Quem?

Não sei quem és. Já não te vejo bem…
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!…)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?…
– Não sei se tu, amor, assim me vês!…
Nossos olhos não são nossos, talvez…
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!…

És tudo e não és nada… És a desgraça…
És quem nem sequer vejo; és um que passa…
És sorriso de Deus que não mereço…

És aquele que vive e que morreu…
És aquele que é quase um outro eu…
És aquele que nem sequer conheço…

Florbela Espanca, in “A Mensageira das Violetas” Não sei quem és. Já não te vejo bem…
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!…)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?
Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?…
– Não sei se tu, amor, assim me vês!…
Nossos olhos não são nossos, talvez…
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!…
És tudo e não és nada… És a desgraça…
És quem nem sequer vejo; és um que passa…
És sorriso de Deus que não mereço…
És aquele que vive e que morreu…
És aquele que é quase um outro eu…
És aquele que nem sequer conheço…

Florbela Espanca, in “A Mensageira das Violetas”

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o coração que se contradiz

Resolvi te escrever porque falar mesmo eu não conseguiria. Eu poderia passar o dia todo fazendo listas e mais listas sobre os meus motivos, tanto pra ir quanto pra ficar. Eu tenho buscado muito por sinais, mas os sinais tem se escondido de mim. Os sinais não me acham. Procurei sinais em diversos lugares. Já tentei até usar a minha playlist de oráculo e fiquei mudando freneticamente de música pra ver se alguma letra me dizia se eu sou e significo alguma coisa pra você. Mas nunca serei capaz de decifrar as milhares de possibilidades de interpretação de uma música. E assim continuo sem respostas. Continuo buscando um rumo, mas sem saber que rumo é esse que eu busco. E no meio dessa busca tem você, bagunçando tudo. Mas cara, que viagem isso, né? Por que eu preciso tanto de você? Por que eu preciso tanto de alguém? Não que você não seja importante. Não que eu não queira saber de verdade o que você sente, se é que sente, mas é que não deveria. Não faz sentido. Se sou dona de mim, qual o motivo de deixar na mão de alguém a decisão que só cabe a mim? Eu sei como eu me sinto com o que tem acontecido. Eu sei muito bem onde dói e porque eu desejo uma revolução. E você não sabe de nada. Ninguém sabe de nada a respeito do furacão dentro do meu peito. Mas daí meu coração se contradiz. Porque eu não deveria querer que você soubesse. Mas ah, como eu queria! Por mais que seja a minha decisão, só minha, seria bom decifrar você. Seria bom saber que eu não tô sozinha nessa e que eu de algum jeito tenho alguma importância pra você. E daí quem sabe eu te convidava pra entrar, quem sabe ficar. Poderíamos tentar juntos entender aquelas músicas lá que te falei que ouvia. E que tantas vezes me lembram você no decorrer do dia. E quem sabe assim, meio sem querer, eu poderia contar com você pra ajudar organizar essa bagunça toda dentro de mim.

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pequena

Não carrego em mim nada de perfeição. Mas sou toda imensidão. Transpiro intensidade e é verdade que nem sempre sou o mais afável dos seres. Mas tô sempre na luta. Não me contento com nada e estou sempre buscando mais e sei que nada nunca vai ser suficiente. Eu choro, eu grito, eu brigo. Eu tento, sempre. E nem sempre consigo. Só tenho a certeza que minha alma já não é mais tão pequenininha, sei que estou sempre buscando ser a dona de uma alma um pouco mais imensa a cada dia.

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pqp

Eu queria não sentir o problema.
Eu não queria sentir o problema,
não como o sinto.
Eu não queria me sentir o problema.
Mas como problema sempre me sinto.
Me percebo rodeada de gente
que não parece mais gente.
De gente que não é o que diz que é.
Gente que tá me fazendo perder a fé.
Gente que matou um pedaço de mim, até.
Gente que um dia eu achei
que fosse a melhor gente.
E que hoje me faz descrente
e prova que me enganei.
Gente que usou de mim como pôde
que sugou o que podia e soube
me fazer de imbecil.
Gente que me fez de escada
subiu até onde podia e com nada
nunca me retribuiu.
Devo ter mesmo cara de trouxa
mas meu problema mesmo é ser trouxa
e que vá tudo pra puta que pariu.

