capítulo final

Tudo chega ao fim, isso é regra de todas as coisas que começam. E embora às vezes comecem primeiro de um lado do que do outro, o fim sempre é o mesmo pros dois lados. Esse timing não tem como errar. Eu nem sei se eu posso falar em partida, porque eu nunca nem te vi chegar. Eu nunca tive certeza se você realmente passou pela porta e pisou aqui dentro, se viu minhas paredes internas coloridas e se alguma vez conseguiu ver beleza dentro de mim, além da fachada. Aqui dentro é quentinho, lá fora é bem gelado. Tão quente aqui dentro que de tanto calor já estou nua, mas quando olho pra você, te vejo de casaco e cachecol, confirmando que ainda está no vento frio do lado de fora. Nunca entrou, nunca chegou. Só nos vimos pelo vidro das janelas, sem toques reais e sem afeto. A porta da frente está escancarada, já começou a congelar partes daqui e o vento forte está bagunçando todas as coisas aqui dentro. Estou perdendo o que me deixa aquecida. Me desculpe, vou fechar a porta agora.
-Juh Bassan

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te sonhei comigo no cinema

5 da manhã. Acabei de acordar de um sonho com você. Você sempre aparece por aqui, está sempre em cartaz nos cinemas da minha cabeça. Os letreiros brilhantes exibem nomes de filmes fictícios que protagonizamos juntos. Nos cartazes que enfeitam as paredes estão os nossos beijos, congelados e eternizados em pedaços de papel brilhante e colorido. A trilha sonora nos embala e nos faz dançar. Na sala, na chuva, na cama… A classificação etária é +18. Também pudera. Não consigo me controlar perto de você. E não tem lugar onde não possamos fazer amor. Até no próprio cinema, com pessoas nos vendo na tela, estamos nós lá, na última fila, isolados e enrolados num abraço. Tanto beijo que dói os músculos da bochecha. Minha pele vermelha de tanto que você me aperta, meu pescoço molhado com a tua saliva… Teu gemido no meu ouvido, me arrepiando inteira. Os corpos explodindo, gritando por um lugar privado onde possam concretizar o desejo. Mas daí as luzes se acendem. Todo mundo sumiu. O filme acabou. Os créditos finais sobem pela tela e ali está só o meu nome e de mais ninguém. Eu, como sempre, só.
– Juh Bassan

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sem par

Estranha, esquisita, excêntrica… Foi o que sempre disseram de mim. Que nunca fui normal. Mas o que é normal? Segundo o dicionário é o que “é usual, comum; natural”. Eu me acho até comum demais. Acho que talvez o que difere seja o não ter medo de ser quem eu sou, o não me importar com o julgamento. De estar confortável onde estou. Digo dentro de mim mesma. Nunca me senti confortável fora de mim, mas dentro de mim, aqui no aconchego da minha concha, é onde me sinto melhor. Esse ser assim mesmo, fazer o quê, é o que faz de mim, eu. O não tentar mudar pra agradar. Já tentei, assumo. Lá na adolescência, poucos meses atrás… Quem nunca? Mas deixar a essência de lado em troca de me sentir pertencente às rodinhas dos mais populares nunca pareceu legal. Porque quando fiz isso, deixei de pertencer a mim mesma. E pra quê? E assim fui me desenvolvendo, assumindo as minhas estranhezas e peculiaridades, aquelas características que fazem de nós seres incomparáveis. Deixei de esconder porque nada mais me envergonhava. O que eu faço é gritar quem eu sou. Assim, desse jeito, normal e incompreensível, talvez. E de mim nunca mais senti vergonha. Quem sabe eu seja peça única. Quem sabe, talvez, eu nunca ache um par. Mas aprendi a dançar muito bem sozinha, obrigada.

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um monstro que sente demais

Tenho tanta coisa dentro de mim, tanto amor pra dar, que transbordo. Sinto em excesso. Um poço fundo de exagero. Por muito tempo eu contive esse monstro de sentir dentro de mim. Quando o libertei, ele se permitiu sentir tudo o que nunca pôde. Foi insano e sem sentido. Não seguiu regras, correu riscos. Gritou feliz tudo o que sentia, sem medo de julgamentos. Mas quem disse que estamos livres de julgamentos? O preço que se paga por sentir demais é grande. E no meu ápice de sentir, não veio nada de volta. Mas quem disse que teria? Quem disse que precisaria!? Se o sentido do amor é amar, eu amo. E não amo pouco, amo fundo. Afinal, pra quê eu estou nessa vida se não for para amar?
– Juh Bassan

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acredite

“Não é afastando as pessoas que te amam – como eu, por exemplo – que você vai se sentir melhor. Entenda que eu quero estar com você, do seu lado, sabendo o que acontece. De repente me passa pela cabeça que a minha presença ou a minha insistência pode talvez irritá-lo. Então, desculpa não insistirei mais. Eu queria dizer que eu estava com você, e a menos que você não me suporte mais, continuaria te procurando e querendo saber coisas. Bobagens? Pois é, se quiser ria como você costuma rir para se defender. Não estou me defendendo de nada. Estou perguntando a você se permite que eu tenha carinho por você, seu idiota. Mas estou aqui, continuo aqui não sei até quando, e quando e se você quiser, precisar dê um toque. Te quero imensamente bem, fico pensando se dizendo assim, quem sabe, de repente você até acredita. Acredite.”

– Caio Fernando Abreu

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desconectada

para ler ouvindo: “Black Mirror” – The Arcade Fire 

“I never guessed how the mirror could ever break you”

 

Sou eu
desconectada de mim.
Eu, sozinha,
sem me reconhecer.
O reflexo no espelho
não é o meu.
Não sei quem ela é.
Sei que é assim,
tão diferente de mim.
Ela me dá saudade.
Há tanto tempo
não aparece.
Tanto tempo
que dela até se esquece.
Quem é ela?
Eu não sou.
Estou num quarto
rodeada de espelhos.
Formas geométricas
com partes de mim.
Tantos eu’s.
Escolhas, recaídas.
Tantos erros.
Dores, choro e lágrimas.
Nenhuma delas
se reconhece.
São todas estranhas.
Não partilham.
Se humilham
pelo papel principal.
Gritam e se estapeiam
por um lugar ao sol.
Os espelhos todos
estão agora em pedaços.
Não restou nada.
Todo mundo já foi embora.
Eu agora caminho
por cima dos cacos.
Meus pés sangram.
Mas não paro de andar.
Sigo em frente,
pra, enfim, achar meu lugar.

-Juh Bassan

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inteira

Tantas vezes eu escrevi sobre não pertencer, sobre como não me sentia parte de nada, como me incomodava não fazer parte das paisagens ao meu redor. Mas sempre pertenci a mim mesma. Me joguei pro lado como coadjuvante, mas dá minha vida a protagonista sou eu. Sempre fui minha. Sempre fui importante pra mim mesma e me compreendi nas minhas estranhezas. Eu gosto da minha companhia. Hoje vejo que sou parte de mim, apenas. Sou inteira. Não nasci pra ser par. E tá tudo bem.

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