final

E quando quiseres notícias de mim
Não mais vai ter jeito de saber
Construí paredes e instalei grades
E garanto assim nunca mais te ver.
Serei só lembrança e amargura
Sentirá falta da minha presença
Vai sentir aguçada a sua loucura
E se condenar na tua sentença.
Fui tanto tempo estúpida
Cansei de desprezo e desdém
Estou farta de sozinha te amar
Até daqui pra nunca mais, meu bem.
– Juh, adeus.

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eu e meu breu

Desde cedo sozinha aprendi
Que não era nada fácil ser eu
Tantas vezes a raiva em mim brotou
Porque com minha dor e meu breu
Ninguém nunca se importou.
Sou constantemente julgada
Na rua, no trabalho, na sociedade
E me sinto tantas vezes sufocada
pois ninguém me dá credibilidade.
Exigem de mim tanta coisa
Filhos, beleza, submissão
Mas ninguém de fato se importa
Com o que se passa no meu coração.
Meu fardo maior é esse
Ser mulher numa sociedade machista
Que exige de mim tanto esforço
Só pra que eu simplesmente exista
Pra suportar eu grito todo dia
Resista!
Não desista!
Persista!
O machismo é uma mão grande
que sufoca, me diminui e me cala
Que de todo lado me cerca
E rouba o meu lugar de fala.
Eu quero reconhecimento,
Respeito e integridade
Quero viver num mundo
Onde exista equidade.
Meu intelecto não se refere
Com o fato de eu ser mulher
Sou competente, sim senhor
E isso nada tem a ver
Com meu órgão reprodutor.

– Juliana Bassan Ayon

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Ônibus 256 – sentido terminal

E era uma menina como tantas outras. Quieta, comum e medíocre, daquelas que quase não se escuta a respiração e nem se nota a existência. Ia e voltava todo dia do trabalho no mesmo ônibus, sentada no mesmo banco na ida e na volta, todo dia no mesmo horário, do mesmo jeito. Sua vida parecia um reprise eterno de dias iguais e sem sentido. Até que
numa quarta-feira nublada ela viu sua rotina ser bagunçada de um jeito que nunca mais voltaria ao normal.
Saiu de casa pontualmente as 6:29 da manhã, foi até o ponto de ônibus contando exatos 37 passos, parou a dois palmos da árvore de flores amarelas e cuidadosamente segurou o passe na mão esquerda, já que usaria a direita pra se apoiar e subir no ônibus. Sentaria no ônibus logo atrás do cobrador e dali 13 minutos, quando o ônibus parasse em frente a padaria Bom Pão, ela passaria a catraca e se dirigiria a parte frontal do ônibus pois dali dois pontos era o seu local de destino. Mas ao subir no ônibus ficou paralisada no corredor ao ver que seu banco estava ocupado. O passageiro impaciente atrás dela resmungou algo sobre ela estar atrapalhando a passagem, mas ela nem se moveu. Ao se perceber encarado, o moço petulante que ocupava o lugar exclusivo dela sorriu e pulou pro banco da janela, fazendo sinal para que ela se sentasse ali, o que ela fez um pouco a contragosto. Logo após se sentar e tentar ignorar o intruso, sentiu-se observada e percebeu que o estranho a encarava. Ele sorriu. E não era qualquer sorriso. Ele era daqueles que sorri não só com os dentes, mas também com os olhos e o corpo todo. E depois desse sorriso ela finalmente viu sentido na expressão “borboletas no estômago”.
No dia seguinte ele estava no mesmo lugar, no lugar dela. Ela já o viu de fora do ônibus, se mudando do assento do corredor pro assento da janela. Ela afrouxou um pouco o passe na mão esquerda e não percebeu que o derrubou assim que subiu no ônibus. Sentou ao lado dele e recebeu de novo aquele sorriso de corpo inteiro e retribuiu com seu meio sorriso sem graça, que nem dente deixava aparecer. Ficou inquieta, não estava confortável, não se sentia a vontade ao lado dele. Alguma coisa a incomodava, era como se um calor saísse do corpo dela e viesse sufocá-la. Ela estava quase pedindo pra ele abrir a janela, quando percebeu que a padaria Bom Pão se aproximava. Então ao precisar do passe, percebeu que a mão fechada estava vazia e só com a marca das unhas cravadas na carne devido a força com que fechou a mão ao sentar ao lado do rapaz sorridente. Ela ficou olhando pra mão aberta e vazia, atônita, até que viu um passe sendo colocado ali em câmera lenta. Num pulo, olhou pro seu vizinho de banco e ganhou um daqueles sorrisos maravilhosos e uma piscadela. Sentiu o mundo desaparecendo sob seus pés. A padaria Bom Pão já estava pra trás, os dois pontos seguintes também e daí ela se deu conta de que passou do seu destino. Entregou o passe correndo ao cobrador, passou pela catraca com a delicadeza de uma jamanta, derrubou a bolsa, e saiu gritando ao motorista que parasse, pelamordedeus. Desceu e enquanto aguardava na calçada pra atravessar, observou o seu vizinho de ônibus a observando ao ir embora e leu em seus lábios “até amanhã”.
No dia seguinte recebeu o primeiro “bom dia” do moço do sorriso feliz. E daí começaram a se falar todas as manhãs. Depois disso seus dias não tinham mais aquela rotina regrada e imutável, cada dia era bem diferente do outro. Os horários não eram mais tão importantes se não fossem milimetricamente calculados.

