entrega

Essa intuição gritante, que sempre esteve pulsando dentro de mim. Essa intuição que eu sempre larguei de lado, que eu não entendia, que eu tinha medo porque não sabia explicar. Ela está aqui, cada vez pulsando mais. Cada dia mais aflorada. Cada dia conversando mais comigo. Talvez seja só esse o recado: eu não preciso entender nada, eu só preciso sentir, me entregar e mergulhar.

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daqueles dias que eu desisti de morrer.

ypê

20′

Os céus de outono me deixam apaixonada. Aquele céu aquarelado, aquela mistura de cores que você não sabe onde começa o amarelo, não vê o degrau que sutilmente faz dele laranja e nem como ele chega a ser até vermelho às vezes. Contrastando com aquele azul tão intenso do resto do céu já anoitecido. O mais bonito céu de todo o ano, que dá a sensação de estar vivendo dentro de uma pintura. Que dá vontade de segurar o tempo pra ele parar ali, naquela lindeza de céu.
Mas daí chega a primavera. E os ipês floridos que despertam felizes quando ela chega. Deixando as ruas coloridas lá em cima e no chão, aquele chão antes tão sem graça que agora tem milhares de florzinhas enfeitando a passagem. Daí meu coração se enche de amor pela primavera. Mas continuo amando o Outono. Amo os dois ao mesmo tempo. Amo as belezas escondidas no cotidiano. E dentro de mim se cria um embate entre esse amor pelo imenso todo e o meu ódio por existir. Me sinto cansada de ver tanta feiúra em mim, que fujo e me apaixono pelas belezas da natureza. E isso me preenche e transforma. Me faz não querer mais morrer. Me faz querer viver até chegar a próxima estação, só pra eu me apaixonar de novo pelos céus e suas nuances de cores ou pelas flores que enfeitam os caminhos.

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paz

Três meses depois de eu completar 15 anos meu pai descobriu um câncer monstruoso no estômago e o médico deu pra ele poucos meses de vida. E meu refúgio era essa praça. Quantas vezes matei aula pra ficar aí, sozinha, lendo nesses bancos, ouvindo os passarinhos, desligada da realidade pesada de casa. Um ano e meio passou, daqueles dolorido demais, e ele cansou de lutar e foi embora. As pessoas sempre falam que os mortos descansam e isso nunca tinha feito sentido até o momento em que eu não conseguia dormir por ouvir os gemidos dele de dor de madrugada e suplicava aos céus misericórdia. Nessa época, eu com 16 anos e com um ódio natural do mundo, briguei com Deus porque aquilo tudo era absurdo, não fazia sentido fazer ele sofrer daquele jeito. Ele era aquele cara que comprava menos comida pra casa pra poder comprar algo pro vizinho desempregado. Ele foi a pessoa mais altruísta que eu já conheci. E que raio de deus era esse que fazia isso com meu pai? E, de novo depois da morte dele, essa praça e meus livros eram meu refúgio. Eu encontrei paz nessas árvores quando em nenhum outro lugar do mundo, nem dentro de mim mesma, eu achava paz. E essa semana, depois de um ano até agora excruciante, eu achei paz de novo nesse lugar. Sentada no banco com o livro no colo e coração na boca, me refiz, respirei fundo, fiz as pazes com as minhas lembranças e me permitir ficar em paz.

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migalhas

E depois de tanta frieza, caiu minha cara quando me dei conta de que há muito tempo eu só tenho juntado migalhas. Me contento com tão pouco, com míseros pedacinhos largados de vez em quando por aí pra mim. Esses míseros pedacinhos, que nunca significaram nada, ao se juntarem à minha imaginação e otimismo, se transformavam em uma ilusão devastadora. Um querer bem que eu queria tanto. Que eu acreditava tanto. Mas que só se vê nas histórias imaginárias dentro da minha cabeça, porque na realidade isso não existe. Nunca existiu. Porque mesmo que eu me esforce e junte todas as migalhas, elas nunca formarão algo inteiro. São só farelos, não são nada. Assim como eu.

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transformação

Amor é uma coisa
que vem de dentro da gente.
E nunca nos dá
a chance de se preparar.
Descabido, ele cresce
de fininho dentro do peito.
E sem controle
nos domina.
Mas esse amor
que por aí se espalha,
em troca dele
nada podemos esperar.
Porque amar não vêm
com nada de certeza
e não dá pra prever
se o outro seguirá a correnteza.
Amar é se doar,
se entregar e sentir.
Não dá pra amar
e exigir reciprocidade.
Não se pode exigir nada.
Amar vem de um só.
A beleza do amar
está só no sentir.
E no quanto esse amor
pode nos transformar.

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(re) moendo

Às vezes eu penso que o mundo é um moinho mesmo, como disse o Cartola. E que só faz estraçalhar as metas, esmigalhar esperanças e destruir todos os sonhos. Mas daí eu paro e olho pro céu e vejo esse azul tão imenso, cheio de alegria e possibilidade. E tenho vontade de correr pra longe desse moinho. De jogar pedras dentro dele pra que ele quebre. Porque o barulho do moinho é tão alto que a gente não consegue escutar os pássaros cantando felizes lá de cima do Ipê. Se focamos só no barulho assustador do moinho, a gente não ouve e não enxerga o que realmente alimenta nossa alma.

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