenção de novos verbos.
Tentam encontrar um jeito
de justificar o que é injustificável.
Tentam a todo custo defender
pontos de vista difíceis de crer.
Conhecimento de que importa?
Se o banalizaram de tal forma
que questionam o consistente
e acreditam piamente no demente.
Todos acreditam em tudo
e ninguém questiona nada.
Estudam pelas fake news no facebook
e tiram dúvidas pelos grupos do whatsApp.

Questionam estudiosos

e aplaudem ignorantes.

Massa de manobra.
Gente que é povo e se esqueceu.
Que luta com unhas e dentes
pelo fim da democracia.
Sem se dar conta de que ele mesmo
terá que se render a supremacia.
Tristes aqueles que não entendem
que nunca mais lhe será dada a chance
de dizer o que sente e o que pensa.
Acreditam pensar por si mesmos
mas estão inteiramente influenciados.
E defendem bravamente
uma ideologia desumana e opressora.
Não tem ciência de si mesmos
não tem consciência de classe.
Perderam a noção da realidade
e não vêem que eles mesmos
são o alvo e não o dardo,
são eles os oprimidos, os rebaixados.
Não vêem que são eles aqueles
que sofrerão as consequências
e não haverá reticências
porque teremos chegado ao fim.

Por isso luto
faço coro e oposição.
Questiono, debato e rebato.
E enquanto não me calam
eu indago e faço poesia.
E transformo minhas palavras
na minha grande arma.
Porque eu não aceito esse fim.
Eu ainda acredito nas pessoas.
Eu acredito num mundo melhor.
eu acredito no amor e na empatia.
Eu acredito na democracia.

– Juliana Bassan Ayon

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Nada a declarar

E se eu soubesse antes, baby
que eu podia ser o que eu quisesse
sem precisar de você
eu já tava longe desse estresse
eu ia pra Lua pra te esquecer
Eu tinha virado astronauta
Eu até roubava um foguete
subornava o aeronauta
e ia longe pra não ser seu joguete.
Eu comeria doce no almoço
e salgado de sobremesa
faria tudo ao contrário
mandaria a merda a tua frieza.
Mas sempre me acho pequena,
irrelevante e arruinada
que só sei ser problema
e difícil de ser amada.
Daí nisso tudo eu me pergunto
Onde é que isso tudo vai parar?
Se é tão difícil estar junto
não tenho mais nada a declarar.
-Juliana Bassan Ayon

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