Maldito Padrão

Maldito padrão
que define
e que dá razão
ao molde que oprime

que reprime a mulher
e a faz se ver feia
e poda as asas da menina
pela falsa perfeição alheia

e essa ilusória perfeição
que é sempre manipulada
acaba virando rejeição
na menina não amada

e a faz não se ver
pelos outros bem quista
por não parecer em nada
a modelo da capa da revista

– Juh Bassan

Continue Reading

nem viveu

Vejo rostos o tempo todo
Rostos sem expressão
Gente sem sensação
Mergulhada no lodo
Gente que sai de casa
quando o dia amanhece
E só pega o caminho de volta
quando anoitece
Gente que nem vê o filho crescer
Gente que se não fizer isso
não tem o que comer
Gente que morre pra poder viver
Trocamos vida por dinheiro
Vendemos nosso tempo
E vai chegar uma hora
Que não teremos mais tempo
As crianças terão crescido,
o cachorro envelhecido,
os pais já terão morrido…
E sobram as pessoas
Sozinhas, sem tempo
Vivendo, mas não.
Sendo engolidas pelo sistema
Gastando a maior parte da vida
Pra ganhar dinheiro
Dinheiro pra comprar coisas que nem precisamos
Que poderíamos muito bem viver sem
Dinheiro que será gasto anos tarde
Remédios pra curar as doenças
Que chegam com a idade
E acabou, morreu
Trabalhou tanto que nem viveu.

Continue Reading

acomodada

É engraçado como a gente se acostuma e se acomoda. Em menos de seis meses me acostumei com o silêncio de acordar sozinha e uma hora mais cedo. Me acostumei com os bom dias não respondidos. Me acostumei a passar o dia todo pisando com cuidado pra não me cortar nos cacos espalhados no caminho. Me acostumei a passar 50 minutos no ônibus na volta pra casa e também com o silêncio do trajeto. Me acostumei com as paisagens que via pela janela. Com os lugares afastados que passávamos e que mostravam cores lindas que contrastavam com a feiúra dos meus dias. A gente se acostuma. Por pior que seja. Nos acomodamos. Nos acostumamos. E ficamos com saudades. E a saudade que fica são dos céus coloridos e brilhantes me esperando na volta pra casa.

Continue Reading

iluminando

Dizem que quando a gente come muito o estômago dilata. E que daí quanto mais a gente come, mais aguenta comer. Acho que o coração da gente deve se comportar do mesmo jeito. Eu amo e daí amo mais e mais e mais. E não pára nunca de crescer esse amor. Estou envolta em amor. E esse amor é como se fosse um pisca-pisca enorme de luzinhas coloridas enrolado em mim. Eu sozinha na escuridão de ser eu, porém iluminada pelas luzinhas coloridas e piscantes do meu amor por você.

