Meu destino

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida…
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida…
Cora Coralina

Continue Reading

utopia

é como se tudo
não passasse de um sonho.
uma visão lírica e perfeita
onde sentimos o corpo flutuar,
mas que o fel da distância
nos obrigou a acordar.
e a feroz realidade
veio com charadas pra me dar
incógnitas que, de verdade,
não sei como decifrar.
nesse sonho ou delírio,
como quiser chamar,
esse sentimento era recíproco,
não havia medo de amar.
-Juh, ainda desejando sonhar.

Continue Reading

mute

Ninguém nunca se interessou em parar pra me ouvir falar, então eu sempre escrevo. Eu sou o assunto que eu mais conheço, então eu escrevo bastante sobre o que eu sinto. Eu escrevo de eu pra mim. O único lugar onde eu posso ter voz são nos meus textos. Escrevendo eu sou a protagonista. Mas eu cansei. Não sei me fazer entender. Nunca soube.

Continue Reading

profundidade

Sinto uma dor gigante só por estar aqui, só pelo fato de existir. Uma dor sempre excessiva, abundante. Que me joga desavisada na água e me afoga no mergulho exagerado de sentir. Dói tanto. Dói fundo. Mas essa dor me permite perceber que ainda tenho vida dentro de mim. Não nasci pra lugares rasos e nem pra ficar na superfície. Minha intensidade exige profundidade. E alguém que não tenha medo de mergulhar.

Continue Reading

enquanto questiono ainda existo.

Quem eu sou? Quem é essa que eu vejo todo dia no espelho e que não mais conheço? Que olhos são esses que veem o mundo por mim, mas que não mais os reconheço? Quem é essa que ainda sou eu, mas a quem não mais pertenço? Interrogações que não acabam mais. É como se minha alma estivesse se desligando do meu corpo. O coração ainda bate, mas não parece mais que ele é meu. Ele ainda sabe amar, mas está quase se esquecendo como se faz, assim como eu estou me esquecendo de ser. Ainda existo enquanto questiono. Amanhã já não sei mais.

Continue Reading

não consigo continuar

Todos querem seguir em frente. Somos assim, seres humanos que querem sempre seguir em frente, que precisam seguir em frente, que precisam continuar, pessoas que estão sempre vivendo e tentando superar alguma coisa. Todo dia brigando com a morte. Evitando encontrá-la ao virar a esquina. Todo dia um novo passo rumo ao que se deseja, todo dia um pouco mais além. Dias que muitas vezes parecem mais um meio passo do que um passo inteiro. Outros que não saímos do lugar. Mas às vezes, como hoje por exemplo, recuamos ao invés de avançar. Como aqueles jogos de tabuleiros, sabe? Que você joga os seus dados com a maior fé, mas a soma dos dados te faz cair bem naquele lugar que te faz voltar várias casas pra trás. A sensação é a de rolar ladeira abaixo. É a de ver desmoronar os pedacinhos todos que você vinha juntando de você mesma, tão cuidadosamente, há tanto tempo. Os pedacinhos que você tinha colado com tanta cautela com superbonder, tentando deixar as menores cicatrizes possíveis. Voltaram todos a ser só pedacinhos de novo. Eu estava indo bem, estava me reconstruindo. Mas eu não consigo mais continuar. Hoje eu, mais uma vez, sou só cacos.

Continue Reading

entrega

Essa intuição gritante, que sempre esteve pulsando dentro de mim. Essa intuição que eu sempre larguei de lado, que eu não entendia, que eu tinha medo porque não sabia explicar. Ela está aqui, cada vez pulsando mais. Cada dia mais aflorada. Cada dia conversando mais comigo. Talvez seja só esse o recado: eu não preciso entender nada, eu só preciso sentir, me entregar e mergulhar.

Continue Reading

daqueles dias que eu desisti de morrer.

ypê

20′

Os céus de outono me deixam apaixonada. Aquele céu aquarelado, aquela mistura de cores que você não sabe onde começa o amarelo, não vê o degrau que sutilmente faz dele laranja e nem como ele chega a ser até vermelho às vezes. Contrastando com aquele azul tão intenso do resto do céu já anoitecido. O mais bonito céu de todo o ano, que dá a sensação de estar vivendo dentro de uma pintura. Que dá vontade de segurar o tempo pra ele parar ali, naquela lindeza de céu.
Mas daí chega a primavera. E os ipês floridos que despertam felizes quando ela chega. Deixando as ruas coloridas lá em cima e no chão, aquele chão antes tão sem graça que agora tem milhares de florzinhas enfeitando a passagem. Daí meu coração se enche de amor pela primavera. Mas continuo amando o Outono. Amo os dois ao mesmo tempo. Amo as belezas escondidas no cotidiano. E dentro de mim se cria um embate entre esse amor pelo imenso todo e o meu ódio por existir. Me sinto cansada de ver tanta feiúra em mim, que fujo e me apaixono pelas belezas da natureza. E isso me preenche e transforma. Me faz não querer mais morrer. Me faz querer viver até chegar a próxima estação, só pra eu me apaixonar de novo pelos céus e suas nuances de cores ou pelas flores que enfeitam os caminhos.

Continue Reading