paz

Três meses depois de eu completar 15 anos meu pai descobriu um câncer monstruoso no estômago e o médico deu pra ele poucos meses de vida. E meu refúgio era essa praça. Quantas vezes matei aula pra ficar aí, sozinha, lendo nesses bancos, ouvindo os passarinhos, desligada da realidade pesada de casa. Um ano e meio passou, daqueles dolorido demais, e ele cansou de lutar e foi embora. As pessoas sempre falam que os mortos descansam e isso nunca tinha feito sentido até o momento em que eu não conseguia dormir por ouvir os gemidos dele de dor de madrugada e suplicava aos céus misericórdia. Nessa época, eu com 16 anos e com um ódio natural do mundo, briguei com Deus porque aquilo tudo era absurdo, não fazia sentido fazer ele sofrer daquele jeito. Ele era aquele cara que comprava menos comida pra casa pra poder comprar algo pro vizinho desempregado. Ele foi a pessoa mais altruísta que eu já conheci. E que raio de deus era esse que fazia isso com meu pai? E, de novo depois da morte dele, essa praça e meus livros eram meu refúgio. Eu encontrei paz nessas árvores quando em nenhum outro lugar do mundo, nem dentro de mim mesma, eu achava paz. E essa semana, depois de um ano até agora excruciante, eu achei paz de novo nesse lugar. Sentada no banco com o livro no colo e coração na boca, me refiz, respirei fundo, fiz as pazes com as minhas lembranças e me permitir ficar em paz.

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migalhas

E depois de tanta frieza, caiu minha cara quando me dei conta de que há muito tempo eu só tenho juntado migalhas. Me contento com tão pouco, com míseros pedacinhos largados de vez em quando por aí pra mim. Esses míseros pedacinhos, que nunca significaram nada, ao se juntarem à minha imaginação e otimismo, se transformavam em uma ilusão devastadora. Um querer bem que eu queria tanto. Que eu acreditava tanto. Mas que só se vê nas histórias imaginárias dentro da minha cabeça, porque na realidade isso não existe. Nunca existiu. Porque mesmo que eu me esforce e junte todas as migalhas, elas nunca formarão algo inteiro. São só farelos, não são nada. Assim como eu.

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transformação

Amor é uma coisa
que vem de dentro da gente.
E nunca nos dá
a chance de se preparar.
Descabido, ele cresce
de fininho dentro do peito.
E sem controle
nos domina.
Mas esse amor
que por aí se espalha,
em troca dele
nada podemos esperar.
Porque amar não vêm
com nada de certeza
e não dá pra prever
se o outro seguirá a correnteza.
Amar é se doar,
se entregar e sentir.
Não dá pra amar
e exigir reciprocidade.
Não se pode exigir nada.
Amar vem de um só.
A beleza do amar
está só no sentir.
E no quanto esse amor
pode nos transformar.

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(re) moendo

Às vezes eu penso que o mundo é um moinho mesmo, como disse o Cartola. E que só faz estraçalhar as metas, esmigalhar esperanças e destruir todos os sonhos. Mas daí eu paro e olho pro céu e vejo esse azul tão imenso, cheio de alegria e possibilidade. E tenho vontade de correr pra longe desse moinho. De jogar pedras dentro dele pra que ele quebre. Porque o barulho do moinho é tão alto que a gente não consegue escutar os pássaros cantando felizes lá de cima do Ipê. Se focamos só no barulho assustador do moinho, a gente não ouve e não enxerga o que realmente alimenta nossa alma.

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condenação

Um dor aguda

profunda e dolorida

toma conta de mim.

No peito um aperto

uma dor sem conserto

quase meu fim.

Falta o ar

não consigo respirar

sinto que morrerei.

Essa dor me domina

e me faz crer que é sina

pelo sentimento que expressei.

Sou nesse mundo toda errada

e não acho que serei perdoada

pela dor que eu causei.

– Juh, condenada.

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despedaçada

Me desfaço
e despedaço
aos seus pés.
Me desgraço
e me esculacho
já sem fé.
Divido contigo meus sonhos,
meus medos e devaneios.
E observo meus cacos,
ansiosos,
esperando você os juntar.
Mas não cola,
não gruda.
Porque você não pode
me consertar.
No fundo só eu
posso me salvar.

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vem pro meu mundo

fala comigo
me deixa saber
o que se passa
com você.

fala comigo
me deixa entender
toda essa dor
que te faz sofrer.

se abre comigo
me conta seus medos
seus sonhos e anseios
eu sei guardar segredos.

eu te juro cuidar
e prometo curar
toda sua aflição.

vem pro meu mundo
e mergulha bem fundo
no meu coração.

-Juh Bassan

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afogamento

Sinto a corrosão
do sentir.
do não poder
sentir
do sentir
e ter que engolir.
a seco, sufocando,
engasgando.
sentir
sem poder.
sentir
sem enlouquecer.
sentir e nada mais.
morrer
por sentir tanto.
e no seu próprio pranto
se afogar.

– Juh, afogada.

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