(primeira vez que uso um palavrão numa poesia, mas hoje foi necessário)

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tesouro

O ônibus que eu pego pra ir embora do trabalho passa todo dia na frente da casa da minha mãe e todo dia ela espera no portão pra me dar tchau. Até se está chovendo. Aquele sorriso acolhedor. Aquele sacudir de mão que atravessa o vidro e me alcança sentada no meu banco. Aquele olhar que diz tanto, sem dizer nada. Daí eu sigo meu trajeto. Mas não sigo só porque o amor dela vem vindo junto comigo. Se esse não é o maior tesouro que se pode ter na vida, então não sei o que poderia ser. 💛

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desencaixe

Se eu não me encaixo,
por que é que eu fico?
Se eu não me sinto parte,
por que é que insisto?
Se o que eu sou afronta,
se pra onde vou amedronta,
por que é que corro o risco?
Se não posso ser compreendida
qual o sentido de ser ouvida?
Juh, desencaixada e sem respostas.

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O Eterno Retorno (Quando Nietzsche Chorou)

Nietzsche: Nós devemos morrer… Mas na hora certa. A morte só não é aterrorizante quando a vida já se consumou. Já consumou a sua vida?

Breuer: Eu já consegui muitas coisas.

Nietzsche: Mas aproveitou a vida? Ou deixou-se levar por ela? Você está fora da sua vida… sofrendo. Por uma vida que nunca foi vivida.

Breuer: Não posso mudar minha vida. Tenho minha família, meus pacientes e alunos. É tarde demais.

Nietzsche: Não posso lhe dizer como viver de outra forma, viveria segundo o plano de outra pessoa, mas talvez eu possa lhe dar um presente Josef. Eu poderia lhe dar um pensamento.

E se um demônio lhe dissesse que esta vida da forma como vive e viveu no passado você teria de vivê-la de novo. Porém inúmeras vezes mais e não haverá nada novo nela. Cada dor, cada alegria, cada coisa minúscula ou grandiosa retornaria para você mesmo. A mesma sucessão, a mesma sequência, várias e várias vezes como uma ampulheta do tempo. Imagine o infinito! Considere a possibilidade de que cada ato que você escolher Josef, você escolherá para sempre! Então toda vida não vivida permaneceria dentro de você! Não vivida… por toda a eternidade!

Gosta desta idéia…? Ou detesta…? Escolha!

Friedrich Nietzsche

você pode assistir a cena aqui.

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mergulho

vivo essa vida corrida
que implora ser vivida
que rouba a minha calma
e voraz suga minha alma

que me tira os anseios
aumenta a dor que já existe
acentua meus receios
e faz de mim vazia e triste

quero reaprender a amar
na serenidade mergulhar
e me banhar em euforia

quero me reencontrar
contra o mundo lutar
e celebrar minha autonomia

ser de novo dona de mim
e quem sabe assim
ser, enfim, feliz

– Juliana Bassan Ayon

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Eu (II)

Esse poema faz parte do livro “Charneca em flor”, publicado em 1931.

Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca! –
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma”

– Florbela Espanca

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8 de dezembro de 1984 – Matosinhos, 8 de dezembro de 1930), foi batizada como Flor Bela Lobo, e opta por se autonomear Florbela d’Alma da Conceição Espanca. A sua vida, de apenas 36 anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos, que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização, feminilidade e panteísmo. Autora polifacetada: escreveu poesia, contos, um diário e epístolas; traduziu vários romances e colaborou ao longo da sua vida em revistas e jornais de diversa índole, Florbela Espanca antes de tudo é poetisa. É à sua poesia, quase sempre em forma de soneto, que ela deve a fama e o reconhecimento. A temática abordada é principalmente amorosa. O que preocupa mais a autora é o amor e os ingredientes que romanticamente lhe são inerentes: solidão, tristeza, saudade, sedução, desejo e morte. A sua obra abrange também poemas de sentido patriótico, inclusive alguns em que é visível o seu patriotismo local: o soneto “No meu Alentejo” é uma glorificação da terra natal da autora.
Somente duas antologias, Livro de Mágoas (1919) e Livro de Sóror Saudade (1923), foram publicadas em vida da poetisa. Outras, Charneca em Flor (1931), Juvenília (1931) e Reliquiae (1934) saíram só após o seu falecimento.
fonte: Wikipedia
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