Falácia

trilha sonora: Pigs – Pink Floyd 
You’re nearly a laugh but you’re really a cry…
 quem diria (3)
Gente santa não existe,
Nunca enchi uma mão.
Mas aquele que se faz de santo,
Ah, daí conheço uma multidão.
O inferno são sempre os outros,
Pecado só o vizinho tem.
Fala na cara quando quer,
E pelas costas quando convém.
São sempre todos vencedores,
Ganham todas as apostas.
Mas cuidado, fique alerta
O punhal vem pelas costas.
O burburinho hoje começa
E espero a todos convencer
Bobo daquele que duvidar
Dos fatos que tento transparecer.
Confiança é um troço frágil,
Não duvide da minha percepção.
Mentira tem perna curta
E eu não sou trouxa, não.
 
-Juh, cansada de fazer papel de trouxa.
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juliana, a saudade e os pecados capitais

Para ler ouvindo:
Breathe – Pink Floyd

Tem vezes que encontramos dentro de nós sentimentos tão ruins e mesquinhos que até nos surpreendemos. Isso sempre acontece comigo, porque a verdade é que é mais fácil encontrar o pecado e a maldade nos outros ao invés de nós mesmos. Ultimamente tenho procurado e encontrado mais pecados dentro de mim do que fora.

Esses dias eu estava com o Jorge na nossa casa (a futura!) e quando estávamos indo embora vimos que o vizinho da frente estava lá, o cumprimentamos e daí ele puxou assunto. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que o vizinho não era realmente o vizinho, era o pai da dona da casa, a minha verdadeira vizinha. Ele estava fazendo toda a parte da mão de obra da reforma/construção da casa da filha. Daí contou que a vida inteira tinha trabalhado por elas, falou da luta que foi criar as filhas, do tanto que ele e a esposa batalharam e do quanto ele se sentia orgulhoso por poder ajudar a filha a construir a casa dela. Brotou amor das palavras daquele pai apaixonado pela família. E nesse momento me bateu um aperto imenso no coração  porque ele me fez lembrar muito o meu pai.

A paixão com que ele contou cada luta da vida dele e cada obstáculo que ele passou fez com que meus os olhos ficassem marejados. Eu não sei quem é a menina, minha vizinha. Não sei o nome, não sei o que ela faz da vida e nunca vi a cara dela. Mas ali, naquele momento, eu senti inveja. Não dela necessariamente, ou do que ela tem ou do que ela é, mas do pai dela. E não do pai dela propriamente dito, eu invejei o fato dela ter o pai dela e eu não ter mais o meu. Invejei o fato de que ela pode dividir esse e outros tantos momentos maravilhosos com o pai dela e eu não. Invejei o fato de que se ela já for casada, certeza que o pai dela deve a ter levado até o altar, ou se ainda não é, ele com certeza fará isso. Invejei o fato de que toda vez que ela olhar cada pedacinho da casa, ela vai lembrar que foi o pai dela quem fez. Ele vai estar junto com ela nos churrascos de domingo. Ele vai brincar com os netos, vai levar eles andarem de bicicleta, passear no parquinho. Vai contar histórias, vai ver o caderno da escola, vai encobrir das broncas que ela der. Invejei tudo isso e mais muitas outras coisas que passaram pela minha cabeça, porque a possibilidade de viver isso foi tirada de mim.

Estou aqui escrevendo este texto como um tipo de confissão. Essa perda é a minha maior dor, a minha maior frustração, o meu maior arrependimento. Dor que nunca sara, frustração que nunca acaba e arrependimento que tortura. Dói toda vez que eu encontro um pai amoroso como era o meu e sim, eu tenho uns surtos egoístas que me fazem questionar porque o meu pai morreu e não o dos outros. E depois de pensar isso tenho vontade de dar cabeçadas na parede por ter sido tão idiota a ponto de pensar dessa maneira. Mas é mais forte do que eu. Me sinto frustrada toda vez que vejo o quanto ele faz falta na minha vida e da minha família e do quanto a falta da presença dele aqui desestruturou tudo e nos deixou abandonados. E me arrependo demais por não ter falado vezes suficientes o quanto ele era importante e do quanto eu o amava.

Por vezes já me senti tomada pela ira. Já tive vontade de me meter em brigas dos outros quando vi alguém destratando o pai ou desejando que ele morresse. Dar um tapa na boca, que nem meu pai fazia comigo quando eu era criança e respondia pra ele faltando com o respeito. Às vezes me seguro, mas às vezes falo demais e acabo arranjando confusão. Mas essa sou eu, fazer o que. Como ele mesmo dizia, sempre falei mais do a que devia.