Continue Reading

perfeição e podridão

Todo mundo parece ter um manual de como deveríamos viver. De como deveríamos nos comportar. Principalmente na era da internet, onde todo mundo exibe suas vidas plenas e perfeitas em fotos bem pensadas e posadas, exibindo pro mundo uma felicidade invejável. Stories de garrafas de cerveja, taças de vinhos, festas, lugares bonitos… Mas quem disse que essa felicidade é real? A minha não é. Existem momentos alegres e os compartilho, sim. Exibo também as minhas taças de vinho. Mas eu não sou alegre o tempo todo. A felicidade é uma utopia. Eu não estou feliz, tenho andado triste não é de hoje. E eu escrevo sobre isso. Eu falo das dores que sinto, da minha desimportância no mundo. Porque é doloroso viver.
Hoje o dia começou com uma garoa fina e quieta, que deixou o dia gelado e cinza. No meu caminho de volta pra casa passei em frente a uma igreja, mas que são duas na verdade, uma ao lado da outra. A primeira pequena e antiga; a nova grande e imponente. As duas com as portas fechadas. E eu vi, na porta da grandona, um senhor ajeitando suas cobertas pra dormir. Esse é o mundo que vivemos. A porta da casa do Senhor, fechada, não abre para abrigar um filho D’Ele que está passando frio. No reflexo da janela do ônibus vi meu rosto ficando vermelho com a chegada do choro. Eu ferrada sem um real no bolso, sem limite no cartão. Quis descer do ônibus, mas estava longe de casa, poucos passes na carteira, final de mês… Eu não iria poder fazer nada. Eu, egoísta. Eu tenho uma casa pra voltar, uma casa que me abrigaria da chuva e do frio e com coisas que matariam a minha fome. Como se sentir confortável num mundo desse? Como voltar pra casa e simplesmente esquecer aquela cena? Como não pensar em quantos outros que estão assim? Que morrem de fome e de frio. Que sobrevivem apenas. Como não pensar nas pessoas que morrem todos os dias porque não tiveram a mesma sorte que eu? Qual a diferença entre eu e eles? O que eu tenho de diferente pra ter nascido em um lugar onde tenho o privilégio de viver confortavelmente? E todas essas pessoas que morrem afogadas no oceano fugindo da guerra em seus países? Por quê?
E toda vez em que em pensamento eu reclamo de alguma coisa na minha vida, eu penso nisso tudo. E a dor se torna maior. Porque me acho egoísta e ingrata. Porque eu deveria ser grata pelo que tenho. Mas uma tristeza tão grande tem tomado conta de mim que tenho sentido dificuldade em sentir gratidão. E daí, quando vejo cenas como a de hoje, a dor é mais intensa. E de que jeito eu a expresso? Escrevendo. Porque eu sei que eu não sou a única ridícula egoísta desse mundo. Só que ao invés de jogar meu egoísmo pra debaixo do tapete e mostrar perfeição como se espera, eu escrevo sobre a minha podridão. Sobre a minha condição de humana imperfeita. Eu escancaro. E daí, como eu disse lá no começo do post, as pessoas no geral tem um manual de comportamento. Porque eu não deveria escrever coisas tristes. Eu não deveria postar tanta coisa triste. Eu não deveria me expor tanto. Mas não sei ser de outro jeito. E não posso obrigar ninguém a se sentir confortável com isso. A ideia é justamente o contrário.

Continue Reading

chovendo

As coisas nunca são tão boas quanto a forma como as imaginamos. Nunca contamos com os imprevistos. Ainda mais eu, sempre tão otimista e sonhadora. Sempre poetizando meu olhar sobre tudo. Mas o mundo não é um sonho. Existe muita poesia por aí, mas tem dias em que o mundo não é nada poético. E fica rígido, duro e grosseiro. Hoje o dia foi desses, me deu pancada o tempo todo. Voltei pra casa chovendo junto com o céu. Quase desistindo de tudo. Mas se o dia é meu, eu sou teimosa e o transformo. E busco beleza de todo jeito. Até nas lágrimas do céu escorrendo na janela do ônibus. Quem disse que não existe poesia no chover?
-Juh, chovendo.

Continue Reading

passarinho

Não tenho dormido muito. E no pouco tempo que durmo, sonho que estou caindo. De prédios, de viadutos, de pontes… E quando estou quase chegando ao chão, acordo num pulo. E daí desperto e não durmo mais. Mas a sensação de cair continua e me acompanha. Me sinto em queda livre o dia todo. E é assim até a noite. Daí me deito, durmo e sonho com uma nova queda. E acordo antes de morrer. Esses dias sonhei que estava no alto de um poste e, quando olhava pra mim mesma, via que eu não era eu, mas sim um passarinho. E daí eu me enchia de certeza porque, mesmo que eu caísse, eu não iria morrer porque eu sabia voar. Mas daí eu caía. E, no meio da queda, eu deixava de ser passarinho e virava eu de novo. E mais uma vez quando ia dar de cara no chão, acordava. Nem nos meus sonhos as coisas tem fim, nem ali se concretizam. Eu não aguento mais esse sentimento de queda me acompanhando o dia todo. Passo o dia andando na corda bamba. É exaustivo. São só sensações por todos os lados. Sensações inacabadas. Eu querendo acabar, mas sem poder chegar ao fim.

Continue Reading

Poesia audiovisual: “O coração e a solidão”

Poesia Audiovisual: “O coração e a Solidão”
Autoria: Juliana Bassan Ayon
Participação especial: @pitpandora 💛
www.oinstavemundodajuh.com.br
Música: Ecos (tema do Premiere Clip)

Uma série de vídeos com sons, imagens cotidianas, música e poesia. Tudo junto contando uma história, um fragmento de vida. Uma tentativa de transformar a dor de viver em arte e beleza.

A poesia completa pode ser lida aqui

#poesia #poeta #poema #escritora #videopoesia #poesiaaudiovisual #poesiavisual #oinstavelmundodajuh #coração #solidão #coracãosolitário

Continue Reading