sobre buscas incessantes de coisas que não existem

E no fim eu voltei lá pro meu começo. Onde na verdade eu me vejo como uma criatura insignificante num mundo cheio de criaturas insignificantes. Acho que o nosso mal é ser bicho com consciência. Porque daí essa consciência da vida e do mundo nos obriga a buscar um sentido pras coisas e pra nós mesmos e no fundo eu acho que a resposta é que nada faz sentido, que ninguém é especial, que não existe alma gêmea e nem pessoa certa pra ninguém, existem coincidências, encontros do acaso que a gente insiste em tentar encher de significado.

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areia movediça

Como posso querer morrer,
se morta já me sinto?
Como posso querer viver
se com minha morte eu consinto?
Tantas mortes eu já morri,
tanta coisa nessa vida já vivi.
Muito disso num só dia,
numa só hora,
em uns poucos segundos.
Senti a despedida,
o final e a humilhação.
Me senti preenchida
de tristeza e degradação.
Desejei de todo jeito morrer,
quis parar de sofrer,
quis nunca mais aparecer.
Logo cedo me senti morta
sem compreender essa vida torta
sem entender como se suporta
esse infortúnio desastroso.
Mas no meio dessa falta de sorte
eu, teimosa, renasci
e senti que do limbo fugi
e sem perceber cresci
e vi meu futuro esperançoso.
Um caminho todo a percorrer
uma vida inteira pra viver
um coração pra florescer.
Mas meus sentidos estão atados
meus pés atolados
no lamaçal que escolhi viver.

Ei, me escute.
Pra sair daqui preciso de você.

– Juliana Bassan Ayon

***essa foto foi minha vista da porta do busão na volta pra casa no final do dia, que me inspirou a escrever sobre viver e morrer dentro de mim mesma todo dia.

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Quem é seu quem?

Quem é?
Que te tira a concentração,
que faz na sua cabeça confusão
que entra sem pedir permissão
Quem é?
Que te dá batedeira,
que dentro de você faz fogueira,
que te deixa sem eira nem beira
Quem é?
Que é impossível mostrar indiferença,
que invade teu peito sem pedir licença,
que te faz mais que tudo desejar a presença
Quem é?
Que faz teu estômago ferver,
que faz dentro de ti chover,
quem é desordem sem o ser?
Quem é?
Que quando veio bagunçou
e nem sequer imaginou
o estrago que causou
Quem é?
Que chegou pra ficar,
que decidiu dentro de ti morar
e inevitavelmente se apaixonar?
Quem é?
– Juliana Bassan Ayon

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Coração

Eu tenho um coração.
Um coração solitário batendo rápido no peito.
Um coração que até gosta de companhia, mas que normalmente prefere estar sozinho em sua cama com suas cobertas fofinhas.
Eu sempre fui solitária.
Não sozinha, mas solitária.
Daquele tipo que se tranca dentro do quarto e dali admira a vida e a paisagem pela janela e que fica feliz com o que vê, mas não sai pra ver ou sentir pessoalmente.
Tenho meu próprio mundo e as particularidades dele.
E ninguém, fora eu, entenderia.
Por isso não crio laços apertados demais.
Sem conexões fortes demais não existe vínculo.
Tenho medo de criar vínculos.
Por isso não faço questão de explicar ou de me fazer entender.
E assim sempre crio um limite, uma linha pra não ultrapassar.
E assim não preciso deixar ninguém entrar.
E não deixando ninguém entrar, não espero nada.
E sem ninguém aqui, ninguém nunca precisará sair.
E sem ninguém pra sair eu não me machuco, não me corto e não sangro.
E continuo sendo só um coração.
Mas um coração solitário.
Só eu e ele.
Eu e meu coração.
Eu, meu coração e a solidão.

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nostalgia

E tem dias, como hoje, que sinto uma saudade grande de ser criança. Saudade de quando meu maior problema era a tarefa que eu não tinha feito e a redação que eu teria que inventar na hora pra não tomar bronca. Agora invento motivos felizes dentro da minha cabeça, motivos esses que me ajudam a levantar da cama de manhã. Saudade quando a minha maior frustração era não saber andar de bicicleta. Quanta inocência achar que esse era o fundo do poço. A gente cresce e descobre que na verdade o poço não tem fundo. Saudade daquele tempo onde eu acreditava que o mundo poderia ser um lugar melhor, daquele tempo que eu achava que os adultos tinham todas as respostas e nem imaginava que os adultos na verdade estão todos perdidos dentro de si mesmos. Saudade de sonhar, de desejar, de acreditar. Saudade de ver a vida com olhos positivos e esperançosos. Saudade de ver bondade em todos os olhos. Saudade de ter meu pai por perto e de ainda ver sorrisos de amor no rosto da minha mãe. Saudade de ainda não ter sido ferida. Saudade de não estar corrompida. Saudade. Saudade da inocência que um dia habitou em mim.

– Juliana Bassan Ayon

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cabeça ferrada

Pessoas ferradas da cabeça

ferram a cabeça das outras pessoas.

Por isso se entendam, se cuidem e se curem. E se não der pra fazer isso sozinho, peça ajuda. Converse, desabafe. Se não tiver ajuda de um amigo, procure ajude profissional. Não é vergonha, é respeitar e cuidar de você mesmo. Esse mundo tá cheio de gente sozinha carregando fardos pesados demais, a gente precisa ajudar a diminuir esses fardos e não aumentá-los ainda mais.

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nada.

Seguem as semanas,
menos pra mim.
Aqui o tempo nunca passa
sempre é assim.
Seguem os dias,
seguem sem serem meus.
São de todos,
menos meus.
Nunca foram meus.
Todos têm tempo,
menos eu.
Todos se cuidam,
menos de mim.
Todos se chocam,
menos eu.
Estou anestesiada,
acostumada a negação.
Nem doente me arrisco ficar,
o tempo não é meu,
não pode me esperar.
O mundo nunca parou
pra me esperar,
nunca deu prazo
pros meus pedaços eu juntar.
Não tenho tempo,
não posso dormir.
Não posso olhar
e nem mesmo sorrir.
Não tenho tempo,
não tenho rumo.
Não tenho prestígio,
não tenho qualidade.
Nem dinheiro
e nem mais saúde.
Não tenho força
nem ambição.
Talvez nem tenha mais
um coração.
Não tenho amigos
e nem mais me tenho.
Não tenho nada,
nem mais amor.
– Juh, nada.

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