E sabe, tô aqui escrevendo tudo isso porque hoje fazem 11 anos que ele morreu e o que está tomando conta de mim é saudade e choro. E todo ano é assim. No próximo dia 25 seria aniversário dele e depois vem o dia dos pais em agosto e a raiva fica viva aqui dentro. Essa é pra mim a época mais torturante e agoniante do ano, seguida do Natal. E eu tenho pra mim que essa sensação nunca vai mudar ou passar e que vai ser assim pra sempre. E eu tenho percebido que estou ficando cada vez mais surtada nessa época. Só espero não virar uma velhota amarga por isso e espero de coração que um dia eu consiga aceitar e perdoar o que destino fez comigo, e reencontrar a serenidade.

{Juliana Bassan Ayon}
o gif é daqui
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Confessionário

Para ler ouvindo:
Shine On You Crazy Diamond – Pink Floyd

 

Eu não sou o que se pode chamar de boa garota. Eu confesso que já dei risada da desgraça dos outros. E já me senti bem melhor por ver alguém na merda. Também já deixei alguém ficar com a culpa toda de algo errado que eu tinha feito. E nem me mexi. Confesso que já menti e já omiti pra me safar. De boa. Confesso que já desejei que um desafeto morresse ou pegasse alguma doença braba, pra sofrer em dobro tudo de ruim que fez pra mim. Confesso que já fofoquei, bem maliciosamente mesmo. Já fiz picuinha, só pra prejudicar. Já critiquei pelas costas e não tive coragem de falar na cara. E disfarcei sem graça quando a pessoa chegou. Já virei os olhos e chacoalhei os ombros pro que falaram pra mim. E também já fiz careta quando a pessoa virou as costas e por duas vezes quase fui pega no flagra. Confesso também que já me fiz de santa, obviamente sem ser. Já chorei de mentirinha pra comover e geral acreditou. Já me fiz de vítima quando eu é quem era a culpada. Já distorci as coisas a meu favor. Já dei um jeito de coagir as pessoas a fazerem exatamente o que eu queria. Já fiz a minha versão dos fatos ser aceita. Já falei merda de quem eu gosto na hora da raiva e me arrependi depois. Já falei merda pra quem eu gosto na hora da ira e me arrependi também. E já tiveram vezes em que eu fiz as duas coisas com certas pessoas e não me arrependi nem um pouco. Faria de novo.
Confesso que quando era mais nova já inventei histórias fantasiosas pra ser aceita nas rodinhas, pra tentar fazer com que as pessoas me achassem mais legal ou mais interessante. E acabou que me perdi no meio das mentiras contadas e o efeito foi totalmente o contrário, fui mais ignorada do que nunca. Confesso que já fingi que não conhecia quando encontrei alguém que estudou em sei-lá-que-série-do-primário comigo. Já troquei de calçada pra evitar falar com alguém. Já culpei a minha miopia por não ter cumprimentado alguém de propósito. Já saí de casa algumas vezes simplesmente pra causar desconforto nas pessoas. Já falei coisas que não sentia com a simples intenção de ferir, machucar e cutucar a ferida.E tudo isso quer dizer o que?

Que eu sou h-u-m-a-n-a e p-e-c-a-d-o-r-a. Que eu erro todo dia, muitas vezes sabendo muito bem o que eu tô fazendo e onde isso pode me levar. E todo mundo é assim. Não existe ninguém perfeito nesse mundo. Eu não me orgulho do que já fiz e me envergonho de muita coisa. E algumas das coisas que eu fiz me martirizam até hoje e enchem meu coração de culpa. Mas não me envergonho de ser quem eu sou e me deixa orgulhosa o fato de ser imperfeita e não esconder isso. Mas me deixa mais orgulhosa ainda o fato de reconhecer e assumir o erro e ter consciência de que preciso me esforçar pra não voltar a cometê-lo. Eu acredito que o primeiro passo para ser uma pessoa melhor é reconhecer os próprios erros e ver o quão ruim podemos ser, pois somente dessa maneira podemos ver onde é que precisamos melhorar. Não adianta camuflar o que somos de verdade, assume e ponto. Até porque nenhuma mentira dura pra sempre. Gosta de mim? Gosta assim então, com o pacote de defeitos que vem junto e com o fardo dos meus erros do passado. A gente cresce cometendo erros e sem eles não seríamos quem somos e não saberíamos separar o certo do errado.

E fica a dica, não é se escondendo atrás de boas ações fajutas que nós seremos pessoas melhores de verdade.

-Juliana Bassan Ayon

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