Por fora era pífia e desinteressante, mas por dentro guardava um universo de imaginação e criatividade dentro de si. Ele se encantou com quem ela era por dentro e ela abriu o coração.

Continua…

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esquecível

Já teve gente que me perguntou se eu era solitária por causa das coisas que eu escrevo. Então eu respondo: não sou não, mas me sinto. E isso nada tem a ver com falta de amor ou carinho, ou por falta de pessoas próximas, de amigos de verdade, porque isso tenho de sobra e sou grata. Mas me sinto demasiada sozinha perante à minha insignificância no mundo. Eu me vejo pequena, errante, irrelevante e desimportante na maioria das vezes. Por quê eu, só um cisco dentre os 7,6 bilhões de habitantes desse planeta, seria de alguma forma relevante pro mundo? Qual o meu grau de importância pra achar que dentre todas as orações dessas 7,6 bilhões de pessoas, justo a minha seria ouvida e meu desejo realizado? Quem sou eu pra me achar mais importante que o meu próximo?
É lógico que eu desejo ser vista e ouvida. Mas pra quê? Com qual propósito?
Quando escrevo eu sinto como se transbordasse, mas a gente só transborda aquilo de que está cheio. E eu estou cheia de perguntas e questionamentos.
E daí é nessas horas que me sinto sozinha. E sem sentido e esquecível. Talvez seja essa a minha sina.
– Juh, irrelevante.

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esfomeada

Minha vida antes, sem chance
Era monótona, vazia e triste
Do jeito que fica meu lanche
Quando não tem a cebola crispy

Você apareceu e fiquei sem defesa
Me deixou toda apaixonada
Só não superou aquela surpresa
Da burg oferta com cebola caramelizada

Me conquistou com seus olhos amorosos
E meu coração finalmente floriu
Os dias ficaram mais calorosos
Gostosos como molho barbecue

Você enche meu coração de amor
Deixa minha vida toda com mais sabor
Chega a ser transcendental
Como meu burguer com queijo emmental

-Juliana Bassan Ayon

(Esse poema eu do pra uma promoção de um jantar de dia dos namorados da Fritas & Burgers de Jaú. Eu não ganhei, mas o poema ficou legal. Então tá aqui hahah o/)

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blue

Tem dias em que bate uma deprê existencial, o ar fica difícil de respirar, no espelho não consigo me encarar… Isso acontece muitas vezes. É aquela certeza de que eu sou uma incerteza. Aquela convicção de que eu não sou nada além de pretensão. É a afirmação da pequenez do meu ser. É a descoberta de que pra ser alguma coisa, antes eu preciso aprender muito ainda. Que existem muitas coisas que eu poderia ser. E daí a vida parece tão curta! O mundo tá aí, cheio de possibilidade e de caminhos que eu posso percorrer, mas eu não posso percorrer todos. Ou sou uma coisa, ou sou outra. Se sigo o sonho ou me mantenho na realidade. É estar frente a um oceano de imensas possibilidades e acabar me afogando em uma lagoa.
– Juh, azul.

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apego

Eu tenho três caixas onde guardo as minhas bijouterias. Mas confesso, as que mais uso quase não vêem essas caixas; elas ficam por cima de móveis, aparadores, bancadas e vez ou outra eu perco parte delas. Tenho vários brincos que um dia eram pares e hoje estão solitários. Porém isso nunca foi um problema, pois eu sempre combinei os solitários entre si e formava pares diferenciados. E entre anéis, pingentes, colares, pulseiras e correntes, essas caixas se transformam em um depósito de lembranças. Eu guardo muitas coisas que tem valor sentimental. Nunca tive esse apego com roupas, mas com esses badulaques as coisas mudam. É quase uma caixa de relíquias, porque por mais que eu saiba que não vou usar tudo, dá um certo conforto saber que estão ali. Eu juro que consigo contar uma história pra cada peça que está ali, mas algumas histórias com o tempo deixam de fazer sentido. E daí é hora de se despedir. E por isso de tempos em tempos eu faço uma limpa nessas caixas, pra tirar dali o que não se encaixa mais no meu estilo e na minha vida. Hoje eu joguei muita coisa fora; brincos sem par, anéis sem pedra, correntes sem pingente… Eram muitas peças quebradas que eu não ia consertar mesmo. Então guardar pra quê? E isso é como certas coisas na nossa vida. A gente guarda ali ocupando espaço um tempão e nunca vão fazer bem ou serem úteis. Então é hora de desapegar e deixar ir. Já outras não vão sair daqui tão cedo. Algumas coisas que estão aqui faz tempo ainda permanecerão por outros tantos anos. Como uma pedra de um anel que era da minha mãe, um brinco que era da minha irmã, um broche que ganhei da minha cunhada, um colar que eu ganhei do meu marido na nossa primeira viagem juntos… As minhas caixas de bijouterias nunca serão só caixas de bijouterias, elas sempre serão contadoras de histórias. E é bom que continue assim.
-Juh, apegada desapegando.
@oinstavelmundodajuh

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